Um gran­de co­lec­ci­o­na­dor que aca­bou de­ca­pi­ta­do

Publico - Ipsilon - - Sumário -

Os jor­nais in­gle­ses es­tão a clas­si­fi­cá-la co­mo “so­nho im­pos­sí­vel” de tão im­pro­vá­vel que é ver reu­ni­da boa par­te da co­lec­ção de Car­los I de In­gla­ter­ra, o rei que quis vol­tar as cos­tas ao Par­la­men­to bri­tâ­ni­co e que aca­bou de­ca­pi­ta­do de­pois de ter si­do jul­ga­do por trai­ção, em Ja­nei­ro de 1649. A ex­po­si­ção que vai le­var de vol­ta ao Rei­no Uni­do, ain­da que tem­po­ra­ri­a­men­te, obras que o mo­nar­ca co­me­çou a com­prar, e até mes­mo a en­co­men­dar, de­pois de vi­si­tar a cor­te es­pa­nho­la em 1623 — Filipe IV de Es­pa­nha era um gran­de me­ce­nas e a sua li­ga­ção a Di­e­go Ve­láz­quez é a mai­or pro­va do seu in­te­res­se pe­la pin­tu­ra — não de­ve ape­nas a sin­gu­la­ri­da­de ao seu va­lor sim­bó­li­co. É que es­te acer­vo, de­fen­dem os his­to­ri­a­do­res, es­tá mes­mo en­tre os me­lho­res e as pin­tu­ras que o com­pu­nham es­tão ho­je es­pa­lha­das por al­gu­mas das mai­o­res co­lec­ções pú­bli­cas e pri­va­das do mun­do. Mui­tas des­tas pin­tu­ras, que em Ja­nei­ro 2018 se re­en­con­tram gra­ças à co­la­bo­ra­ção da Royal Aca­demy of Arts com o Royal Col­lec­ti­on Trust, re­gres­sam “a casa” pe­la pri­mei­ra vez em qua­se 400 anos. In­dis­cu­ti­vel­men­te o mai­or co­lec­ci­o­na­dor en­tre os mo­nar­cas bri­tâ­ni­cos, se­gun­do Ch­ris­topher Le Brun, pre­si­den­te da Royal Aca­demy, ins­ti­tui­ção que com es­ta ex­po­si­ção lan­ça o programa com que fes­te­ja o seu 250.º ani­ver­sá­rio, Car­los I (1600-1649) não se li­mi­tou a fa­zer en­co­men­das a al­guns dos mais im­por­tan­tes ar­tis­tas do seu tem­po, co­mo o pintor flamengo An­to­on van Dyck, fez por com­prar obras dos mes­tres in­con­tes­ta­dos da pin­tu­ra an­ti­ga. Em Es­pa­nha, por exem­plo, com­prou pin­tu­ras de Ti­ci­a­no e Cor­reg­gio, en­tre mui­tos ou­tros, che­gan­do a po­sar pa­ra Ve­láz­quez. Ti­ci­a­no e Cor­reg­gio vol­ta­ram a es­tar na lis­ta de aqui­si­ções qu­an­do, em 1627 e 1628, re­sol­veu ad­qui­rir a co­lec­ção do du­que de Mân­tua, que in­cluía tra­ba­lhos de Ra­fa­el, Ca­ra­vag­gio ou Man­teg­na. Se­guir-se-iam au­to-re­tra­tos de Al­bre­cht Dü­rer e Rem­brandt, obras de Ber­ni­ni, Pi­e­ter Bru­e­gel, o Ve­lho, Le­o­nar­do da Vin­ci, Hans Hol­bein, Tin­to­ret­to ou Ve­ro­no­se. Qu­an­do foi exe­cu­ta­do em pra­ça pú­bli­ca, a sua co­lec­ção te­ria, se­gun­do o diá­rio bri­tâ­ni­co The Gu­ar­di­an, 1500 pin­tu­ras e 500 es­cul­tu­ras. Foi es­te acer­vo que foi ven­di­do pe­los ven­ce­do­res, li­de­ra­dos pe­lo po­lí­ti­co in­glês Oli­ver Cromwell, a quem se de­ve a abo­li­ção tem­po­rá­ria da mo­nar­quia, que só se­ria res­tau­ra­da com Car­los II, em 1660. Che­ga­do ao po­der, Car­los II pro­cu­rou reu­nir a co­lec­ção do seu Re­tra­to de Car­los I pin­ta­do por An­to­on van Dyck (1635-36) que de­ve­ria ser­vir de mo­de­lo a um bus­to do mo­nar­ca da au­to­ria de Ber­ni­ni. Faz ho­je par­te das co­lec­ções re­ais bri­tâ­ni­cas pai, mas mui­tas obras es­ta­vam já fo­ra do seu al­can­ce, in­te­gran­do, por exem­plo, as co­lec­ções re­ais fran­ce­sa e es­pa­nho­la. É por is­so que al­guns dos em­prés­ti­mos mais sig­ni­fi­ca­ti­vos da ex­po­si­ção são dos mu­seus do Lou­vre (um re­tra­to de Car­los I fei­to por Van Dyck e dois Ti­ci­a­nos, en­tre eles Ceia em Emaús) e do Pra­do (cin­co obras, in­cluin­do ou­tro re­tra­to do mo­nar­ca fei­to por Van Dyck). É tam­bém de An­to­on van Dyck o re­tra­to eques­tre que es­tá en­tre as obras que a Na­ti­o­nal Gal­lery de Lon­dres vai trans­fe­rir tem­po­ra­ri­a­men­te pa­ra as sa­las da Royal Aca­demy. A mai­or fa­tia dos em­prés­ti­mos, 90 obras, par­te, co­mo se­ria na­tu­ral, da co­lec­ção re­al bri­tâ­ni­ca. Pra­ti­ca­men­te ao mes­mo tem­po, as co­lec­ções re­ais vão inau­gu­rar uma ex­po­si­ção de­di­ca­da a Car­los II, com 220 pin­tu­ras, es­cul­tu­ras, pra­tas e ta­pe­ça­ri­as (Buc­kingham Pa­la­ce, 8 de De­zem­bro de 2017 a 13 de Maio de 2018). Char­les I: King and Col­lec­tor es­ta­rá na Royal Aca­demy de 25 de Ja­nei­ro a 15 de Abril.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.