Não pa­rar de mar­car go­los

Record (Portugal) - - OPINIÃO -

ABOU­BA­KAR SÓ TEM UMA SOLUÇÃO PA­RA SER PERDOADO PE­LA VI­SI­TA AO BAL­NEÁ­RIO DO BE­SIK­TAS. NO MEU TEM­PO, OS DI­AS DE­LE ESTARIAM CONTADOS. MAS O MUN­DO ES­TÁ DI­FE­REN­TE...

como se fi­cas­se hip­no­ti­za­do. Em vez de abran­dar, dei­xa-se ir con­tra o meu car­ro, ba­te na par­te da fren­te, a mo­to vi­ra-se e dá qua­tro ou cin­co vol­tas no ar… Co­lo­co as mãos na ca­be­ça e pen­so o pi­or... que es­tá morto... Qual quê!!! Le­van­ta-se cheio de san­gue, vem ter co­mi­go e diz: “Pau­lo, te­mos de ga­nhar no do­min­go.” Com o sus­to que apa­nhei, as pa­la­vras não saíam. Mas, fi­nal­men­te, dis­se-lhe: “Es­tás bem? Pre­ci­sas de ir ao hos­pi­tal?”, per­gun­to, pre­o­cu­pa­do, en­quan­to olho pa­ra a ca­ra de­le cheia de san­gue. “Es­tou bem, es­tou. Mas te­mos de ga­nhar no do­min­go!”

Es­ta­va­a­vi­ver al­go sur­re­al. Ele viu-me e cho­cou­no meu car­ro. Po­dia ter mor­ri­do, mas a úni­ca coi­sa que im­por­ta­va era que a sua equi­pa, o FC Por­to, ga­nhas­se no do­min­go se­guin­te. “En­tão não?! Cla­ro que ganhamos no do­min­go. Ób­vio. Nem tem dis­cus­são”, fri­sei.

Quan­do da­li saí­mos, eu e o Lau­re­ta fi­cá­mos vá­ri­os mi­nu­tos em si­lên­cio. ‘Do­min­go, te­mos de mor­rer den­tro do cam­po por es­te homem’, pen­sá­mos. A ver­da­de é que os jo­ga­do­res que lá che­ga­vam, fos­sem eles es­tran­gei­ros, de Lisboa ou do Al­gar­ve, per­ce­bi­am que es­ta­vam num clu­be di­fe­ren­te de­pois da pri­mei­ra derrota. A tris­te­za e a frus­tra­ção que se vi­vi­am den­tro do bal­neá­rio eram hor­rí­veis e es­se mes­mo sen­ti­men­to de de­ce­ção alas­tra­va por to­da ci­da­de.

Quan­do che­guei ao FC Por­to, em 1984, me­ta­de do plan­tel era cons­ti­tuí­do por jo­ga­do­res da for­ma­ção. Eram por­tis­tas des­de que nas­ce­ram e ti­nham uma gran­de pai­xão pe­lo clu­be.

Ama­vam o FC Por­to e, mes­mo sen­do pro­fis­si­o­nais, pa­ga­ri­am pa­ra ves­tir a ca­mi­so­la azul e bran­ca se ne­ces­sá­rio fos­se. Eles eram o nú­cleo du­ro que mar­ca­va as re­gras do bal­neá­rio e trans­mi­tia a mís­ti­ca de que tan­to se fa­la ul­ti- ma­men­te. Nos três anos em que lá jo­guei, só per­di uma vez no mí­ti­co Estádio das An­tas. Nos en­con­tros fo­ra fui der­ro­ta­do al­gu­mas ve­zes e ve­ri­fi­quei que a vi­a­gem de re­gres­so no au­to­car­ro era um au­tên­ti­co fu­ne­ral.

Nin­guém fa­la­va, mas de vez em quan­do ain­da ou­via fra­ses como es­ta: ‘Os nos­sos adeptos não me­re­cem is­to!’ O si­lên­cio era bru­tal e mas­sa­cran­te. Era im­pos­sí­vel dor­mir, pois não dei­xa­va de pen­sar no jogo e nos er­ros que co­me­te­ra. Sen­tia-me tão mal, que tu­do fa­ria pa­ra nun­ca mais per­der ne­nhum jogo. Uma derrota no FC Por­to era um pe­sa­de­lo que vi­vi­as acor­da­do, o que era mui­to pi­or...

Re­cor­dei-me des­ta his­tó­ria por­que fi­quei es­tu­pe­fac­to quan­do vi o ví­deo do Abou­ba­kar, de­pois da derrota do FC Por­to, no Dra­gão, fren­te ao Be­sik­tas. Na­que­les anos, se um jo­ga­dor ti­ves­se es­te ti­po de ati­tu­de, os di­as de­le es­ta­vam contados den­tro do bal­neá­rio que foi campeão da Eu­ro­pa.

Pa­ra o nú­cleo du­ro, um er­ro des­ta di­men­são era im­per­doá­vel. Rir-se no bal­neá­rio do rival de­pois de uma derrota da sua equi­pa, mais do que uma fal­ta de res­pei­to, se­ria um in­sul­to aos com­pa­nhei­ros, ao trei­na­dor, ao pre­si­den­te e a todos os adeptos por­tis­tas. Mas os tem­pos são ou­tros e o Mun­do mu­dou com­ple­ta­men­te. O Abou­ba­kar po­de­rá ser perdoado pe­los seus com­pa­nhei­ros e pe­la mas­sa as­so­ci­a­ti­va do FC Por­to. Pa­ra is­so acon­te­cer, só tem uma solução, que é não pa­rar de fa­zer go­los!

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