Um Por­tu­gal-Fran­ça jogado no teatro

Publico - Ipsilon - - Sumário - Gon­ça­lo Fro­ta

Odia mais tris­te da vi­da de Fé­lix foi aque­le em que Por­tu­gal venceu o Cam­pe­o­na­to da Eu­ro­pa de futebol, com um go­lo de Éder, o jo­ga­dor a qu­em todos tor­ci­am o na­riz, aos de­zoi­to mi­nu­tos e vin­te e qua­tro se­gun­dos do pro­lon­ga­men­to. En­quan­to Por­tu­gal e Fran­ça fa­zi­am do Es­tá­dio de Fran­ça um cam­po de ba­ta­lha nos li­mi­tes acei­tes pe­lo desporto, Fé­lix acom­pa­nha­va os úl­ti­mos mo­men­tos da vi­da do pai - ao la­do da sua ca­ma de hos­pi­tal; de­pois nu­ma sa­la de espera, on­de os cor­pos dos jo­ga­do­res na te­le­vi­são não pas­sa­vam de sombras, e ao olhar o ecrã via os atle­tas “cor­rer e cair, e pen­sa­va se era mais di­fí­cil lu­tar de pé ou lu­tar dei­ta­do, co­mo é que se de­fen­de uma bo­la que são mui­tas, e que tal­vez se­jam ca­da vez mais”.

É uma das histórias que com­põe Kif-Kif. “Kif” é um vo­cá­bu­lo ára­be cu­ja sig­ni­fi­ca­ção apon­ta para “igual”. E é is­so que Kif-Kif quer ser: um jo­go de teatro, com 11 in­tér­pre­tes de ca­da la­do, me­ta­de por­tu­gue­sa, me­ta­de fran­ce­sa, num en­con­tro en­tre as companhias Te­a­tro­mos­ca e Théâ­tre de la Tê­te Noi­re, li­gan­do Ca­cém e Or­léans uma tro­ca de ex­pe­ri­ên­ci­as e nar­ra­ti­vas cru­za­das, es­cri­tas a par­tir des­se mo­te fu­te­bo­lís­ti­co. Diz Pe­dro Alves, do Te­a­tro­mos­ca, que uma das idei­as passava por de­sar­mar es­sa cren­ça ge­ne­ra­li­za­da de que as gen­tes do teatro não são da­das ao desporto e ao futebol em par­ti­cu­lar.

Nu­ma pri­mei­ra lei­tu­ra en­ce­na­da de Kif-Kif em Fran­ça - a es­treia do es­pec­tá­cu­lo acon­te­ce es­ta sex­ta­fei­ra, em Or­léans, es­tan­do as pri­mei­ras apre­sen­ta­ções por­tu­gue­sas mar­ca­das para 4 e 6 de Ju­lho, no Au­di­tó­rio Mu­ni­ci­pal An­tó­nio Sil­va (Ca­cém) e no Ci­ne-teatro Ave­ni­da (Cas­te­lo Bran­co), res­pec­ti­va­men­te -, os qua­tro ac­to­res pro­fis­si­o­nais do pro­jec­to (dois de ca­da na­ci­o­na­li­da­de) apre­sen­ta­ram ex­cer­tos dos textos de Jor­ge Pa­li­nhos e Leï­la Anis, e lo­go “hou­ve uma es­pec­ta­do­ra in­dig­na­da” que se ma­ni­fes­tou con­tra as du­as companhias se en­con­tra­rem a pre­pa­rar um es­pec­tá­cu­lo com jo­vens (os 18 ac­to­res não-pro­fis­si­o­nais) a par­tir do uni­ver­so do futebol. Ar­gu­men­ta­va a se­nho­ra que “o futebol é o ca­pi­ta­lis­mo ele­va­do ao má­xi­mo, é sel­va­gem, é o di­a­bo, é hor­ro­ro­so e não de­ve ser dis­cu­ti­do com os jo­vens”. “É en­gra­ça­do por­que o futebol sem­pre foi a mi­nha mai­or pai­xão, mai­or até do que o teatro, e jo­gar futebol sem­pre foi al­go ex­tra­or­di­ná­rio”, con­fes­sa Pe­dro Alves ao Íp­si­lon.

E foi o futebol, no dia de uma par­ti­da en­tre FC Por­to e Lil­le (num fes­ti­val que de­cor­ria nes­ta ci­da­de fran­ce­sa), a apro­xi­mar Alves do di­rec­tor do Tê­te Noi­re, Pa­tri­ce Dou­chet. A par­tir des­se mo­men­to, as cum­pli­ci­da­des pas­sa­ram para os pal­cos e os dois fo­ram in­sis­tin­do em co­la­bo­ra­ções que se ma­te­ri­a­li­za­ram tan­to em in­ter­câm­bi­os co­mo em co-pro­du­ções. Mas Kif-Kif é a pri­mei­ra cri­a­ção con­jun­ta de raiz, pen­sa­da para ac­to­res e pú­bli­co ju­ve­nil à bo­leia do 18º ani­ver­sá­rio da com­pa­nhia por­tu­gue­sa, pre­tex­to para ref lec­tir sobre o que sig­ni­fi­ca atin­gir a mai­o­ri­da­de.

Com o pri­mei­ro en­con­tro de tra­ba­lho a ter lu­gar em ple­na res­sa­ca da vi­tó­ria por­tu­gue­sa no Europeu, os dois en­ce­na­do­res pen­sa­ram em con­vo­car para o teatro o la­do per­for­ma­ti­vo do futebol en­quan­to es­pec­tá­cu­lo e não to­do o car­na­val do negócio mul­ti­mi­li­o­ná­rio cri­a­do em tor­no de um sim­ples jo­go em que 22 pes­so­as cor­rem atrás de uma bo­la. Até por­que, lem­bra Dou­chet, “as re­gras e os va­lo­res do desporto e as que vi­go­ram nos te­a­tros são por vezes muito próximas: ab­ne­ga­ção, sen­ti­do de co­lec­ti­vo, res­pei­to pe­los com­pa­nhei­ros, o ac­to pú­bli­co.” Es­que­cen­do a vi­o­lên­cia nos estádios, as con­tra­ta­ções por mon­tan­tes obs­ce­nos, o mar­ke­ting ci­cló­pi­co ou a di­men­são pu­ra­men­te mer­can­ti­lis­ta do desporto, Alves e Dou­chet qui­se­ram ins­pi­rar-se em mo­men­tos co­mo o da “ima­gem icó­ni­ca, lin­dís­si­ma, da tra­ça a pou­sar nas pes­ta­nas do Ronaldo” ou es­sou­tro mo­men­to “qua­se ane­dó­ti­co, mas ex­tre­ma­men­te be­lo, da cri­an­ça por­tu­gue­sa que con­for­tou o adep­to fran­cês em lá­gri­mas”.

“In­te­res­sa­va-nos que os jo­vens ti­ves­sem opor­tu­ni­da­de de brincar e de jo­gar, mes­mo quan­do no texto ana­li­sa­mos ques­tões re­la­ci­o­na­das com a ico­no­gra­fia, os deuses do futebol, a ima­gem dos jo­ga­do­res co­mo per­so­na­gens que di­tam a moda e que mar­cam os pas­sos que da­mos, até quan­do se ten­ta des­truir o uni­ver­so más­cu­lo que se as­so­cia tan­tas vezes ao futebol”, con­tex­tu­a­li­za Pe- dro Alves. Dou­chet acres­cen­ta que “Leï­la que­ria ser­vir-se do desporto para falar de iden­ti­da­de, da pas­sa­gem de fron­tei­ras, da acei­ta­ção do ou­tro”, li­vre de usar tu­do quan­to qui­ses­se en­xer­tar no texto, des­de que res­pei­tas­se a ideia de se di­ri­gir a ac­to­res e pú­bli­co jo­vens.

Jo­go ami­gá­vel

Se­guin­do um mé­to­do co­pi­a­do do mun­do do futebol, as equi­pas trei­na­ram à par­te, re­a­li­za­ram os seus es­tá­gi­os au­tó­no­mos an­tes da fi­nal, de­sen­vol­ve­ram tác­ti­cas di­fe­ren­tes para o jo­go e ti­ve­ram a pos­si­bi­li­da­de de se es­tu­da­rem mu­tu­a­men­te, mas sem ca­pa­ci­da­de efec­ti­va de in­ter­fe­rir no tra­ba­lho do ou­tro. Sig­ni­fi­ca is­to que os dois pro­ces­sos cri­a­ti­vos, de­sen­vol­vi­dos com au­to­res e ac­to­res lo­cais, de­ram for­ma a um texto por­tu­guês e ou­tro fran­cês, cu­jos en­cai­xe e mon­ta­gem finais so­men­te acon­te­cem nos di­as ime­di­a­ta­men­te an­tes da es­treia em Or­léans. Sem pro­cu­rar si­tu­a­ções de con­fron­to en­tre as du­as par­tes, Pe­dro Alves re­cla­ma um mo­de­lo mais se­me­lhan­te ao daqueles “jo­gos ami­gá­veis en­tre a equi­pa do Luís Fi­go e a equi­pa do Romário, em que no fi­nal me­tem o guarda-redes a pon­ta-de-lan­ça e de­pois dei­xam o Usain Bolt fa­zer um sprint para mar­car um go­lo de cal­ca­nhar”.

As di­fe­ren­ças fa­zem-se sen­tir tam­bém na na­tu­re­za dos gru­pos de tra­ba­lho. Se no ca­so fran­cês os jo­vens são pro­ve­ni­en­tes de con­tex­tos bas­tan­te di­fe­ren­tes, os por­tu­gue­ses já se co­nhe­ci­am en­tre si na grande mai­o­ria - fi­ca­ram no­ve de­pois de pe­nei­ra­do o gru­po de 15 can­di­da­tos, atraí­dos por um es­pec­tá­cu­lo sobre futebol ou até pe­la opor­tu­ni­da­de de comer um ke­bab em Fran­ça (no Te­a­tro­mos­ca ainda se ques­ti­o­nam o que há de tão especial nos ke­babs fran­ce­ses). Es­sa re­la­ção pré­via le­vou, acre­di­ta o di­rec­tor do Te­a­tro­mos­ca, a que os três me­ses de tra­ba­lho con­jun­to pro­du­zis­sem tais efei­tos que as ima­gi­na­das par­tes co­rais (in­cluí­das na pri­mei­ra ver­são) para os ac­to­res não-pro­fis­si­o­nais aca­bas­sem re­es­cri­tas por Jor­ge Pa­li­nhos a fim de lhes ofe­re­cer um pro­ta­go­nis­mo ca­da vez mai­or.

Os rel­va­dos de futebol, co­mo é fá­cil de adi­vi­nhar, não de­mo­ram a ser ce­ná­rio para um qua­dro bas­tan­te mais alar­ga­do. Para Dou­chet, além da com­po­nen­te ar­tís­ti­ca, KifKif pro­por­ci­o­na­rá “aos jo­vens des­tes bair­ros a pos­si­bi­li­da­de de des­co­bri­rem o que sig­ni­fi­ca ter 16 ou 17 anos em Fran­ça e em Por­tu­gal”. Mas o pal­co é tam­bém uma cai­xa de res­so­nân­cia que per­mi­ti­rá trazer à su­per­fí­cie as histórias des­tes jo­vens, a co­ber­to de uma si­tu­a­ção mais pro­te­gi­da lan­ça­da pe­la ficção te­a­tral. Co­mo é o ca­so da história de Fé­lix, dei­xa­da a pai­rar na ab­so­lu­ta in­cer­te­za quan­to à sua ve­ra­ci­da­de. Tam­bém ele não es­que­ce­rá on­de estava no ins­tan­te em que Éder pu­xou o pé atrás e chu­tou.

Nu­ma parceria com o Théâ­tre de la Tê­te Noi­re, o Te­a­tro­mos­ca es­treia na quar­ta-fei­ra, no Ca­cém, Kif-Kif.

Um Por­tu­galF­ran­ça ami­gá­vel, dis­pu­ta­do por 22 jo­vens ac­to­res em ci­ma do pal­co.

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