Co­mo co­lec­ti­vo

Publico - Ipsilon - - Sumário - Isa­bel Sa­le­ma

Cri­a­do nas vés­pe­ras da cri­se, o Ate­li­er Rua con­ta a his­tó­ria de uma ge­ra­ção que en­trou em mo­do de re­sis­tên­cia. Com­pos­to por qua­tro só­ci­os, é tam­bém o es­pe­lho de co­mo a au­to­ria é em ar­qui­tec­tu­ra ca­da vez mais uma ques­tão co­lec­ti­va.

Équa­se um po­e­ma, um par­que de cam­pis­mo es­con­di­do num sí­tio an­ti­go cha­ma­do Ros­sio ao Sul do Te­jo, ao la­do de Abran­tes. Um par­que de cam­pis­mo que se ins­ta­lou nu­ma pla­ta­for­ma li­gei­ra­men­te ele­va­da so­bre a mar­gem es­quer­da do rio, aqui trans­for­ma­do num gran­de pla­no de água. É fá­cil ima­gi­nar um fim-de-se­ma­na à som­bra dos plá­ta­nos, com des­ci­das ao Te­jo no pi­co do ca­lor, e noi­tes a olhar o es­pec­tá­cu­lo em que o edi­fí­cio do cam­ping se trans­for­ma, mal as lu­zes se acen­dem.

Os ser­vi­ços co­muns do Cam­ping Abran­tes es­con­dem-se num edi­fí­cio que se en­cai­xa co­mo uma mu­ra­lha con­tem­po­râ­nea nos li­mi­tes de­fi­ni­dos pe­la vi­la an­ti­ga. O de­se­nho va­leu ao ate­li­er Rua uma no­me­a­ção pa­ra o úl­ti­mo Pré­mio Mi­es van der Rohe, a mais pres­ti­gi­a­da dis­tin­ção eu­ro­peia de ar­qui­tec­tu­ra.

Co­mo o par­que de cam­pis­mo se ins­ta­lou nu­ma zo­na de lei­to de cheia, nes­ta re­qua­li­fi­ca­ção e am­pli­a­ção en­co­men­da­da em 2010 pe­la Câ­ma­ra Mu­ni­ci­pal de Abran­tes não se pô­de cons­truir além do que já es­ta­va aqui im­plan­ta­do. Es­co­lheu-se o que era pa­ra fi­car, dois ar­ma­zéns, e de­mo­liu-se o res­to, pe­que­nas ca­sas sem gran­de his­tó­ria.

Uma pa­re­de de be­tão zi­gue­za­gueia co­mo uma co­bra e con­tor­na o Ros­sio ao Sul do Te­jo, fa­zen­do as cos­tas des­te edi­fí­cio aber­to, que, na ver­da­de, é qu­a­se uma lon­ga ga­le­ria de 130 me­tros de com­pri­men­to. “A ideia é fo­men­tar ao má­xi­mo a re­la­ção com o ex­te­ri­or. Es­ta­mos sem­pre no ex­te­ri­or, mas não es­ta­mos no ex­te­ri­or”, diz Fran­cis­co Freitas, um dos qua­tro ar­qui­tec­tos­só­ci­os do Ate­li­er Rua.

“É uma es­tru­tu­ra mui­to sim­ples, com tu­do à vis­ta, o mais ba­ra­to pos­sí­vel”, afir­ma Fran­cis­co Freitas. O pro­gra­ma — bal­neá­ri­os, ca­fe­ta­ria, re­cep­ção, zo­na de la­va­gens — ins­ta­lou-se nas “bol­sas” cri­a­das pe­la de­mo­li­ção dos an­ti­gos edi­fí­ci­os, que são con­tor­na­das por uma fa­cha­da de­se­nha­da atra­vés do rit­mo de qu­a­se 500 lâ­mi­nas de 30 cen­tí­me­tros de es­pes­su­ra que exer­cem tam­bém a fun­ção de su­por­te.

“A luz é im­por­tan­tís­si­ma e trans­for­ma imen­so o es­pa­ço”, apon­ta Luís Va­len­te. En­quan­to ro­da em re­dor do edi­fí­cio, o sol en­tra pe­las lâ­mi­nas e es­ta pe­le com­por­ta-se de ma­nei­ras mui­to di­fe­ren­tes. À noi­te, pa­ra quem es­tá nas ten­das, a luz ar­ti­fi­ci­al da ga­le­ria é qu­a­se co­mo um can­de­ei­ro.” E Fran­cis­co Freitas acres­cen­ta: “É co­mo um fil­me das coi­sas a acon­te­cer. Ve­mos as pes­so­as a cir­cu­lar lá den­tro.”

Se o Cam­ping de Abran­tes é o pro­jec­to mais co­nhe­ci­do en­tre os pa- Ao la­do, o Cam­ping de Abran­tes, no Ros­sio ao Sul do Te­jo, com uma fa­cha­da fei­ta por qu­a­se 500 lâ­mi­nas. Em bai­xo, os Rua: Luís Va­len­te, Rui Di­di­er, Pau­lo Bor­ra­lho e Frans­cis­co Freitas

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