Es­ta­ção Me­te­o­ro­ló­gi­ca António Gu­er­rei­ro Sal­vem os ho­mens!

Publico - Ipsilon - - Sumário -

Quan­do, há pou­cas se­ma­nas, foi re­ve­la­do um es­tu­do que mos­tra que as mu­lhe­res em Por­tu­gal ga­nham me­nos do que os ho­mens e es­tão sub-re­pre­sen­ta­das nos pos­tos de che­fia, ha­via tam­bém aí uma in­for­ma­ção im­plí­ci­ta: a de que é gran­de a força da inér­cia, man­ten­do as­sim uma si­tu­a­ção que irá che­gar ao fim em pouco tem­po por­que já não há na­da que a le­gi­ti­me e man­te­nha vi­va es­sa força; quan­do, na se­ma­na pas­sa­da, foi anun­ci­a­da a com­po­si­ção do no­vo go­ver­no es­pa­nhol, com mais mi­nis­tras do que mi­nis­tros, não ha­via ra­zão ne­nhu­ma pa­ra per­ce­ber­mos es­sa no­vi­da­de co­mo de­ma­gó­gi­ca in­fla­ção ide­o­ló­gi­ca, mas co­mo uma cor­res­pon­dên­cia com a ver­da­de do mun­do em que vi­ve­mos. A do­mi­na­ção mas­cu­li­na che­gou ao seu fim, sem o es­tron­do de uma re­vo­lu­ção, muito em­bo­ra se­ja uma ver­da­dei­ra re­vo­lu­ção que veio in­ter­rom­per, no nos­so tem­po, o cur­so do mun­do. So­ció­lo­gos e his­to­ri­a­do­res fa­la­rão, a pro­pó­si­to des­te de­clí­nio sur­pre­en­den­te, na ex­tin­ção da fa­mí­lia em que se ba­se­a­va o pa­tri­ar­ca­do e no es­va­ne­ci­men­to da “lei do Pai” ou, li­te­ral­men­te, da pró­pria figura do pai (qu­em não co­nhe­ce ho­je mu­lhe­res sol­tei­ras, com um fi­lho ou mais, que ab­di­ca­ram de atri­buir uma fun­ção e pe­dir res­pon­sa­bi­li­da­des ao pai da cri­an­ça?). Eu pre­fe­ria fa­lar, aqui, de um ou­tro fenómeno que é, des­de há al­gum tem­po, ob­jec­to de es­tu­do: o fa­lhan­ço dos ra­pa­zes, na es­co­la, em com­pa­ra­ção com o su­ces­so das ra­pa­ri­gas (nes­se es­tu­do so­bre o dé­fi­ce sa­la­ri­al das mu­lhe­res em Por­tu­gal, era tam­bém re­ve­la­do es­te no­vo da­do: as mu­lhe­res têm mais ha­bi­li­ta­ções es­co­la­res e aca­dé­mi­cas do que os ho­mens), o que já le­vou al­guns go­ver­nos a es­tu­dar a hi­pó­te­se de cri­ar quo­tas mas­cu­li­nas pa­ra al­guns cur­sos. Nos paí­ses oci­den­tais, a si­tu­a­ção é es­ta: os ra­pa­zes atin­gem um ní­vel de formação me­nos ele­va­do, pre­fe­rem fa­zer es­tu­dos mais breves e aban­do­nam com mais frequên­cia o per­cur­so es­co­lar. Se­gun­do dados ofi­ci­ais, em Fran­ça, 43% dos alu­nos mas­cu­li­nos chum­bam nas pro­vas do fi­nal do en­si­no se­cun­dá­rio (o bac­ca­lau­réat), con­tra 20% das alu­nas; dois ter­ços dos jo­vens que sa­em sem qua­li­fi­ca­ção do sistema es­co­lar são ra­pa­zes; nos Es­ta­dos-Uni­dos, na In­gla­ter­ra, na Amé­ri­ca do Sul e mes­mo na

Ásia Cen­tral, as mu­lhe­res são mai­o­ri­tá­ri­as na Uni­ver­si­da­de. Na Aus­trá­lia, tal co­mo na mai­or par­te dos paí­ses eu­ro­peus, a di­fe­ren­ça en­tre o nú­me­ro de ho­mens e o nú­me­ro de mu­lhe­res que ob­têm um di­plo­ma é de 10% a fa­vor das mu­lhe­res; e, na No­ru­e­ga, es­sa di­fe­ren­ça é de 18% . Es­tes nú­me­ros são for­ne­ci­dos num ar­ti­go as­si­na­do por Martin De­kei­ser no úl­ti­mo nú­me­ro (Maio-Agos­to), da revista fran­ce­sa Le dé­bat. Nes­se ar­ti­go, que faz par­te de um dos­si­er so­bre Le ma­cu­lin en ré­vo­lu­ti­on, so­mos ain­da in­for­ma­dos de que nos paí­ses mais de­sen­vol­vi­dos os ho­mens co­me­çam a ter mais di­fi­cul­da­de em ar­ran­jar em­pe­go do que as mu­lhe­res e de que nos Es­ta­dos-Uni­dos, de 1970 até ho­je, a con­tri­bui­ção das mu­lhe­res ame­ri­ca­nas pa­ra a eco­no­mia do­més­ti­ca pas­sou de 7% pa­ra 43%. Porquê es­te de­sin­ves­ti­men­to es­co­lar dos ra­pa­zes e a ca­deia de con­sequên­ci­as que de­le ad­vém? Por­que é que há uma tal di­fe­ren­ça de ati­tu­de em re­la­ção à es­co­la e à so­ci­e­da­de? Por­que é que as ra­pa­ri­gas com ori­gem nos mei­os po­bres são muito mais bem su­ce­di­das do que os seus con­gé­ne­re mas­cu­li­nos na ele­va­ção so­ci­al? As res­pos­tas a es­tas per­gun­tas são ain­da muito he­si­tan­tes, mas o que é de ci­ên­cia cer­ta é que a imaturidade pro­lon­ga­da é ho­je uma mar­ca muito mais sa­li­en­te nos ho­mens do que nas mu­lhe­res. Eles ten­dem a ser in­ca­pa­zes de as­su­mir a ple­na res­pon­sa­bi­li­da­de so­bre o seu mo­do de vida. Não se tra­ta da­que­la cul­tu­ra “jo­vem”, que de­pois da Se­gun­da Guer­ra in­ven­tou a ado­les­cên­cia co­mo ca­te­go­ria so­ci­o­ló­gi­ca e cul­tu­ral. Tra­ta-se an­tes de uma ju­ven­tu­de re­tar­da­da, só re­pre­sen­tá­vel en­quan­to pa­to­lo­gia so­ci­al.

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