“A obra de Paulo No­zo­li­no es­tá no to­po da fo­to­gra­fia eu­ro­peia”

Publico - Ipsilon - - Sumário -

Al­ber­to Anaut só tem uma fo­to­gra­fia na pa­re­de do pe­que­no ga­bi­ne­te na se­de da La Fá­bri­ca, em­pre­sa po­li­fa­ce­ta­da den­tro do uni­ver­so da ges­tão cul­tu­ral ma­dri­le­na. É de Robert Frank, foi ti­ra­da em 1949 e mos­tra du­as ra­pa­ri­gas a olhar de sos­laio nu­ma praia de Va­lên­cia. É uma es­co­lha re­ve­la­do­ra do seu gos­to pe­la fo­to­gra­fia do­cu­men­tal dos gran­des mes­tres e de­mons­tra um mi­ni­ma­lis­mo sur­pre­en­den­te, se se con­si­de­rar que foi da ca­be­ça des­te ho­mem que, há mais de 20 anos, saiu a ideia de or­ga­ni­zar um fes­ti­val de fo­to­gra­fia já com mi­lha­res de ex­po­si­ções no cur­rí­cu­lo. Es­te ano, o Pho­toEs­paña co­me­mo­ra a XX edi­ção. Para o ano, ce­le­bra 20 anos. Se­rão dois anos de fi­es­ta. O nú­me­ro de vi­si­tan­tes do fes­ti­val tem cres­ci­do, es­tá per­to de um mi­lhão, mas Anaut (Ma­drid, 1955), um an­ti­go jornalista que pas­sou pe­lo El País e El Mun­do, um ho­mem a quem nun­ca pa­re­cem fal­tar idei­as, mos­tra-se des­pre­o­cu­pa­do. “Não gos­to de nú­me­ros re­don­dos.” Entre os seus ar­tis­tas pre­fe­ri­dos es­tá Paulo No­zo­li­no, al­guém que “es­tá no to­po da fo­to­gra­fia eu­ro­peia”. Con­ver­sa nu­ma sa­li­nha sem tec­to, por on­de en­tra­va uma “ban­da so­no­ra” de de­ze­nas de pes­so­as a tra­ba­lhar para o ar­ran­que da XX edi­ção do Pho­toEs­paña. Pas­sou do jor­na­lis­mo para a ges­tão cul­tu­ral. Vol­ta­ria à sua pri­mei­ra pro­fis­são? Não. Fui fe­liz no jor­na­lis­mo, de­di­quei-lhe mui­tos anos, mas é uma eta­pa pas­sa­da. Tal­vez te­nha si­do o pe­río­do mais di­ver­ti­do da mi­nha vi­da pro­fis­si­o­nal. Não me ve­jo a vol­tar. Mas lem­bro-me bem de qu­an­do me vim em­bo­ra, por­que co­me­ça­ram a acon­te­cer coi­sas com as quais não me iden­ti­fi­ca­va, es­ta pre­pon­de­rân­cia dos gru­pos, es­ta an­gús­tia com as ven­das de ca­da nú­me­ro. Po­de re­cor­dar-nos o mo­men­to em que pen­sou fun­dar a La Fá­bri­ca? Que am­bi­ções ti­nha nes­sa al­tu­ra? Es­tá­va­mos no iní­cio dos anos 90. Tra­ba­lha­va no El País e, em 1994, no­me­a­ram-me sub­di­rec­tor do jor­nal. Mas [pas­sar para o jor­nal diá­rio] não era uma coi­sa que me ape­te­cia fazer ver­da­dei­ra­men­te. Gos­ta­va mais de fazer a revista do que o jor­nal. An­da­va há um par de anos com vá­ri­as idei­as na ca­be­ça, a revista Ma­ta­dor, um fes­ti­val de fo­to­gra­fia. A Ma­ta­dor já es­ta­va mui­to bem pen­sa­da. Eu não me lan­ço sim­ples­men­te, lan­ço-me por um mo­ti­vo. Dei umas vol­tas e pen­sei: “Não gos­to do que es­tou a fazer no jor­nal.” Não era um tra­ba­lho fi­no, ti­nha de fazer com que as coi­sas acon­te­ces­sem. Pra­ti­ca­men­te, já ti­nha de­ci­di­do. Ti­rei uma se­ma­na de fé­ri­as em Me­nor­ca, para pen­sar tran­qui­la­men­te. Che­guei a Ma­drid e dis­se ao di­rec­tor que me ia em­bo­ra. Num ata­que de vai­da­de, ain­da fui di­ri­gir a revista do El Mun­do. Mas saí do jor­na­lis­mo em 1997, o Pho­toEs­paña nas­ceu na Pri­ma­ve­ra de 1998. A revista Ma­ta­dor pa­re­ce uma uto­pia con­cre­ti­za­da, já que ten­ta reu­nir o me­lhor de vá­ri­as ar­tes… A Ma­ta­dor é um so­nho. Nas­ceu em 1995 com a ideia de se pu­bli­car até 2022 [se­guin­do todas as le­tras do al­fa­be­to]. Ora, 2022 es­tá per­to e es­ta­mos an­gus­ti­a­dos com a ideia do fim. Fal­tam seis nú­me­ros. Há gen­te a di­zer-me que va­mos en­con­trar ou­tra ma­nei­ra de con­ti­nu­ar, com o al­fa­be­to em le­tra mi­nús­cu­la… Para aca­bar com es­ta an­gús­tia, de­ci­di­mos fazer uma coi­sa pa­ra­le­la, a ca­da se­mes­tre. Cri­a­mos um di­ci­o­ná­rio de vi­das ilus­tres, que não se­rá mais do que um di­ci­o­ná­rio de cri­a­do­res con­tem­po­râ­ne­os, que va­mos pu­bli­car ao lon­go de seis anos, no­va­men­te de “A” a “Z”, co­mo em qu­al­quer di­ci­o­ná­rio. E qual se­rá o pri­mei­ro cri­a­dor da lis­ta? Ma­ri­na Abra­mo­vic. Se­rão pe­que­nas bi­o­gra­fi­as? Sim. Mas não se­rá só is­so. Va­mos pe­dir aos ar­tis­tas que es­co­lham uma obra sua que quei­ram mos­trar ou en­tão que fa­çam uma ori­gi­nal para a revista. O pri­mei­ro nú­me­ro te­rá a Helena Al­mei­da, co­mo não po­dia dei­xar de ser. Foi a sua ex­pe­ri­ên­cia a di­ri­gir re­vis­tas de do­min­go que o des­per­tou para o uni­ver­so da fo­to­gra­fia? An­tes dis­so já gos­ta­va mui­to de fo­to­gra­fia. Com 14 anos com­prei uma câ­ma­ra e mon­tei um la­bo­ra­tó­rio em ca­sa. Mas, qu­an­do co­me­cei a tra­ba­lhar com fo­to­gra­fia na La Fá­bri­ca, dei­xei. As mi­nhas fo­to­gra­fi­as não va­lem na­da, não têm in­te­res­se ne­nhum. Mas, sim, creio que foi no jor­na­lis­mo que mais apren­di so­bre fo­to­gra­fia, so­bre­tu­do no El País Se­ma­nal. Po­de re­ve­lar-nos um pou­co os seus gos­tos na fo­to­gra­fia? Bem, é um pou­co de­li­ca­do que fa­le dos meus gos­tos pes­so­ais nes­te campo, mas co­mo não sou co­mis­sá­rio de ex­po­si­ções, mas sim pre­si­den­te de um fes­ti­val de fo­to­gra­fia, pos­so di­zer. Gos­to da ar­te mais du­ra e não da ar­te bran­da. Gos­to da fo­to­gra­fia sé­ria, do seu la­do mais du­ro e en­saís­ti­co. Sin­to-me mui­to li­ga­do à tra­di­ção do­cu­men­tal, a pes­so­as co­mo o Al­ber­to Gar­cía-Alix, que vem da lin­gua­gem do do­cu­men­tal, mas que con­se­gue dar-lhe uma mar­ca pes­so­al. Tam­bém gos­to dos fo­tó­gra­fos tra­di­ci­o­nais, co­mo Fran­cesc Ca­ta­lá-Ro­ca, ou da cor­ren­te ne­o­do­cu­men­tal, co­mo Fer­di­nan­do Sci­an­na ou Cris­ti­na Gar­cía Ro­de­ro. São fo­tó­gra­fos mais li­ga­dos ao en­saio de lon­go pra­zo… São es­ses que me in­te­res­sam mais. Gos­to de ver uma boa fo­to­gra­fia, mas ela so­zi­nha não tem ne­nhum va­lor. Fo­to­gra­fi­as bo­as to­da a gen­te as po­de fazer. O que é di­fí­cil é fazer dez fo­to­gra­fi­as bo­as. Na fo­to­gra­fia in­ter­na­ci­o­nal, in­te­res­sa­me o que foi fei­to nos anos 60 e 70, Wil­li­am Klein, Robert Frank, Gra­ci­e­la Itur­bi­de, Paulo No­zo­li­no, de que gos­to mui­to. E não o di­go por ele es­tar nes­ta edi­ção do Pho­toEs­paña, nem por es­tar a fa­lar com um jornalista por­tu­guês. Para mim, a obra de No­zo­li­no es­tá no to­po da fo­to­gra­fia eu­ro­peia, cla­ra­men­te. E entre as ex­po­si­ções des­te ano do Pho­toEs­paña o meu au­tor pre­fe­ri­do é Paulo No­zo­li­no. Nas fo­to­gra­fi­as de­le vê-se mais ao quin­to mi­nu­to do que no pri­mei­ro… É um ho­mem du­ro, gos­to de­le co­mo pes­soa tam­bém. Na fo­to­gra­fia es­pa­nho­la tam­bém gos­to do Cris­tó­bal Ha­ra. E, nou­tra li­nha, o Che­ma Ma­doz, al­guém com um ta­len­to e uma in­te­li­gên­cia enor­mes. E de ou­tra ge­ra­ção gos­to do tra­ba­lho de Ricky Dá­vi­la. Qual é o or­ça­men­to do Pho­toEs­paña? Qu­al­quer coi­sa entre os 1,2 e os 1,3 mi­lhões de eu­ros. O fes­ti­val é ren­tá­vel? Sim. Não é mui­to ren­tá­vel, fi­ca­mos à jus­ta. Mas não te­mos pre­juí­zo. Ha­ve­rá car­ta-bran­ca para ou­tro fo­tó­gra­fo no pró­xi­mo ano? Sim. Mas não qu­e­re­mos di­vul­gar es­se no­me para já. Só pos­so di­zer que é uma mu­lher fo­tó­gra­fa. Há pla­nos para vol­tar a ter uma pre­sen­ça em Por­tu­gal? Não há pla­nos, mas há to­tal dis­po­si­ção. Só dei­xá­mos de ir a Por­tu­gal, por­que o nos­so prin­ci­pal fi­nan­ci­a­dor des­sas des­lo­ca­ções era um ban­co que te­ve mi­lhões de pro­ble­mas [BES]. Se a si­tu­a­ção eco­nó­mi­ca aju­dar, por­que não? Sen­te que mu­dou a fa­ce da fo­to­gra­fia es­pa­nho­la com o Pho­toEs­paña? De cer­ta ma­nei­ra, sim. No ano an­te­ri­or ao nos­so nas­ci­men­to, em 1998, hou­ve seis ex­po­si­ções de fo­to­gra­fia em Ma­drid. Con­tei-as. Te­nho re­ceio de me ter en­ga­na­do, mas acho que não. Quan­tas há ago­ra? Não sei bem, mas pe­lo Pho­toEs­paña há cer­ca de 60 ex­po­si­ções, só em Ma­drid. No to­tal, ha­ve­rá umas 300. A edi­ção do ano pas­sa­do do fes­ti­val che­gou per­to dos 950 mil vi­si­tan­tes. E qu­an­do che­gar a um mi­lhão? Não sei. Nem sei se te­mos de che­gar a um mi­lhão. Es­te ano, fo­ra e den­tro de Ma­drid, che­gá­mos às cem ex­po­si­ções e eu, ho­nes­ta­men­te, acho que são de­ma­si­a­das. Mas acho que te­mos de dar aos nú­me­ros um pe­so mui­to re­la­ti­vo. Não gos­to de nú­me­ros re­don­dos, por­que se trans­for­mam nu­ma obri­ga­ção to­dos os anos. S.B.G.

Al­ber­to Anaut

co­me­çou

a La Fá­bri­ca

com a revista

Ma­ta­dor em 1995.

E três anos de­pois

fun­dou o fes­ti­val

Pho­toEs­paña,

qu­an­do, em Ma­drid,

não ha­via mais

do que seis

ex­po­si­ções

de fo­to­gra­fia.

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