“Na es­co­la de­tes­ta­va os fa­vo­ri­tos da pro­fes­so­ra. De­tes­to quan­do há ci­ne­as­tas as­sim”

Publico - Ipsilon - - Sumário -

Di­rec­tor-ge­ral do Ins­ti­tu­to Lu­miè­re em Lyon (pre­si­di­do por Ber­trand Ta­ver­ni­er), on­de di­ri­ge o Fes­ti­val Lu­miè­re, Thi­er­ry Fré­maux é, des­de 2007, o de­le­ga­do-ge­ral do Fes­ti­val de Can­nes. O fã ar­den­te de Bru­ce Springs­te­en e cin­tu­rão ne­gro de ju­do su­ce­deu ao em­ble­má­ti­co Gil­les Jacob, que em 2000 o es­co­lhe­ra co­mo “nú­me­ro dois”. Mis­são: tra­zer Hollywo­od de vol­ta à Croi­set­te — na­que­les anos os ame­ri­ca­nos tor­ci­am o na­riz.

Diz-se que Lyon, e o afec­to com que Fré­maux ro­deia ca­da ges­to de tor­nar aces­sí­vel a His­tó­ria do ci­ne­ma e as ru­as do “pri­mei­ro fil­me” aos que a con­ti­nu­am, lhe aju­dou a co­mu­ni­car in­for­ma­li­da­de e ecle­tis­mo nos ri­tu­ais im­pe­ri­ais de Can­nes — que eram os de Jacob (es­te cri­ti­ca­va Fré­maux por dar o nú­me­ro de te­le­mó­vel a to­da a gen­te). Já so­bre a em­pa­tia (ou fal­ta de­la) en­tre os dois, há to­do um mun­do de es­pe­cu­la­çãop ç q que os in­si­ders po­de­rão cons­truir. Di­ga-se que as di­fe­ren­ças — de tem­pe­ra­men­to, de mun­do — são as­su­mi­das de for­ma res­pei­to­sa em Sé­lec­ti­on Ofi­ci­el­le, o diário que Fré­maux man­te­ve en­tre o en­cer­ra­men­to da edi­ção 2015 e a aber­tu­ra da de 2016. O li­vro foi pu­bli­ca­do em Fran­ça no iní­cio de 2017, ano da 70.ª

edi­ção do fes­ti­val.

Con­ta no li­vro o que lhe es­cre­veu Pi­er­re Ris­si­ent [ci­ne­clu­bis­ta, re­a­li­za­dor, as­sis­ten­te de re­a­li­za­ção, at­ta­ché de pres­se] so­bre Can­nes, os fes­ti­vais, a im­pren­sa: há ca­da vez me­nos bons fil­mes, a im­pren­sa não sa­be o que fa­zer pa­ra exis­tir, vai atrás do ir­re­le­van­te, por­que é me­diá­ti­co. O que é que o de­le­ga­do-ge­ral de Can­nes pen­sa dis­to? Não gos­to da ex­pres­são “im­pren­sa”. Não que­ro ge­ne­ra­li­zar. Apren­di ci­ne­ma a ver fil­mes e a ler so­bre ci­ne­ma. A im­pren­sa é fun­da­men­tal, a crí­ti­ca é fun­da­men­tal. Há crí­ti­cos de que gos­to mui­to, pes­so­as bri­lhan­tes: vê-se um fil­me, lê-se um texto e... é in­crí­vel co­mo um crí­ti­co foi ca­paz de... Par­ti­lha o pes­si­mis­mo de Ris­si­ent? Nem sou pes­si­mis­ta nem op­ti­mis­ta. Fa­lo do re­al. Há um im­pac­to ne­ga­ti­vo da im­pren­sa, por ve­zes. Fa­lan­do de Fran­ça:ç a im­pren­sap es­tá pre­sen­te, tem uma his­tó his­tó­ria, mas gos­ta­ria de ver ho­je um jo­vemj Fran­çois Truf­faut a fa­zer a im­pren­sa ex­plo­dir, co­mo nos anos 50.

Fa­la-se sem­pre das me mes­mas coi­sas, sem­pre, sem­pre. Es­ta­mos em 2017. Há ou­tras man ma­nei­ra de fa­lar do ci­ne­ma. É isso q que me in­te­res­sa. Por isso me re re­en­con­tro na ci­ne­fi­lia, na­que­les qu que se in­te­res­sam pe­la his­tó­ria do ci­ne­ma, e que po­dem ser fre­quen fre­quen­ta­do­res de Ci­ne­ma­te­ca, jor­na­lis­tas, ama­do­res: não es­tão no “gos­to”/“não“gos­to”/“n gos­to”, fa­lam de ci­ne­ma.

Há fil­mes que se es­tr es­trei­am e sa­be­mos já o que a im­pren­saimp vai di­zer. Em Can­nes acon­te­ce­a­cont isso. Na es­co­la de­tes­ta­va os meus co­le­gas que eram os fav fa­vo­ri­tos da pro­fes­so­ra. De­tes­to qua quan­do há ci­ne­as­tas as­sim. Por is­soiss de­fen­do Clau­de Le­lou­ch, Ro­ber Ro­bert Alt­man ou Pa­o­lo Sor­ren­ti­no. Sã São tão cri­ti­ca­dos porquê? Ten Te­nho von­ta­de de de­fen­der es es­sas pes­so­as. In­te­res­sa-me me­nos as que são sem­pre elo­gi­a­da­se­lo­gi — pre­fi­ro ir à pro­cu­ra de des­co­nhe­ci­dos.

Olhan­do pa­ra a se­lec­ção de 2001, a pri­mei­ra­pri­me pa­ra a qual con­tri­buiu: Go­dard, Oliveira, H Ha­ne­ke, Ri­vett Ri­vet­te, Hou

Hsi Hsi­ao Hsi­en, a ani­ma­ção Sch­rek — foi vo­cê que co­me­çou is­to nas com­pe­ti­ções... — Mou­lin Rou­ge a abrir, Mo­ret­ti. Não foi há mui­to e pa­re­ce de outro tem­po. Não es­ta­rá a ser me­lan­có­li­co? Não se­rá que se pas­sa­ram 15 anos e por isso di­ze­mos: “Oh la la, que se­lec­ção for­mi­dá­vel?” Em ca­da edi­ção de Can­nes nun­ca sei se o fes­ti­val vai ser con­se­gui­do ou não. Afi­nal, pas mal... Não é nostalgia. O pro­gra­ma­dor do mai­or fes­ti­val de ci­ne­ma do mun­do é um ba­ró­me­tro. Que­ria sa­ber se sen­te per­das. Quem são ho­je os Oliveira, os Ri­vet­te?... Sim, não é fá­cil. Mas ain­da há gen­te in­crí­vel — há Ni­co­las Win­ding Refn, há Gas­par Noé, há in­ven­to­res de for­mas.

Faz um re­tra­to ele­gan­te de Gil­les Jacob. Nos li­vros que es­cre­ve­ram so­bre Can­nes — o seu, diário de um ano de pro­gra­ma­ção; o de Jacob, La Vie pas­se­ra com­me un rê­ve (2009), me­mó­ri­as de um tem­po — dá pa­ra per­ce­ber as di­fe­ren­ças: Jacob im­pe­ri­al, guar­dião do tem­plo, ge­rin­do se­gre­dos; vo­cê no tur­bi­lhão da in­for­ma­ção, no meio dos ci­ne­as­tas com o seu te­le­mó­vel. Es­sa for­ma de es­tar tem con­sequên­ci­as na se­lec­ção? Gil­les Jacob ti­nha uma ati­tu­de her­dei­ra de uma tra­di­ção can­noi­se, a de Ro­ber Fa­bre le Bret (1904-1987), fun­da­dor do fes­ti­val. De­pois, era o seu es­ti­lo, o se­gre­do, es­se la­do im­pe­ri­al. Eu quan­do che­guei não ti­nha a ida­de de Jacob, não sou da mes­ma épo­ca. To­da a gen­te ho­je tem mais in­for­ma­ção, não sou só eu. O Twit­ter não exis­tia. A In­ter­net não exis­tia. Fes­te­já­mos os 70 anos de Can­nes em Maio, va­mos abrir um no­vo de­cé­nio, va­mos ten­tar in­ven­tar e pro­te­ger, todos jun­tos. Não te­nho uma con­cep­ção pes­so­al do Fes­ti­val de Can­nes. Isso era Gil­les Jacob, eu não sou as­sim. Um exem­plo: no li­vro mos­tra um ar­dor a le­var Se­an Penn e The Last Fa­ce à com­pe­ti­ção de 2016 — Penn che­gou ao con­cur­so com The Pled­ge, em 2001, pe­la sua mão. Sen­te-se res­pon­sá­vel por ele? É que nas mes­mas pá­gi­nas há um de­sin­te­res­se por The Milky Ro­ad de Kus­tu­ri­ca. Eram fil­mes com pro­ble­mas, mas es­ta­va com um e não com o outro. Não gos­to do fil­me de Penn, o de Kus­tu­ri­ca pa­re­ce-me um be­lís­si­mo can­to de cis­ne por uma for­ma de fa­zer ci­ne­ma, mas esta per­gun­ta nada tem que ver com isso...

[ri­sos] Há três anos que es­pe­ra­va Kus­tu­ri­ca. Não se po­de di­zer que es­ta­va de­sin­te­res­sa­do. Vi o fil­me de Penn três me­ses

Pu­bli­cou um diário de um ano de pro­gra­ma­ção de Can­nes. Es­cri­to na res­sa­ca do “ca­so” Mil e Uma Noi­tes, uma tri­lo­gia que foi re­cu­sa­da na com­pe­ti­ção e que triun­fou na Quin­ze­na dos Re­a­li­za­do­res.

an­tes de Can­nes, o de Kus­tu­ri­ca vi em ci­ma do fes­ti­val e o que vi não foi aqui­lo que vo­cê viu [em Ve­ne­za, on­de com­pe­ti­ria de­pois] — o fil­me não es­ta­va pron­to. In­fe­liz­men­te. Foi por isso que não o pu­de­mos mos­trar.

E o “ca­so” Miguel Go­mes? Re­fe­re-se a ele no li­vro três ve­zes. As Mil e Uma Noi­tes foi um acon­te­ci­men­to na Quin­ze­na dos Re­a­li­za­do­res 2015, de­pois da re­cu­sa na com­pe­ti­ção. Vo­cê fi­cou ir­ri­ta­do quan­do sou­be que Go­mes te­rá di­to: “Fré­maux não quis ficar com o meu fil­me, es­tá tra­ma­do.” De que é que fa­la­mos quan­do fa­la­mos des­sas “obras­pri­mas”, co­mo es­cre­ve, que o são an­tes de se­rem vis­tas? Fa­lo de Miguel Go­mes em re­la­ção à im­pren­sa fran­ce­sa. Gos­to da tri­lo­gia, mas o es­pa­ço in­di­ca­do pa­ra ela era a sec­ção Un Cer­tain Re­gard. Co­mo re­ac­ção de rai­va, Go­mes acei­tou a Quin­ze­na, on­de os jor­na­lis­tas gri­ta­ram “obra­pri­ma”. Não me in­co­mo­da, é a his­tó­ria de Can­nes. Gos­to do ci­ne­ma de­le — ele não o co­nhe­ço —, mas foi mui­to vi­o­len­to con­nos­co. Tal­vez por­que dá de­ma­si­a­dos ou­vi­dos aos jor­na­lis­tas que o to­mam por gé­nio. O tra­ba­lho em Can­nes não é “gos­to/não gos­to”. É: “O fil­me de­ve ou não es­tar em com­pe­ti­ção”? Não es­tou so­zi­nho, te­nho co­la­bo­ra­do­res, fa­lei com jor­na­lis­tas. Che­gá­mos à con­clu­são de que de­pois de Ta­bu po­de­ria ha­ver um efei­to de de­cep­ção pe­ran­te o ob­jec­to e que, por isso, o fil­me me­re­cia ser pro­te­gi­do — o Un Cer­tain Re­gard se­ria for­mi­dá­vel. Aten­ção: o fil­me não fun­ci­o­nou co­mer­ci­al­men­te, te­ve sobretudo boa im­pren­sa. Era de uma am­bi­ção ex­tra­or­di­ná­ria, mas não per­ce­bo por que tem Miguel Go­mes de go­zar de es­ta­tu­to par­ti­cu­lar. Sa­be uma coi­sa: gos­to de ser mi­no­ri­tá­rio e Miguel Go­mes é mai­o­ri­tá­rio. Gos­to de pes­so­as modestas. Es­pe­ro que ele nos apre­sen­te o seu pró­xi­mo fil­me. De que Pal­ma de Ou­ro mais se or­gu­lha? Di­fí­cil... a mi­nha pri­mei­ra Pal­ma foi Nan­ni Mo­ret­ti [ O Quar­to do Fi­lho], foi ex­tra­or­di­ná­rio che­gar a Can­nes com isso, por­que é um ci­ne­as­ta que ve­ne­ro. Gos­to de to­das as Pal­mas. Mes­mo quan­do os fil­mes não ga­nham — To­ni Erd­mann, há dois anos, “ga­nhou” no ano em que a Pal­ma foi pa­ra Jac­ques Au­di­ard [ Dhe­e­pan]. Foi um fil­me que se tor­nou mui­to po­pu­lar. E isso gra­ças à im­pren­sa. Co­mo es­te ano 120 Bat­te­ments par Mi­nu­te [Ro­bin Cam­pil­lo, Gran­de Pré­mio] e The Squa­re [Ruben Os­tlund, Pal­ma de Ou­ro]. Tal­vez. V.C.

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