Jo­go pe­ri­go­so

Publico - Ipsilon - - Sumário -

O pri­mei­ro ro­man­ce de Cor­tá­zar po­de ser li­do co­mo uma bus­ca ini­ciá­ti­ca do sen­ti­do da vi­da. Ou do co­nhe­ci­men­to.

Jo­sé Ri­ço Di­rei­ti­nho

Os Pré­mi­os

Ju­lio Cor­tá­zar

(Trad. de Isa­bel Pe­ter­mann) Ca­va­lo de Fer­ro Os Pré­mi­os foi o pri­mei­ro ro­man­ce pu­bli­ca­do (1960) pe­lo ar­gen­ti­no Ju­lio Cor­tá­zar (19141984) — no en­tan­to foi o ter­cei­ro a ter si­do es­cri­to, os ou­tros dois se­ri­am ape­nas pu­bli­ca­dos nos anos 1980 — pre­ce­den­do as­sim aque­la que é con­si­de­ra­da a sua obra-pri­ma, Rayu­e­la — O Jo­go do Mun­do (Ca­va­lo de Fer­ro, 2008). Da sua lei­tu­ra res­sal­tam de ime­di­a­to al­guns as­pec­tos que se vi­ri­am a tor­nar ca­rac­te­rís­ti­cos da obra cor­ta­za­re­a­na (no en­tan­to, nes­te, ain­da sem a tí­pi­ca ino­va­ção e jo­go for­mal): os diá­lo­gos sem­pre vi­vos, as si­tu­a­ções ab­sur­das, as per­so­na­gens de uma co­mi­ci­da­de es­pan­to­sa, a al­ter­nân­cia que se es­ta­be­le­ce entre a nar­ra­ção e a re­fle­xão.

A si­tu­a­ção de ba­se que le­va à in­tri­ga que se vai te­cer ao lon­go de Os Pré­mi­os pa­re­ce uma coi­sa co­mum: a lo­ta­ria na­ci­o­nal pre­meia al­guns bi­lhe­tes com uma lu­xu­o­sa vi­a­gem de cru­zei­ro a bor­do do Mal­com. No dia da par­ti­da, os pre­mi­a­dos, de­pois de con­tac­ta­dos e de lhe te­rem si­do da­das al­gu­mas ins­tru­ções, en­con­tram-se num ca­fé an­tes de em­bar­ca­rem. Aos pou­cos, à me­di­da que os pas­sa­gei­ros, e as su­as sin­gu­la­res his­tó­ri­as de vi­da, vão sen­do apre­sen­ta­dos ao lei­tor, es­te aper­ce­be-se que aquele con­jun­to qua­se po­de­ria ser uma es­pé­cie de ca­tá­lo­go re­pre­sen­ta­ti­vo da so­ci­e­da­de de Bu­e­nos Ai­res (e dos seus há­bi­tos e cos­tu­mes, mais ou me­nos es­cu­ros) à épo­ca. A ex­pec­ta­ti­va pe­la vi­a­gem, e so­bre­tu­do por ser des­co­nhe­ci­do o des­ti­no do na­vio, sen­te-se em to­das as con­ver­sas. “Por du­as ou três ve­zes ti­ve a im­pres­são de que is­to vai aca­bar de uma ma­nei­ra… Bom, es­co­lham vo­cês o ad­jec­ti­vo, que é sem­pre a par­te mais op­ci­o­nal das fra­ses.”

De­pois de uma lon­ga es­pe­ra e de uma ou ou­tra tro­pe­lia com a Po­lí­cia pe­lo meio, os pre­mi­a­dos são dei­xa­dos no por­to. Lo­go após o em­bar­que, a ten­são so­be de tom e o mis­té­rio aden­sa-se: a ro­ta e o des­ti­no con­ti­nu­am des­co­nhe­ci­dos ( Lon­dres ou o Ex­tre­mo Ori­en­te são des­ti­nos aven­ta­dos), mem­bro al­gum da tri­pu­la­ção fa­la es­pa­nhol, e o ca­pi­tão do na­vio não se apre­sen­ta. Pa­ra com­pli­car as coi­sas o na­vio é co­lo­ca­do em qua­ren­te­na de­vi­do a uma su­pos­ta do­en­ça, e o aces­so à po­pa do bar­co é in­ter­di­to aos pas­sa­gei­ros, o que os con­fi­na a um es­pa­ço de re­creio mais re­du­zi­do. O des­con­ten­ta­men­to com a si­tu­a­ção im­pul­si­o­na os pas­sa­gei­ros a uma es­pé­cie de “con­quis­ta da po­pa”, o que ser­ve ao au­tor pa­ra mos­trar al­go mais do ca­rác­ter das per­so­na­gens. O ab­sur­do tor­na­se num de­sa­fio pa­ra os “pre­mi­a­dos” que se en­tre­ga­rão a um jo­go ca­da vez mais pe­ri­go­so, e que de­sem­bo­ca­rá num fi­nal sur­pre­en­den­te, de on­de nin­guém sai­rá in­có­lu­me.

O ro­man­ce abre com uma lon­ga epí­gra­fe de O Idi­o­ta, de Dos­toi­evs­ki, de on­de emer­ge a ideia de que as pes­so­as comuns não po­dem fi­car fo­ra da fic­ção, “pois as pes­so­as comuns são cons­tan­te­men­te a cha­ve e o elo es­sen­ci­al na ca­deia dos as­sun­tos hu­ma­nos”, que se as “su­pri­mir­mos per­de-se to­da a pro­ba­bi­li­da­de de ver­da­de”. E é exac­ta­men­te is­to que faz Cor­tá­zar: as su­as per­so­na­gens não são he­róis nem in­di­ví­du­os que pro­cu­rem uma re­den­ção mai­or do que aque­la que a vi­da co­mum pro­por­ci­o­na, e é nes­sa lu­ta con­tro­la­da que se vão re­ve­lan­do.

Se­ria, por­ven­tu­ra, abu­si­vo cha­mar a Os Pré­mi­os uma ale­go­ria mo­ral da­das as mui­tas lei­tu­ras que po­dem ser fei­tas. Mas há al­go de ale­gó­ri­co nes­te li­vro: as per­so­na­gens co­mo que ca­mi­nham des­de o iní­cio a ti­tu­be­ar, de ma­nei­ra in­cer­ta, até se de­pa­ra­rem com o des­co­nhe­ci­do, e de­pois pro­gri­dem co­mo se de uma des­co­ber­ta (ini­ciá­ti­ca?) do co­nhe­ci­men­to se tra­tas­se. Há ne­las qua­se uma ne­ces­si­da­de de des­ce­rem ao mais recôn­di­to de­las pró­pri­as, aos seus abis­mos, às tre­vas e à dor. De­pois dis­to, vem-lhes uma es­pe­ran­ça pro­gres­si­va até ao fi­nal do ro­man­ce. Do sen­ti­do inú­til das su­as exis­tên­ci­as, que pa­re­cem com­pre­en­der e acei­tar, bro­ta um de­se­jo do des­co­nhe­ci­do (con­quis­tar a proa do na­vio que lhe é proi­bi­da), de co­nhe­cer aqui­lo que se pas­sa pa­ra além do mun­do a que es­tão con­fi­na­dos, das vi­das a que, por vá­ri­as ra­zões, se con­fi­na­ram. Há, fa­ce ao pe­ri­go, o de­se­jo de co­mu­ni­ca­rem, de se co­nhe­ce­rem e de com­pre­en­de­rem me­lhor o mun­do. Ter­mi­na­da a vi­a­gem, de­pois de to­do o ab­sur­do e

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