Uma noi­te no ci­ne­ma de Ta­ran­ti­no

Publico - Ipsilon - - Sumário -

Dr. Jekyll & Mr. Hy­de,

Apé, de­mo­ra meia a ho­ra dos La Brea Tar Pits, no Mi­ra­cle Mi­le, ao New Be­verly, um ci­ne­ma de Los An­ge­les, zo­na mai­o­ri­ta­ri­a­men­te ju­dai­ca, que pro­gra­ma ses­sões du­plas to­dos os di­as. Pa­ra mim, os po­ços de La Brea são o lo­cal on­de Ar­nold Schwar­ze­neg­ger e um ca­dá­ver com ex­plo­si­vos caíam em O Úl­ti­mo Gran­de He­rói, fil­me de John McTi­er­nan. É uma ce­na ri­dí­cu­la, que go­za com e ce­le­bra os fil­mes de ac­ção e quer fa­zer rir.

O New Be­verly é ho­je ge­ri­do por Qu­en­tin Ta­ran­ti­no. Que em par­te se for­mou co­mo ci­né­fi­lo a as­sis­tir às ses­sões du­plas que ali ocor­rem des­de 1978. Comprou o edi­fí­cio em 2007 e se­te anos de­pois tor­nou-se o pro­gra­ma­dor prin­ci­pal, ten­do ba­ni­do as có­pi­as di­gi­tais da sa­la. Qu­an­do to­mou con­ta do ci­ne­ma, dis­se ao L.A. We­e­kly que não ha­via mal em as pes­so­as ri­rem-se das coi­sas “lou­cas, es­tra­nhas e par­vas” que acon­te­ci­am nos fil­mes que pas­sa­va — co­mo a ce­na com Schwar­zeng­ger -, mas que nin­guém “ga­nha­va pon­tos por rir de um fil­me só por ser ve­lho”. Mas foi is­so que apa­nhei qu­an­do vi­si­tei o ci­ne­ma.

O am­bi­en­te e a pro­gra­ma­ção, que jun­ta o cul­to, o clás­si­co e o ar­tís­ti­co, são o que se es­pe­ra­ria de al­go on­de Ta­ran­ti­no man­da. De fo­ra,vêem-se le­tras a anun­ci­ar os fil­mes em ci­ma da por­ta, vá­ri­os car­ta­zes e uma ca­bi­ne on­de um ci­né­fi­lo — po­dia ser Ta­ran­ti­no há dé­ca­das no clu­be de ví­deo de Ma­nhat­tan Be­a­ch — ven­de bi­lhe­tes pa­ra os fil­mes e ain­da dis­po­ni­bi­li­za o car­taz do mês. Lá den­tro, um bal­cão ven­de co­mi­da: além de pi­po­cas, ca­chor­ros quen­tes, in­cluin­do uma ver­são ve­ge­ta­ri­a­na que diz ter si­do apro­va­da por Ok­ja, de Bong-Jo­on Ho, e re­fri­ge­ran­tes ar­te­sa­nais.

Vi­ran­do à es­quer­da, a sa­la. Sen­ta 228 pes­so­as, tem um ecrã não mui­to gran­de e en­che-se pou­co pa­ra Dr. Jekyll & Mr. Hy­de, de Rou­ben Ma­mou­li­an (1931) e Dr. Black, Mr. Hy­de, uma ver­são blax­ploi­ta­ti­on re­a­li­za­da por Wil­li­am Cra­ne em 1976, que tem mui­to de ri­dí­cu­lo, sim, mas tam­bém mui­to a di­zer so­bre ra­ça e clas­se – e tem co­res mag­ní­fi­cas.

An­tes do fil­me, o ven­de­dor de bi­lhe­tes apre­sen­tou a ses­são. Com voz de mes­tre-de-ce­ri­mó­ni­as, deu a en­ten­der que as pes­so­as es­ta­vam ali pa­ra ve­rem o pri­mei­ro fil­me, um clás­si­co, e usu­frui­rem iro­ni­ca­men­te do se­gun­do. Ain­da anun­ci­ou ses­sões vin­dou­ras e que ha­ve­ria trai­lers e anún­ci­os an­ti­gos — um ma­ra­vi­lho­so anún­cio bri­tâ­ni­co do gin Gor­don’s — e uma cur­ta de Wo­ody Wo­od­pec­ker (Pi­ca-Pau) an­tes do fil­me.

Ime­di­a­ta­men­te atrás de mim al­guém le­vou a ideia de iro­nia a pei­to: com ri­sos mais ás­pe­ros do que os do Pi­ca-Pau, não pa­rou de rir em mo­men­tos sem pi­a­da. Na­da te­nho con­tra rir no ci­ne­ma. Não são ra­ras as ve­zes em que, em co­mé­di­as, fi­co de­sa­pon­ta­do qu­an­do nin­guém se ri. E, co­mo pro­va Mys­tery Sci­en­ce The­a­ter 3000, a sé­rie em que maus fil­mes são co­men­ta­dos, rir de fil­mes po­de dar ex­ce­len­te comédia. Tam­bém acon­te­ce mui­to, em fil­mes an­ti­gos, fi­car des­con­for­tá­vel, a pon­to de rir, com se­xis­mo, ra­cis­mo ou ho­mo­fo­bia ca­su­ais. Mas aí já sei ao que vou.

E já acon­te­ceu es­tra­gar fil­mes a ou­tros. Já fui, com um ami­go, re­pre­en­di­do por dois crí­ti­cos por rir du­ran­te um vi­si­o­na­men­to de im­pren­sa de A Me­lhor Des­pe­di­da de Sol­tei­ra - “não tem as­sim tan­ta pi­a­da” — e, anos de­pois, os nos­sos ri­sos afec­ta­ram um se­nhor na Ci­ne­ma­te­ca ao pon­to de mu­dar de lu­gar pa­ra não nos ou­vir du­ran­te A Oi­ta­va Mu­lher do Bar­ba Azul, de Lu­bits­ch. Só que ir com a in­ten­ção de rir de um fil­me an­ti­qua­do é di­fe­ren­te, es­pe­ci­al­men­te qu­an­do es­te foi se­lec­ci­o­na­do pe­las su­as qua­li­da­des. Aí o ri­so es­tra­ga quem só quer ver. E foi o su­fi­ci­en­te pa­ra me fa­zer que­rer ador­me­cer.

de Rou­ben Ma­mou­li­an (1931), um clás­si­co pro­gra­ma­do por Ta­ran­ti­no

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