Obituário

A at­mos­fe­ra som­bria dei­xa­da pe­las pi­o­res chei­as de sem­pre no Rio de Ja­nei­ro trans­for­mou um sam­ba anó­ni­mo em em­ble­ma do Car­na­val. O seu cri­a­dor adop­tou co­mo ape­li­do o no­me da mú­si­ca

Sábado - - SUMÁRIO -

Na ma­dru­ga­da de 10 de Ja­nei­ro de 1966 co­me­çou a cho­ver tor­ren­ci­al­men­te no Rio de Ja­nei­ro. O céu de­sa­bou du­ran­te cin­co di­as. Quan­do a água pa­rou de cair, ain­da de­mo­rou mui­to a fa­zer con­tas nu­ma ci­da­de lan­ça­da no ca­os e en­go­li­da pe­la la­ma. Fi­nal­men­te, os nú­me­ros sur­gi­ram: 250 mor­tos, mil fe­ri­dos, 50 mil ca­ri­o­cas sem ca­sa, qua­se to­dos das fa­ve­las em­pi­na­das nos mor­ros, que vi­e­ram por ali abai­xo. Nos mo­men­tos de di­lú­vio, às ve­zes não se dis­tin­guia se­quer se era dia se era noi­te, es­cre­ve­ram os jor­nais. En­tre re­cons­tru­ção e fu­ne­rais es­sa es­cu­ri­dão apo­de­rou-se do es­ta­do de es­pí­ri­to de to­da a ci­da­de. No lu­to, er­gue­ram-se vo­zes a de­fen­der que não se ce­le­bras­se o Car­na­val, que ca­lha­va a 22 de Fe­ve­rei­ro.

Três anos an­tes, Nilton de Sou­za, nas­ci­do no Rio a 15 de Ou­tu­bro de 1936, ti­nha com­pos­to o sam­ba Tris­te­za e apre­sen­ta­ra-o no Car­na­val no blo­co dos Fo­liões de Bo­ta­fo­go, o seu bair­ro. Che­ga­ram a vi­ce-campeões, mas a com­po­si­ção não te­ve um impacto ime­di­a­to. Foi pre­ci­so es­pe­rar que ou­tro com­po­si­tor, Ha­rol­do Lo­bo, vis­se ne­la o que mais nin­guém vi­ra. Fez-lhe uma ver­são de le­tra mais cur­ta, jun­tou-lhe ele­men­tos seus e de­vol­veu-a a Nilton. Ha­rol­do mor­reu em 1965, com 55 anos, e nem che­gou a ou­vir o re­sul­ta­do fi­nal. Nem adi­vi­nha­va que no ano se­guin­te, no “Car­na­val das chei­as”, o no­vo sam­ba Tris­te­za se ia tor­nar um fe­nó­me­no. Es­tu­di­o­sos da Mú­si­ca Po­pu­lar Bra­si­lei­ra acre­di­tam que a le­tra é uma boa ex­pli­ca­ção pa­ra es­se êxi­to sú­bi­to. Se­ri­am as pa­la­vras cer­tas pa­ra uma ci­da­de que ain­da sa­cu­dia a la­ma e que­ria es­que­cer a mor­te: “Tris­te­za/ Por fa­vor, vai em­bo­ra/ A mi­nha al­ma que cho­ra/ Es­tá ven­do o meu fim; Fez do meu co­ra­ção/ A sua mo­ra­dia/ Já é de­mais o meu pe­nar; Que­ro vol­tar àque­la/ Vi­da de ale­gria/ Que­ro de no­vo can­tar.” A gra­va­ção ori­gi­nal de Ary Cor­do­vil foi re­pli­ca­da pe­los mais po­pu­la­res in­tér­pre­tes da épo­ca. Na ver­da­de, por qua­se to­dos eles: Eli­zeth Cardoso, May­sa, Jair Ro­dri­gues, Vinicius de Moraes, Elis Re­gi­na... Tor­nou-se um clás­si­co. As­trud Gil­ber­to e Sér­gio Men­des, bra­si­lei­ros com car­rei­ra in­ter­na­ci­o­nal, pro­jec­ta­ram a can­ção pa­ra o es­tran­gei­ro. Ho­je há mais de 500 ver­sões (575 e 586 são nú­me­ros ci­ta­dos) em vá­ri­as lín­guas e em to­dos os gé­ne­ros, do ro­man­tis­mo de Ju­lio Igle­si­as ao jazz de Os­car Pe­ter­son.

A ins­pi­ra­ção de Neu­za

A vi­da de Nilton de Sou­za, li­no­ti­pis­ta, can­tor, vi­o­li­nis­ta e com­po­si­tor, mu­dou. Pa­ra co­me­çar, saiu do seu bair­ro de sem­pre. Ga­nhou es­ta­bi­li­da­de eco­nó­mi­ca. Ca­sou. Pas­sou a usar Tris­te­za co­mo ape­li­do. Até tro­cou de es­co­la de sam­ba, ali­nhan­do em de­fi­ni­ti­vo a par­tir de 1971 pe­la Im­pe­ra­triz Le­o­pol­di­nen­se, co­mo mem­bro da ala de com­po­si­to­res. E mu­dou de ci­da­de: en­tre 1971 e 1985 vi­veu em São Pau­lo.

Tris­te­za foi um êxi­to ir­re­pe­tí­vel, e Nil­ti­nho nun­ca con­se­guiu atin­gir o mes­mo pa­ta­mar nas ou­tras 200 can­ções que compôs. Mas já ti­nha en­tra­do pa­ra o res­tri­to pan­teão dos au­to­res de sam­bas his­tó­ri­cos. Apro­xi­mou-se ou­tra vez da ge­ni­a­li­da­de em 1988 com o sam­ba-en­re­do Li­ber­da­de! Li­ber­da­de! Abre as Asas So­bre Nós!, so­bre os 100 anos da república (uma au­to­ria re­par­ti­da com Pre­to Jóia, Vi­cen­ti­nho e Ju­ran­dir). O te­ma foi de­ci­si­vo pa­ra a Im­pe­ra­triz Le­o­pol­di­nen­se se sa­grar cam­peã nes­se ano e che­ga­ria, bem mais tar­de, em 2012, a te­ma de aber­tu­ra da no­ve­la La­do a La­do.

Che­gou a ser elei­to o me­lhor sam­ba­en­re­do de to­dos os tem­pos. Nil­ti­nho sem­pre apontou a mu­lher, Neu­za Ma­ria, co­mo a sua mu­sa. Tra­ba­lha­ram jun­tos em pal­co (ela per­ten­ceu à ala das bai­a­nas da Im­pe­ra­triz Le­o­pol­di­nen­se) e, na ver­da­de, foi ela a ins­pi­ra­ção re­al de Tris­te­za. De­poi­men­to de Nil­ti­nho ao blo­gue con­cur­so de mar­chi­nhas, em 2013: “Tris­te­za foi fei­to de­pois de uma bri­ga com ela, quan­do a gen­te ain­da na­mo­ra­va. Eu ti­nha fi­ca­do amu­a­do com a bri­ga, to­do ar­ri­a­do pe­los can­tos, e aqui­lo cha­mou a aten­ção de um ami­go meu, o Car­li­nhos, jor­na­lis­ta da Úl­ti­ma Ho­ra, afi­nal eu era um ca­ra ex­tro­ver­ti­do, al­to as­tral. Con­tei pra ele o que ti­nha acon­te­ci­do e ele me res­pon­deu: ‘Ô, ra­paz! Man­da es­sa tris­te­za em­bo­ra!’” De­pois de re­gres­sar ao Rio de Ja­nei­ro con­ti­nu­ou a fa­zer es­pec­tá­cu­los es­po­rá­di­cos e viu três dos seus te­mas in­cluí­dos na co­lec­tâ­nea-ho­me­na­gem de 2001 Me­ni­nos do Rio: Tris­te­za, Li­ber­da­de! Li­ber­da­de! e Chi­ne­lo No­vo. Foi der­ro­ta­do por um can­cro de pul­mão no úl­ti­mo sá­ba­do, 10, quan­do o Bra­sil já vi­via em ple­no mais um Car­na­val.

O SAM­BA TRIS­TE­ZA FOI FEI­TO APÓS UMA BRI­GA COM A MU­LHER, NEU­ZA, QUAN­DO NAMORAVAM

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