En­tre Depardieu e Clou­zot, pas­sa­do, pre­sen­te e fu­tu­ro

Publico - Ipsilon - - Primeira Página -

pai. Ha­via pa­péis que Ven­tu­ra não acei­ta­va, por ques­tões mo­rais, por exem­plo. São ques­tões pa­ra si tam­bém?

Não, na­da mes­mo. Mas é cu­ri­o­so, por­que o que as pes­so­as me di­zem mais é que te­nho um la­do Ga­bin. Mas é ver­da­de que ho­je, des­de que um ac­tor se tor­ne fi­si­ca­men­te for­te, diz-se que “tem um la­do Ven­tu­ra” ou “um la­do Bel­mon­do” ou um “la­do Ga­bin”. Um dia fa­zem-se as con­tas e ha­ve­rá 25 ac­to­res com um la­do Ven­tu­ra. É co­mo uma mar­ca. A ver­da­de é que sou mais com­pa­ra­do a Ga­bin, o que até pre­fi­ro, por­que a car­rei­ra de Ga­bin é po­lí­ti­ca, mes­mo que não se dê con­ta dis­so. Nos fil­mes da Fren­te Po­pu­lar, no Jour Se Le­ve [1939, Mar­cel Car­né], na Bê­te Hu­mai­ne [ Je­an Re­noir, 1938], no Des Gens sans Im­por­tan­ce de Ver­neuil [1956], ele acom­pa­nha as gran­des cor­ren­tes po­lí­ti­cas, fa­la da Fran­ça de 36, fa­la da Fran­ça dos anos 50, o que não é o ca­so de Ven­tu­ra, que não fa­zia fil­mes en­ga­gés — fez um, L’Ar­mée des Om­bres [1959], de [ Je­anPi­er­re] Mel­vil­le. É um ac­tor me­nos en­ga­ja­do de que gos­to mui­to, mas não por uma ques­tão de éti­ca.

A mi­nha éti­ca é acei­tar bons ar­gu­men­tos. Pos­so in­ter­pre­tar um mons­tro, al­guém que fa­ça coi­sas ig­nó­beis, com a con­di­ção de que o ar­gu­men­to se­ja tão bom que, ao in­ter­pre­tar es­se mau, vou aju­dar as pes­so­as a odi­a­rem-no ain­da mais — des­sa for- ma le­vo o bem às pes­so­as e afas­to-as do mal. Em A Lis­ta de Schin­dler [Ste­ven Spi­el­berg, 1993], a for­ma co­mo Ralph Fi­en­nes faz de Amon Go­eth mos­tra até que pon­to a per­so­na­gem é ig­nó­bil e is­so aju­da as pes­so­as a odi­a­rem-no ain­da mais.

Te­nho al­guns prin­cí­pi­os éti­cos, no en­tan­to: sou dos pou­cos ac­to­res que pra­ti­ca­men­te não fi­ze­ram pu­bli­ci­da­de, que não fi­ze­ram voz off de de­se­nhos ani­ma­dos... es­sa é a mi­nha éti­ca. Quan­do uma ca­sa me ofe­re­ce roupa pa­ra ves­tir e fa­zer pu­bli­ci­da­de, re­cu­so, com­pro com o meu di­nhei­ro. Não vou a soi­rées de lan­ça­men­to de pro­du­tos. Is­so pa­ra mim é im­por­tan­te.

A ques­tão com Ven­tu­ra não tem que ver com cor­pu­lên­cia, é uma ques­tão de si­lên­ci­os e de me­lan­co­lia.

Com­pre­en­do.

Pos­so per­gun­tar-lhe so­bre a sua me­lan­co­lia, que es­tá tan­to nas per­so­na­gens? De on­de é que vem?

Me­lan­co­lia ou nos­tal­gia... não pos­so evi­tar, é ina­to. Há ac­to­res que têm no ros­to e na for­ma de se me­xer qual­quer coi­sa de me­lan­có­li­co, co­mo ou­tros têm qual­quer coi­sa de per­ver­so. Há uns que são es­co­lhi­dos pa­ra os pa­péis sim­pá­ti­cos, há ou­tros que têm ar in­te­li­gen­te. Ou­tros têm um ar mais lu­nar. São coi­sas que não se con­tro­lam. Há pes­so­as que quan­do as ve­mos no ecrã nos dá von­ta­de de rir. A ou­tras que­re­mos proteger. Tal­vez acei­te o meu la­do fe­mi­ni­no, tal­vez acei­te as mi­nhas fra­que­zas de in­fân­cia. Há um la­do for­te e vo­lun­ta­ri­o­so, e tal­vez se­ja a mis­tu­ra dos dois... Não de­ci­do pôr a mi­nha me­lan­co­lia nos fil­mes. Não te­nho con­tro­lo so­bre is­so. Mas se me per­gun­ta se sou me­lan­có­li­co na vi­da... sou mui­to, mui­to, mui­to nos­tál­gi­co, ter­ri­vel­men­te nos­tál­gi­co. É a mi­nha falha, o meu dra­ma. Pen­so com mui­ta me­lan­co­lia quan­do estou no mo­men­to pos­te­ri­or, e é que is­so que me dá nos­tal­gia. Sou nos­tál­gi­co do mo­men­to pas­sa­do. Estou ra­ra­men­te no pre­sen­te. Pen­so fre­quen­te­men­te no ama­nhã e ter­ri­vel­men­te no on­tem, e mui­to, mui­to pou­co no que fa­ço, ou se­ja, fa­ço as coi­sas de for­ma mui­to ins­tin­ti­va e des­pre­o­cu­pa­da em re­la­ção ao que me acon­te­ceu e ao que qu­e­ro que me acon­te­ça.

Es­tá a fa­zer-me per­gun­tas e eu a di­zer-lhe coi­sas em que não cos­tu­mo pen­sar, é o dra­ma das en­tre­vis­tas, vou pa­rar de dar en­tre­vis­tas. Não qu­e­ro di­zer-lhe coi­sas so­bre as quais não ti­ve tem­po de pen­sar. Da­qui a três anos, quan­do for ler, vou rir-me dos dis­pa­ra­tes que dis­se. Estou a di­zer-lhe is­so ho­je, por­que estou com um hu­mor mais ale­gre, fa­lo com mais ener­gia. Se me ti­ves­se fa­la­do on­tem, is­to te­ria si­do mais la­có­ni­co, mais triste.

Com Cy­ra­no de Ber­ge­rac a abrir e Hen­ri-Ge­or­ges Clou­zot co­mo ho­me­na­ge­a­do, a Fes­ta do Cinema Fran­cês pro­põe um olhar so­bre o cinema fran­cês pa­ra lá dos seus au­to­res clás­si­cos. Por Jor­ge Mou­ri­nha

Em 1990, Gé­rard Depardieu, aos 42 anos, saía de Can­nes com o pré­mio de in­ter­pre­ta­ção mas­cu­li­na e che­ga­ria à no­me­a­ção pa­ra os Ós­ca­res pe­la sua en­car­na­ção de Cy­ra­no de Ber­ge­rac, mí­ti­co po­e­ta e fan­far­rão gas­cão ins­pi­ra­do por uma per­so­na­gem re­al do sé­cu­lo XVII fran­cês. A pe­ça do es­cri­tor mar­se­lhês Ed­mond Ros­tand, es­cri­ta em 1897, tor­nou-se num tí­tu­lo ca­nó­ni­co, re­pe­ti­da­men­te le­va­do a ce­na e adap­ta­do ao cinema. Em 1990, a oi­ta­va ver­são ci­ne­ma­to­grá­fi­ca de Cy­ra­no de Ber­ge­rac foi adap­ta­da, no ver­so ale­xan­dri­no ori­gi­nal, pe­lo ar­gu­men­tis­ta Je­an-Clau­de Car­riè­re (co­la­bo­ra­dor de Buñu­el ou For­man) e di­ri­gi­da com ver­ve e ele­gân­cia por Je­an-Paul Rap­pe­ne­au, mas per­ten­ce por in­tei­ro a Depardieu, que pa­re­ce ter en­con­tra­do a per­so­na­gem da sua vi­da, que agar­ra o mo­men­to pe­los cor­nos so­fre­ga­men­te e não o lar­ga.

Cy­ra­no de Ber­ge­rac, que abriu a 19ª Fes­ta do Cinema Fran­cês na noi­te de quin­ta-fei­ra 4 e que re­gres­sa às sa­las a par­tir de sex­ta­fei­ra 5, con­ti­nua a ser um be­lo filme clás­si­co. Mas é a pro­va vi­va de tu­do o que mu­dou nos qua­se trin­ta anos que de­cor­re­ram des­de a sua estreia — de co­mo o cinema fran­cês pa­re­ce ter per­di­do o pres­tí­gio com que era re­ce­bi­do, iden­ti­fi­ca­do com o cinema de au­tor pu­ro e du­ro ou as ino­fen­si­vas co­mé­di­as po­pu­la­res, chu­ta­do pa­ra ni­cho pe­las enor­mes má­qui­nas de mar­ke­ting ame­ri­ca­nas. Em 1990 ain­da foi pos­sí­vel tor­nar Cy­ra­no um êxi­to ao ní­vel dos block­bus­ters ame­ri­ca­nos; o que mu­dou des­de en­tão é de­ma­si­a­do com­ple­xo pa­ra re­su­mir, mas os res­pon­sá­veis do cinema fran­cês, en­tre re­a­li­za­do­res, pro­du­to­res e dis­tri­bui­do­res, in­sis­tem na ne­ces­si­da­de de lu­tar pe­la so­bre­vi­vên­cia de uma pro­du­ção que foi uma das prin­ci­pais ex­por­ta­ções cul­tu­rais do He­xá­go­no.

É nes­sa ló­gi­ca de di­vul­ga­ção que se ins­cre­ve a Fes­ta, or­ga­ni­za­ção do Ins­ti­tut Fran­çais que ten­ta fa­zer a pon­te en­tre vá­ri­as ver­ten­tes da pro­du­ção, cons­truin­do um per­cur­so pos­sí­vel de (re) des­co­ber­ta. A sec­ção prin­ci­pal, es­te ano inau­gu­ra­da com Cy­ra­no, con­cen­tra-se no “pre­sen­te”, com a pro­du­ção re­cen­te que em vá­ri­os ca­sos tem já estreia ga­ran­ti­da en­tre nós — A Apa­ri­ção de Xa­vi­er Gi­an­no­li, Não Dei­xeis Cair em Ten­ta­ção de Cé­dric Kahn, pré­mio de Me­lhor Ac­tor em Ber­lim 2018 pa­ra An­tony Ba­jon, Ou Na­das ou Afun­das de Gil­les Lel­lou­che ou Em Guer­ra de Stépha­ne Bri­zé. Abre-se a por­ta a tí­tu­los iné­di­tos de au­to­res re­gu­la­res por cá (Ch­ris­tophe Ho­no­ré, com Plai­re, ai­mer et cou­rir vi­te ou Guil­lau­me Ni­cloux, com Les Con­fins du mon­de). Mas la­men­ta-se a au­sên­cia de fil­mes im­por­tan­tes com estreia já pre­vis­ta — Caphar­naum de Na­di­ne La­ba­ki, Mek­toub My Lo­ve Can­to Uno de Ab­del­la­tif Ke­chi­che, The Sis­ters

“Sem­pre gos­tei de con­vi­ver com as pes­so­as que fa­zem o país, os tra­ba­lha­do­res, os ar­te­sãos. Gos­to da for­ma co­mo pen­sam e por ve­zes de­tes­to co­mo pen­sam, por­que po­li­ti­ca­men­te não re­flec­tem pa­ra além do seu pró­prio na­riz; mas gos­to de es­tar no meio de­les. Abor­re­ço-me com as pes­so­as ‘da al­ta’” Um re­pór­ter de guer­ra é con­tra­ta­do pe­lo Va­ti­ca­no pa­ra in­ves­ti­gar a ve­ra­ci­da­de dos tes­te­mu­nhos de uma vi­den­te. E as­sim uma per­so­na­gem em bus­ca da ver­da­de dos fac­tos en­con­tra o in­vi­sí­vel: A Apa­ri­ção — an­tes­treia ho­je na Fes­ta do Cinema Fran­cês e estreia co­mer­ci­al a 11

Em 1990, a oi­ta­va ver­são ci­ne­ma­to- grá­fi­ca de Cy­ra­no de Ber­ge­rac foi adap­ta­da, no ver­so ale­xan­dri­no ori­gi­nal, pe­lo ar­gu­men­tis­ta Je­an- Clau­de Car­riè­re e di­ri­gi­da com ver­ve por Je­an-Paul Rap­pe­ne­au, mas per­ten­ce por in­tei­ro a Depardieu, que en­con­trou a per­so­na­gem da sua vi­da

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