Dr. Go­mes, dr. Ma­du­rei­ra e o “ódio”

Record (Portugal) - - OPINIÃO - Le­o­nor Pi­nhão Jor­na­lis­ta

O DR. MADUREIRAÉ O OR­GU­LHO CÍ­VI­CO DO NOS­SO DES­POR­TO-REI E DO EN­SI­NO UNI­VER­SI­TÁ­RIO PA­RA O PRE­SI­DEN­TE DO FCP VIR À TO­NA É-LHE PRECISO UM ÊXI­TO EPISÓDICO CO­MO FOI O DO MÓ­NA­CO. E LÁ VEIO ES­TA SE­MA­NA À TO­NA AFIR­MAR QUE O POR­TO “É O BALUARTE DO NOR­TE CON­TRA O CENTRALISMO”. AI, MOURARIA!

Vi­ve o futebol por­tu­guês num exó­ti­co es­ta­do de anar­quia ins­ti­tu­ci­o­nal. Os epi­só­di­cos ape­los à nor­ma­li­da­de do fun­ci­o­na­men­to das ins­ti­tui­ções e à ur­ba­ni­da­de dos seus re­pre­sen­tan­tes e res­pon­sá­veis são li­mi­nar­men­te en­ca­ra­dos co­mo me­ros con­tri­bu­tos pa­ra o vas­to ane­do­tá­rio que se impôs triun­fan­te em to­das as agen­das de co­mu­ni­ca­ção. E o pro­ble­ma das ane­do­tas é que, pe­la sua na­tu­re­za, di­fi­cil­men­te se podem le­var a sé­rio. To­me­mos o exem­plo re­cen­tís­si­mo do úl­ti­mo sor­teio de jo­gos a con­tar pa­ra a Ta­ça de Por­tu­gal. Nas vés­pe­ras da ce­ri­mó­nia sur­giu a pú­bli­co o lí­der ide­o­ló­gi­co do Ca­ne­las fa­zen­do votos pa­ra que o di­to sor­teio lhe co­lo­cas­se o Ben­fi­ca no ca­mi­nho, apon­tan­do ra­zões que os or­ga­nis­mos in­ter­na­ci­o­nais que su­pe­rin­ten­dem a in­dús­tria – UEFA e FIFA – con- de­nam, pu­nem e lu­tam por er­ra­di­car. “Pe­lo ódio que te­nho por eles e pa­ra lhes fa­zer a vi­da ne­gra”, ex­pli­cou-se o dou­tor Ma­du­rei­ra, que é o or­gu­lho cí­vi­co do nos­so des­por­to-rei, o or­gu­lho do en­si­no uni­ver­si­tá­rio na­ci­o­nal e ain­da, por to­das es­tas ra­zões, o re­cru­ta­do che­fe de cla­que da Se­le­ção Na­ci­o­nal. “Se­ria um jo­go em que iría­mos trans­for­mar em for­ça to­do o ódio que te­mos por eles”, acres­cen­tou à laia de te­se e co­mo quem res­pon­de, do al­to da sua cá­te­dra, ao úl­ti­mo ape­lo à nor­ma­li­da­de bal­bu­ci­a­do por es­cri­to pe­lo pre­si­den­te da FPF.

O “ódio”, por­tan­to. E o “ódio” não é, de fac­to, uma ane­do­ta. O que se­rá uma ane­do­ta é a FPF, a qua­se se­cu­lar or­ga­ni­za­do­ra da dis­tin­ta com­pe­ti­ção, per­mi­tir sem um re­pa­ro a pre­sen­ça do Ca­ne­las no sor­teio da Ta­ça de Por­tu­gal depois de o dou­tor Ma­du­rei­ra ter ape­la­do à lu­ta pe­lo ódio co­mo quem se es­tá nas tin­tas pa­ra o dou­tor Fer­nan­do Go­mes, o pre­si­den­te da FPF, que ape­lou à lu­ta con­tra o ódio há coi­sa de du­as se­ma­nas. Uma lei­tu­ra atenta dos re­gu­la­men­tos in­ter­na­ci­o­nais re­sol­ve­ria num ápi­ce es­te ti­po de si­tu­a­ções, que só ger­mi­nam e flo­res­cem quan­do a autoridade é fra­ca. Nes­te ca­so, fraquís­si­ma.

O mai­or pro­ble­ma do Ben­fi­ca – sim, o Ben­fi­ca vi­ve um pro­ble­ma –é o re­la­xa­men­to pro­vo­ca­do pe­la con­quis­ta no­tá­vel do seu quar­to tí­tu­lo con­se­cu­ti­vo de cam­peão na­ci­o­nal. O ob­je­ti­vo do te­tra foi per­se­gui­do e le­va­do de ven­ci­da com um es­pí­ri­to de lu­ta co­mo se não hou­ves­se ama­nhã. Mas há ama­nhã. Quan­do se tra­ta de futebol, ama­nhã é hoje. E se a adre­na­li­na que mo­via o te­tra­cam­peão se es­go­tou nos úl­ti­mos fes­te­jos no Marquês, te­rá o Ben­fi­ca obri­ga­to­ri­a­men­te de rein­ven­tar pa­ra si pró­prio no­vos de­síg­ni­os nun­ca an­tes al­can­ça­dos co­mo, por exem­plo, aque­la coi­sa do pen­ta. E até a Liga Europa, se lá che­gar­mos.

O de­sa­pa­re­ci­men­to de Pin­to da Cos­ta explica- se fa­cil­men­te, ten­do em con­ta que o seu em­ble­ma es­tá a en­trar no seu quin­to ano con­se­cu­ti­vo sem na­da ga­nhar. E, nes­te ca­so, na­da é na­da. Ze­ro to­tal. Pa­ra o pre­si­den­te do FCP vir à to­na é preciso um êxi­to episódico co­mo foi o do Mó­na­co. E lá veio es­ta se­ma­na à to­na pa­ra afir­mar que o Por­to “é o baluarte do Nor­te con­tra o centralismo”. Em ar­tes da co­mu­ni­ca­ção, o Fran­cis­co J. Mar­ques dá-lhe 10-0 ao in­ter­va­lo.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.