Mu­dar

Far­ta­ram-se dos tra­ba­lhos, do rit­mo ace­le­ra­do ou do trân­si­to. Qui­se­ram apro­xi­mar-se da na­tu­re­za­ou se­guir um so­nho an­ti­go. His­tó­ri­as de quem aban­do­nou a me­tró­po­le e se re­cu­sa a re­gres­sar à con­fu­são.

Sábado - - SUMÁRIO - Por Ma­ria Es­pí­ri­to San­to

Famílias que tro­cam a ci­da­de pe­lo cam­po

Sen­ta­dos no al­pen­dre, uma cer­ve­ja e vis­ta pa­ra a noi­te cer­ra­da. Ti­nham aca­ba­do de che­gar: o fi­lho de 2 anos já es­ta­va na ca­ma a dor­mir, e ago­ra, de­pois de mui­tas cai­xas de­sem­pa­co­ta­das e do­res de ca­be­ça com as obras, des­fru­ta­vam da pri­mei­ra noi­te na ca­sa no­va, com vis­ta pa­ra o na­da. “Não se via uma úni­ca luz, só uma né­voa mui­to ao lon­ge que era Es­tre­moz”, ex­pli­ca Ma­ria João. Ou­vi­ram um ba­ru­lho, Afon­so brin­cou que eram la­drões. “Foi aí que caí em mim – acho que nem ti­nha pen­sa­do nis­so an­tes. Es­tá­va­mos mes­mo iso­la­dos.” Apa­nha­ram sus­tos, nas pri­mei­ras tem­po­ra­das. Co­mo quan­do lhes ba­te­ram à por­ta a meio da noi­te. Alar­ma­dos, es­prei­ta­ram pe­las ja­ne­las mas na­da vi­ram: era um dos ga­tos que es­ta­va a brin­car com o ba­ten­te an­ti­go (e so­no­ro).

Ho­je ri­em-se do epi­só­dio. Afon­so Cruz e Ma­ria João Lima tro­ca­ram Lis­boa por um mon­te no Alen­te­jo há mais de 9 anos. Ele es­cri­tor, ilus­tra­dor e mú­si­co, de 46 anos, ela de­sig­ner, de 48, sem­pre ti­nham vi­vi­do na ca­pi­tal: ha­bi­ta­ram, ca­da um, cer­ca de 17 ca­sas em lo­ca­li­za­ções di­fe­ren­tes, do cen­tro aos ar­re­do­res – a úl­ti­ma pa­ra­gem foi jun­tos, na Ave­ni­da Al­mi­ran­te Reis. Ape­sar de tu­do, Afon­so sem­pre pen­sou mu­dar de ce­ná­rio: “Não tan­to pe­los de­fei­tos da ci­da­de, mas pe­las vir­tu­des do cam­po. Era o ape­lo da na­tu­re­za”, ex­pli­ca. E não foi ape­lo que a mu­lher acei­tas­se de âni­mo le­ve – “es­tás lou­co?” foi a pri­mei­ra re­ac­ção, re­ve­la, en­tre ri­sos. O mai­or re­ceio era ter de rein­ven­tar a vi­da pro­fis­si­o­nal – a mu­dan­ça im­pli­ca­va sair da em­pre­sa on­de es­ta­va e aven­tu­rar-se co­mo fre­e­lan­cer.

Foi o que fez. Pro­cu­ra­ram ter­re­nos a uma ho­ra de dis­tân­cia de Lis­boa – ain­da son­da­ram ca­sas no Ri­ba­te­jo, em To­mar e no li­to­ral alen­te­ja­no, co­mo Si­nes e Me­li­des, an­tes de che­ga­rem a Sou­sel. Foi um an­ti­go mon­te, per­to de Es­tre­moz, que os con­quis­tou. Des­de o mo­men­to da com­pra à mu­dan­ça pas­sa­ram dois anos: um de­les com as obras de re­cu­pe­ra­ção e ou­tro só a tra­tar de pa­pe­la­da. “En­tre li­cen­ci­a­men­tos, câ­ma­ra mu­ni­ci­pal, con­ser­va­tó­ria, finanças e RAN (Re­ser­va Agrí­co­la Na­ci­o­nal) foi um pro­ces­so lon­go”, sus­pi­ram. Quan­do a en­con­tra­ram, a ca­sa es­ta­va em ruí­nas, ro­de­a­da por um des­cam­pa­do. No­ve anos pas­sa­dos, há du­as la­ran­jei­ras e um li­mo­ei­ro re­ple­tos de fru­tos, e ain­da uma ro­mã­zei­ra, uma amei­xei­ra, vá­ri­os cac­tos (que dão fi­gos-da-ín­dia) e uma área am­pla de cul­ti­vo de aveia. Che­ga­ram com um be­bé de 2 anos e ho­je são uma fa­mí­lia de qua­tro: aos pais jun­tam-se Ma­nu­el, de 11 anos e João de 8 – sem es­que­cer os cães, Rosa e Che.

De ca­nos con­ge­la­dos

Pa­re­des que co­lap­sam, tacos que sal­tam do chão, chu­vei­ros que fi­cam na rua, ao ar li­vre, ou te­le­fo­nes ins­ta­la­dos no to­po de pos­tes de elec­tri­ci­da­de: o ver­da­dei­ro pe­sa­de­lo ru­ral acon­te­cia a Oli­ver e Li­sa, o ca­sal no­va-ior­qui­no que ti­nha tro­ca­do a gran­de ci­da­de por uma vi­da pa­ca­ta no cam­po. Gre­en Acres (Vi­ver no Cam­po) ca­bia no pe­que­no ecrã dos anos 60 com pe­ri­pé­ci­as que eram le­va­das ao ri­dí­cu­lo, mas que ilus­tram dificuldades re­ais da mu­dan­ça. Pri­mei­ro era a água, que só che­ga­va per­to das 9h. “An­tes dis­so não ha­via na­da, os ca­nos que ain­da não es­ta­vam en­ter­ra­dos con­ge­la­vam com o frio”, des­cre­ve Afon­so Cruz. De­pois, a pre­sen­ça dos ani­mais: ra­po­sas, te­xu­gos, sa­ca-ra­bos e mui­tas co­bras (mes­mo den­tro de ca­sa) de­ram di­rei­to a al­guns sus­tos. E, ain­da, as dificuldades de co­mu­ni­ca­ção: ti­ve­ram de se ha­bi­tu­ar à fal­ta de re­de de te­le­mó­vel e ao fra­co aces­so à In­ter­net. Com­pra­ram uma pen de da­dos que nun­ca fun­ci­o­nou – no iní­cio, Afon­so ti­nha de ir à al­deia mais pró­xi­ma pa­ra en­vi­ar ilus­tra­ções. Ac­tu­al­men­te têm ADSL em ca­sa e já es­tão ha­bi­tu­a­dos ao seu rit­mo pau­sa­do. As pri­mei­ras se­ma­nas são sem­pre um de­sa­fio. Pe­dro Araú­jo, 41 anos, re­cor­da es­se atri­bu­la­do pe­río­do de mu­dan­ça, em 2016. Foi pa­ra o Mi­nho com a fi­lha mais ve­lha, na al­tu­ra com 7 anos – a mu­lher, ban­cá­ria, es­ta­va ain­da à es­pe­ra da trans­fe­rên­cia e fi­cou em Cas­cais com a fi­lha mais no­va. Mas Pe­dro de­ci­diu mu­dar-se o mais ce­do pos­sí­vel pa­ra ga­ran­tir tran­qui­li­da­de nos pri­mei­ros di­as de

A INI­CI­A­TI­VA NOVOS PO­VO­A­DO­RES JÁ AJU­DOU 2.137 FAMÍLIAS A TRO­CAR A CI­DA­DE PE­LO CAM­PO

Di­na e Pe­dro Araú­jo mu­da­ram-se com as du­as fi­lhas pa­ra o Mi­nho, em 2016. Ca­ro­li­na tem 9 anos, Ca­ta­ri­na tem 3

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