A no­va ópe­ra jazz de Ka­ma­si Washing­ton

Publico - Ipsilon - - Sumário -

Tem vin­do a cri­ar uma mú­si­ca evo­ca­ti­va da me­mó­ria do jazz mas não ficando recluso de­la. É uma no­va re­la­ção que con­quis­ta se­gui­do­res. Vítor Be­lan­ci­a­no

Ka­ma­si Washing­ton He­a­ven And Earth

Young Turks, dis­tri. PopS­tock Na mú­si­ca, e no por­te físico, pa­re­ce uma da­que­las per­so­na­li­da­des on­de co­a­bi­tam a ino­cên­cia e a am­bi­ção des­me­di­da. Um Fran­cis Ford Cop­po­la da mú­si­ca. Lo­go ao pri­mei­ro ál­bum, The Epic (2015), o sa­xo­fo­nis­ta e com­po­si­tor ame­ri­ca­no foi cu­nha­do co­mo uma das fi­gu­ras do jazz que mais cri­ou con­di­ções para o en­tu­si­as­mo trans­ver­sal em tor­no do gé­ne­ro. Na ver­da­de, não fez na­da. Quer di­zer, fez imen­so: gra­vou es­se mag­ní­fi­co tri­ploál­bum e o ano pas­sa­do ou­tro ex­ce­len­te re­gis­to, Har­mony Of Dif­fe­ren­ce, ao mes­mo tem­po que ia dan­do con­cer­tos pe­lo mun­do, mui­tos de­les em lo­cais on­de o jazz ra­ra­men­te apor­ta, co­mo os fes­ti­vais pop-rock para mul­ti­dões. O que que­re­mos di­zer é que fo­ram mais a cir­cuns­tân­ci­as ex­te­ri­o­res (cum­pli­ci­da­des com mú­si­cos de ou­tros ter­ri­tó­ri­os, de Ken­drick La­mar a Flying Lo­tus) que aca­ba­ram por di­tar es­se in­te­res­se. Aliás, em conversa há dois anos pa­re­ceu-nos que es­se ti­po de ques­tões não lhe im­por­ta. “Não olho para o jazz co­mo fronteira, mas co­mo hi­pó­te­se sin­cré­ti­ca, qual­quer coi­sa que em vez de se fe­char sobre si pró­pria, po­de pro­vo­car no­vos de­sa­fi­os atra­vés da trans­cen­dên­cia”, di­zi­a­nos. O que lhe interessa é a sua ar­te, as­sen­te num edi­fí­cio jaz­zís­ti­co, sim, mas sem li­mi­tes de­fi­ni­dos, ali­men­tan­do-se de blu­es, funk, soul, gos­pel e o que mais exis­ta à vol­ta.

Se o ál­bum de es­treia era de ex­tra­va­gan­te am­bi­ção, He­a­ven And Earth não lhe fi­ca muito atrás, com or­ques­tra, co­ros, vozes (de Pa­tri­ce Quinn a Dwight Tri­ble) e uma sé­rie de gran­des mú­si­cos de jazz à vol­ta abor­dan­do num ál­bum-duplo (a ver­são fi­sí­ca con­tém mais um dis­co) um daqueles con­cei­tos maiores do que a vi­da, o lu­gar on­de se se­pa­ra a Ter­ra (re­a­li­da­de) do Céu (ide­a­li­za­ção, uto­pia, trans­cen­dên­cia).

Al­guns dos sec­to­res mais tra­di­ci­o­nais do jazz re­fe­rem que não tem trans­por­ta­do na­da de no­vo, mas pe­ran­te a mul­ti­pli­ci­da­de de idei­as, mu­si­cais ou con­cep­tu­ais, de­sen­vol­vi­das (hu­ma­nis­mo afro-ame­ri­ca­no, rit­mos afro-la­ti­nos, vozes co­rais, or­ques­tra­ções ma­jes­to­sas, cons­ci­ên­cia so­ci­o­po­lí­ti­ca, mú­si­ca on­de ba­lan­ço cor­po­ral e es­pi­ri­tu­a­li­da­de se tocam, num con­tí­nuo en­tre pas­sa­do e presente) fi­ca-se a pensar o que é que is­so sig­ni­fi­ca­rá ao cer­to. O que não sig­ni­fi­ca, cla­ro, que a atenção à tra­di­ção do jazz não es­te­ja aqui vin­ca­da. Mas é uma fi­li­a­ção li­vre de cons­tran­gi­men­tos, co­mo se a ca­da te­ma o músico e o seu gru­po fos­sem re­er­guen­do al­go que estava dis­per­sa no espaço, acu­mu­lan­do pe­ças que, no seu con­jun­to, acabam por cons­ti­tuir um cor­po con­sis­ten­te. A mú­si­ca con­tém qua­se sem­pre al­go de sump­tu­o­so, com­bi­na­ção de jazz e funk, fi­si­ca­li­da­de e ima­te­ri­a­li­da­de, afec­to e fe­ro­ci­da­de, num to­do de grande exu­be­rân­cia.

Ao longo dos úl­ti­mos anos Ka­ma­si Washing­ton tem vin­do a cri­ar uma mú­si­ca que con­se­gue ser tão co­mu­ni­ca­ti­va quan­to ela­bo­ra­da, evo­ca­ti­va da me­mó­ria do jazz, mas não ficando recluso de­la, nu­ma no­va re­la­ção so­no­ra que vai con­quis­tan­do se­gui­do­res.

Co­a­bi­ta­ção de ino­cên­cia e am­bi­ção des­me­di­da

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