A guer­ra dos ma­res

Publico - Ipsilon - - Sumário -

Ape­sar das per­so­na­gens Sa­la­zar e, cla­ro, Jack Spar­row, o no­vo fil­me de Pi­ra­tas das Ca­raí­bas é pu­ra re­ci­cla­gem e ex­plo­ra­ção de uma fór­mu­la. Luís Mi­guel Oli­vei­ra Pi­ra­tas das Ca­raí­bas: Ho­mens Mor­tos não Con­tam His­tó­ri­as Pi­ra­tes of the Ca­rib­be­an: De­ad Men Tell No Ta­les De Joachim Ron­ning e Espen Sandberg Com Johnny Depp, Ge­of­frey Rush, Ja­vi­er Bar­dem ini­ci­a­da em 2003 nem é se­gu­ro afir­mar que con­ti­nue a ha­ver uma re­la­ção com es­se ele­men­to bá­si­co do fil­me de pi­ra­ta­ria: o mar. Que não é aqui mui­to di­fe­ren­te, pen­sa­mos, do es­pa­ço si­de­ral n’A Guer­ra das Es­tre­las ou da noi­te ur­ba­na em qual­quer fran­chi­se de su­per-he­róis, me­ro ce­ná­rio pa­ra um cor­ru­pio de efei­tos di­gi­tais pre­ten­sa­men­te ao ser­vi­ço de uma nar­ra­ti­va, que pa­re­ce ela pró­pria ti­ra­da de um tem­pla­te apli­cá­vel de igual mo­do a qual­quer epi­só­dio d’A Guer­ra das Es­tre­las ou de um fran­chi­se de su­per-he­róis, pois tam­bém aqui já va­mos na so­ap ope­ra e em ar­gu­men­tos cu­jo se­gre­do re­si­de qua­se to­tal­men­te na re­ve­la­ção de quem é pai de quem, fi­lho de quem ou mes­mo tio de quem (grau de pa­ren­tes­co a pro­pó­si­to do qual de­ve ser men­ci­o­na­da a par­ti­ci­pa­ção, em ca­meo de uma cena, de Paul McCartney, em re­fle­xo iró­ni­co da pre­sen­ça de Keith Ri­chards em epi­só­di­os an­te­ri­o­res – iro­nia que pro­va­vel­men­te se per­de­rá pa­ra uns 80% dos es­pec­ta­do­res do fil­me). Co­mo é ób­vio, não se acre­di­ta em na­da, nem na nar­ra­ti­va for­mu­lai­ca e re­ple­ta de cli­chés nem na sua fac­tu­ra, a mon­ta­gem bom­bás­ti­ca e a ava­lan­che di­gi­tal a con­ci­li­a­rem-se pa­ra im­pe­dir qual­quer es­pé­cie de re­la­ci­o­na­men­to com a com­po­nen­te fí­si­ca da pre­sen­ça dos ac­to­res ou dos ce­ná­ri­os. E co­mo não se acre­di­ta em na­da, tal­vez por is­so mes­mo o fil­me ape­le, ip­sis ver­bis, à cren­ça: “não tens que com­pre­en­der, tens que acre­di­tar”, ou­ve-se num diá­lo­go, que de res­to não dei­xa de re­for­çar que es­tes Pi­ra­tas das Ca­raí­bas vi­vem num zeit­geist mui­to sé­cu­lo XXI, on­de a for­ça da con­vic­ção se so­bre­põe ao po­der da ra­ci­o­na­li­da­de.

Di­to is­to so­bre o de­sin­te­res­se ge­ral do fil­me, va­le fri­sar, até por is­so, que não ti­nha de ser as­sim. Há al­gu­mas idei­as bo­as, por exem­plo a per­so­na­gem de Ja­vi­er Bar­dem, de au­ra tim­bur­to­ni­a­na, um velho e zom­bi­fi­ca­do ca­ça­dor de pi­ra­tas es­pa­nhol (de no­me Sa­la­zar, e re­fe­ri­do pe­las ou­tras per­so­na­gens co­mo per­so­ni­fi­ca­ção do Mal ab­so­lu­to, o que pa­ra o pú­bli­co por­tu­guês, em cer­tos diá­lo­gos, da­rá azo a al­guns ri­si­nhos “fo­ra de con­tex­to”); as­sim co­mo a non­cha­lan­ce de Jack Spar­row ( Johnny Depp), a que o fil­me vol­ta sem­pre que se lem­bra que não tem que ter sem­pre um tom gra­ve e si­su­do, mas de­sa­pro­vei­ta­da pe­la re­la­ti­va se­cun­da­ri­za­ção da per­so­na­gem (os pro­ta­go­nis­tas são mui­to mais o jo­vem ca­sal for­ma­do por Kaya Sco­de­la­rio e Bren­ton Thwai­tes), trans­for­ma­da em an­fi­triã do seu pró­prio show, con­ce­den­do a pri­ma­zia aos con­vi­da­dos e vin­do de vez em quan­do ao pal­co pa­ra di­zer umas la­ra­chas.

Pu­ra re­ci­cla­gem e ex­plo­ra­ção de uma fór­mu­la, Pi­ra­tas das Ca­raí­bas: Ho­mens Mor­tos não Con­tam His­tó­ri­as (re­a­li­za­do por um par de no­ru­e­gue­ses ce­le­bri­za­do por um fil­me ma­ri­nho, Kon­ti­ki, so­bre a sa­ga de Thor Heyer­dahl) re­sis­te a pôr um pon­to fi­nal. As úl­ti­mas ce­nas são, mui­to cla­ra­men­te, a pro­mes­sa de um sex­to epi­só­dio.

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