KISMIF — o punk na aca­de­mia

Publico - Ipsilon - - Sumário -

En­tre 4 e 7 de Ju­lho, no Por­to, Gen­der, dif­fe­ren­ces, iden­ti­ti­es and DIY cul­tu­res.

Pas­sou de­pois vá­ri­os anos des­li­ga­da do ce­ná­rio mu­si­cal. O que a fez re­gres­sar, sen­tir de no­vo o en­tu­si­as­mo por en­sai­ar, com­por, gra­var?

Quan­do a ban­da a aca­bou, ar­ran­jei tra­ba­lho e não pen­sei em fa­zer mú­si­ca ou­tra vez, mas en­tre­tan­to co­me­cei a sen­tir aque­la pul­gui­nha. Ar­ran­jei uma ban­da com o Char­les Hayward [ba­te­ris­ta dos This He­at], mais um nos te­cla­dos e uma no cla­ri­ne­te baixo e no con­tra­bai­xo. Era fan­tás­ti­co, mas vi­vía­mos muito lon­ge uns dos ou­tros e a ban­da [Ro­se­land] des­fez-se. De­mos dois con­cer­tos e de­sa­pa­re­ce­mos.

En­tre­tan­to, pe­ran­te o en­tu­si­as­mo das ri­ot-gr­r­rl e de Kurt Co­bain, que lhe apa­re­ceu na lo­ja de an­ti­gui­da­des em que trabalhava, sem que a

Ana sou­bes­se qu­em era o lí­der dos Nir­va­na, as Rain­co­ats gra­va­ram um quar­to ál­bum [ Lo­o­king in the Sha­dows, 1996] e con­ti­nu­am ac­ti­vas des­de en­tão. O ano pas­sa­do, o per­cur­so da ban­da foi ver­ti­do para li­vro, com Jenn Pelly a as­si­nar The Rain­co­ats para a sé­rie 33 1/3.

Que sen­sa­ções a atra­ves­sa­ram ao re­en­con­trar-se nele com a sua pró­pria história?

O li­vro da Jenn fez-me sen­tir que aqui­lo que fiz va­leu a pe­na e que con­ti­nua a ter al­gum im­pac­to. Há uns me­ses fui ver três ban­das. As Pri­ests e as Down­town Boys, am­bas ame­ri­ca­nas, e as Big Jo­a­nie, in­gle­sas. Du­as de­las têm um ou dois ho­mens, mas são ban­das prin­ci­pal­men­te fe­mi­ni­nas, e to­das têm ba­te­ris­tas fe­mi­ni­nas. Is­so para mim foi fan­tás­ti­co de ver no mes­mo con­cer­to. Du­ran­te a noi­te du­as ra­pa­ri­gas re­co­nhe­ce­ram-me e vi­e­ram falar co­mi­go. Ti­nham ban­das e per­gun­tei-lhes e o que to­ca­vam. Eram as du­as ba­te­ris­tas. Ou se­ja, es­ta­vam cin­co ba­te­ris­tas mulheres no mes­mo con­cer­to. Achei fan­tás­ti­co. Na al­tu­ra em que co­me­çá­mos, se ca­lhar não ha­via cin­co mulheres ba­te­ris­tas em Lon­dres.

Ke­ep it simple, play it fast (KISMIF) é uma con­fe­rên­cia que de­se­nha um movimento con­di­zen­te com a sim­pli­ci­da­de que ad­vo­ga na sua de­sig­na­ção: mos­trar que o punk, sem ter de dei­xar a rua po­de e de­ve ter exis­tên­cia aca­dé­mi­ca. Não no sen­ti­do de se abur­gue­sar, mas co­mo motor de pensamento, re­fle­xão e va­lo­ri­za­ção da cultura do it your­self. Daí que o pro­gra­ma da KISMIF Con­fe­ren­ce, na sua quar­ta edi­ção e a ter lu­gar en­tre 4 e 7 de Ju­lho na Fa­cul­da­de de Le­tras da Uni­ver­si­da­de do Por­to, se com­po­nha de co­mu­ni­ca­ções afec­tas à te­má­ti­ca Gen­der, dif­fe­ren­ces, iden­ti­ti­es and DIY cul­tu­res, vin­das de re­a­li­da­des tão dis­tin­tas quan­to Rei­no Uni­do, Áustria, Aus­trá­lia, Hong Kong, Bra­sil, Israel, Es­pa­nha, Ca­na­dá e Por­tu­gal, e reu­nin­do par­ti­ci­pa­ções de in­ves­ti­ga­do­res e professores de dis­ci­pli­nas co­mo An­tro­po­lo­gia, So­ci­o­lo­gia da Cultura ou Et­no­mu­si­co­lo­gia. A que se jun­tam mú­si­cos com pro­du­ção re­le­van­te no pe­río­do punk e pós-punk - com foco no epi­cen­tro da ce­na bri­tâ­ni­ca. En­tre os con­fe­ren­cis­tas en­con­tra­mos John Robb (ex­mem­bro dos Mem­bra­nes, edi­tor da revista Lou­der than War), Lucy O’Bri­en (au­to­ra de She Bop: The De­fi­ni­ti­ve His­tory of Wo­men in Po­pu­lar Mu­sic), He­len Red­ding­ton ( bai­xis­ta de ban­das co­mo The Chefs e He­len and the Horns, que pas­sou a li­vro in­ves­ti­ga­ções sobre o pa­pel das mulheres no punk in­glês, e nes­te mo­men­to tra­ba­lha com Gi­na Bir­ch no do­cu­men­tá­rio Sto­ri­es from the She-Punks) e Ana da Sil­va e Gi­na Bir­ch (as du­as forças mo­tri­zes por de­trás das The Rain­co­ats). A pre­sen­ça na KISMIF a 4, apa­nha as Rain­co­ats no fi­nal de uma di­gres­são na­ci­o­nal com pa­ra­gens em Bra­ga, Lis­boa e Coimbra. Co­mo aque­ci­men­to da con­fe­rên­cia, a 3 de­cor­re uma sum­mer scho­ol com workshops em tor­no do DIY, da et­no­mu­si­co­lo­gia e do que sig­ni­fi­ca ser músico na era do stre­a­ming. A KISMIF in­te­gra tam­bém con­cer­tos que abri­lhan­tam o pro­gra­ma ( Vítor

Rua in­ter­prets Te­lec­tu e TV Smith, a 4 e 7 de Ju­lho), pro­gra­ma­dos, co­mo não po­de­ria dei­xar de ser, para o sub­pal­co do Teatro Ri­vo­li). Gon­ça­lo Fro­ta

Em cin­co anos, as Rain­co­ats tra­ves­ti­ram a folk de ex­pe­ri­men­ta­lis­mo li­vre, des­cons­trui­ram o rock até se trans­for­mar na voz per­so­na­li­za­da de qua­tro mulheres

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