A gran­de cow­boya­da eu­ro­peia

Publico - Ipsilon - - Vítor Belanciano -

Um olhar, um ges­to, uma ma­nei­ra par­ti­cu­lar de me­xer as an­cas (co­mo nos wes­terns…) po­de ser to­da a ra­zão de ser de um pla­no. É um muito, muito bom filme. Luís Miguel Oli­vei­ra

Wes­tern

De Va­les­ka Gri­se­ba­ch

Com Mei­nhard Neu­mann, Rei­nhardt We­trek, Su­ley­man Ali­lov Le­ti­fov, Ve­ne­ta Frag­no­va Va­les­ka Gri­se­ba­ch é uma ci­ne­as­ta que se faz de­ma­si­a­do ra­ra. Wes­tern é o seu ter­cei­ro filme (e o pri­mei­ro a che­gar ao cir­cui­to co­mer­ci­al por­tu­guês), e in­ter­rom­pe um si­lên­cio de mais de dez anos a se­guir às du­as óp­ti­mas obras ini­ci­ais ( Mein Stern e Sehn­su­cht), en­tre 2001 e 2006. As­so­ci­a­da àqui­lo a que os crí­ti­cos, nes­sa épo­ca, cha­ma­ram a “es­co­la de Ber­lim” (e que de­sig­na­va mais um ar de fa­mí­lia en­tre cineastas de te­mas e es­ti­los bas­tan­te di­fe­ren­tes do que pro­pri­a­men­te um mo­vi­men­to con­cer­ta­do e co­e­ren­te), ain­da é ho­je pró­xi­ma de ou­tro no­me des­sa ge­ra­ção, Ma­ren Ade, a au­to­ra do bem co­nhe­ci­do To­ni Erd­mann. Gri­se­ba­ch colaborou nes­se filme, as­sim co­mo Ade co­la­bo­ra em Wes­tern. Há mais em co­mum en­tre os dois fil­mes, um mo­vi­men­to ge­o­grá­fi­co se­me­lhan­te: To­ni Erd­mann mos­tra­va os ale­mães (e o seu po­der eco­nó­mi­co) na Ro­mé­nia, Wes­tern mos­tra os ale­mães (e o seu po­der eco­nó­mi­co) na Bulgária.

E é is­so, o wes­tern, tí­tu­lo que o filme en­ver­ga com uma plé­to­ra de sig­ni­fi­ca­dos. Se­gui­mos um gru­po de tra­ba­lha­do­res ale­mães al­gu­res nos con­fins da Bulgária, per­to da fron­tei­ra, a sul, com a Gré­cia, que aí se des­lo­cam pa­ra tra­ba­lhar na cons­tru­ção de uma cen­tral hi­dro­e­léc­tri­ca. Pa­ra a mai­o­ria de­les, tu­do aqui­lo é co­mo ter­ri­tó­rio sel­va­gem, lon­ge da lei e da ci­vi­li­za­ção, e o sen­ti­men­to de su­pe­ri­o­ri­da­de é qua­se con­gé­ni­to. São co­mo um re­fle­xo dis­tor­ci­do (ou não tão dis­tor­ci­do as­sim) dos pi­o­nei­ros que no sé­cu­lo XIX avan­ça­ram na “con­quis­ta do Oes­te” ame­ri­ca­no, con­vic­tos du­ma es­pé­cie de su­pe­ri­o­ri­da­de cul­tu­ral so­bre os au­tóc­to­nes – e não é por aca­so que um dos gags mais di­ver­ti­dos des­te filme (que po­de ser des­cri­to co­mo uma co­mé­dia muito ao re­tar­da­dor, que faz sor­rir no ge­ral sem fa­zer sor­rir em qua­se na­da de par­ti­cu­lar) en­vol­ve uma ban­dei­ra ale­mã (até por­que mui­tos dos ha­bi­tan­tes lo­cais se lem­bra ain­da, e con­ta his­tó­ri­as so­bre is­so, de quan­do os ale­mães mar­cha­ram so­bre os Bal­cãs). O olhar de Gri­se­ba­ch é, nes­se as­pec­to, du­pla­men­te irónico: dá uma vi­são, mais ou me­nos ca­ri­ca­tu­ral, do olhar dos ale­mães so­bre a Europa an­ti­ga­men­te cha­ma­da “de Les­te”, e de­vol­ve o olhar des­sa Europa so­bre os ale­mães. Olha­res que não coin­ci­dem nem co­mu­ni­cam, e quan­do co­mu­ni­cam é pe­la violência e pe­la pre­po­tên­cia, co­mo na ce­na do rio em que um dos ope­rá­ri­os im­por­tu­na uma ba­nhis­ta. Por­que o olhar so­bre os ale­mães é tam­bém o olhar de uma mu­lher so­bre os ho­mens, re­tra­ta­dos num cal­do de violência e ba­zó­fia ma­chis­ta, que Va­les­ka se di­ver­te a des­cre­ver até nos seus as­pec­tos inad­ver­ti­da­men­te (?) ho­mo­e­ró­ti­cos (a ce­na, qua­se “ro­mân­ti­ca”, em que cui­dam do ca­be­lo uns dos ou­tros).

Po­día­mos ain­da acres­cen­tar as re­fe­rên­ci­as aos re­fu­gi­a­dos (es­ta­mos na­que­le cor­re­dor da imi­gra­ção vin­da do Mé­dio Ori­en­te que são os Bal­cãs) pa­ra re­for­çar a quan­ti­da­de de “co­men­tá­rio”, sem­pre obs­cu­ro (quer di­zer,

Um mis­to dos heróis pro­le­tá­ri­os que de­sa­pa­re­ce­ram do cinema eu­ro­peu e de uma al­lu­re de cow­boy

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