A to­ca do co­e­lho

Publico - Ipsilon - - Vítor Belanciano -

O diá­lo­go que es­te filme abre com a his­tó­ria, de Por­tu­gal e da Gui­né e de Áfri­ca e do co­lo­ni­a­lis­mo, é vi­tal.

Spell Re­el

De Fi­li­pa Cé­sar Do­cu­men­tá­rio São pou­cos os fil­mes dos quais pos­sa­mos di­zer que nos con­ti­nu­am a res­so­ar na ca­be­ça ao lon­go dos me­ses. Spell Re­el é um des­ses ca­sos ra­ros, tan­to pe­la sua na­tu­re­za co­mo pe­lo seu con­tex­to. Num momento em que documentários co­mo Eu Não Sou o Teu Ne­gro, de Ra­oul Peck, ou Black Power e A Res­pei­to da Violência, de Go­ran Hu­go Olsson, co­me­çam a olhar de ou­tro mo­do pa­ra a his­tó­ria re­cen­te — que é tam­bém o momento em que os es­tu­dos fíl­mi­cos e aca­dé­mi­cos se in­te­res­sa­ram pe­los con­fli­tos co­lo­ni­ais da se­gun­da me­ta­de do sé­cu­lo XX — a abor­da­gem de Fi­li­pa Cé­sar e de uma equi­pa de cineastas e aca­dé­mi­cos aos ar­qui­vos do cinema mi­li­tan­te da Gui­né-Bis­sau é, de al­gum mo­do, o filme cer­to no momento cer­to. Pro­cu­ran­do lan­çar uma no­va luz so­bre uma his­tó­ria in­su­fi­ci­en­te­men­te es­tu­da­da e ex­plo­ra­da, Fi­li­pa Cé­sar ten­ta per­ce­ber o que es­tes ar­qui­vos di­zem so­bre uma so­ci­e­da­de e so­bre um pas­sa­do que não é co­nhe­ci­do nem se­quer pe­los pró­pri­os. Mas fá-lo in­jec­tan­do uma pro­cu­ra for­mal que en­con­tra pa­ra­le­los nas ex­pe­ri­ên­ci­as mais abs­trac­tas dos vi­deo- en­sai­os de Go­dard, ou nos tra­ve­lo­gues trans­mu­ta­dos de Ch­ris Mar­ker — aliás pro­fes­sor dos cineastas gui­ne­en­ses que fil­ma­ram a in­de­pen­dên­cia.

Spell Re­el é um filme- en­saio, sim, mas não es­tá fechado so­bre si mes­mo. É, an­tes, um filme que se abre ao es­pec­ta­dor, pro­pon­do-lhe dei­xar-se le­var por uma vi­a­gem pe­lo tem­po e pe­lo es­pa­ço que olha ho­je pa­ra as ima­gens ro­da­das on­tem e per­gun­ta o que elas nos di­zem: o que elas nos di­zem ho­je, o que nos mos­tram de on­tem, e o que nos di­zem ho­je so­bre on­tem e so­bre ho­je. Spell Re­el é um con­vi­te pa­ra des­co­brir­mos a his­tó­ria des­tas ima­gens e a his­tó­ria de uma co­mu­ni­da­de — qua­se uma

“sal­va­ção da pá­tria”, por­que es­tes tes­te­mu­nhos de um tem­po his­tó­ri­co es­ta­vam à bei­ra de se per­der (mais de me­ta­de já es­tá, aliás, per­di­da), e a sua de­vo­lu­ção aos gui­ne­en­ses, atra­vés de ses­sões de cinema iti­ne­ran­te, foi pa­ra mui­tos de­les o pri­mei­ro con­tac­to com um pas­sa­do que não fi­cou re­gis­ta­do (nu­ma li­ga­ção cu­ri­o­sa com O Can­to do Os­so­bó de Si­las Tiny). E as ques­tões que o re­en­con­tro com es­tas ima­gens le­van­tam es­tão ins­cri­tas na pró­pria na­tu­re­za do filme: sem pro­cu­rar ex­pli­car, im­por ou re­es­cre­ver, pre­ten­de-se ape­nas mos­trar, ques­ti­o­nar, in­ves­ti­gar, lan­çar.

Spell Re­el pe­de du­as, três, qua­tro vi­sões pa­ra se­guir­mos to­das as por­tas e pis­tas que ele abre, com a sen­sa­ção de que entrámos pe­la to­ca do co­e­lho e não sa­be­mos onde va­mos sair. Que fi­nal­men­te ele che­gue à es­treia co­mer­ci­al é de sau­dar, mes­mo que se­ja um filme de ni­cho: o diá­lo­go que abre com a his­tó­ria, de Por­tu­gal e da Gui­né e de Áfri­ca e do co­lo­ni­a­lis­mo, é vi­tal. J.M.

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