EN­TRE­VIS­TA DE VI­DA A LIA GA­MA

A ac­triz, de 74 anos, tem um no­vo filme, Rai­va ,e pre­pa­ra-se pa­ra es­tre­ar uma pe­ça em Cas­cais

Sábado - - SUMÁRIO -

An­tes de ser ac­triz, Lia Ga­ma foi ca­be­lei­rei­ra e aju­dan­te de ate­liê, mas che­gou ao pal­co ain­da ado­les­cen­te. Aos 74 anos, es­tá de vol­ta às sa­las de ci­ne­ma com Rai­va, de Sér­gio Tré­faut, e no dia 14 sobe ao pal­co em Pe­ter and Ali­ce, en­ce­na­do por Car­los Avi­lez pa­ra o Te­a­tro Ex­pe­ri­men­tal de Cas­cais. “Fi­co mui­to ner­vo­sa an­tes da es­treia. Mas cor­re sem­pre bem – é o que diz o meu fi­lho.” De­via ter con­tra­ce­na­do com Ni­co­lau Brey­ner no no­vo filme, Rai­va. Co­mo foi a ro­da­gem? Eu fui con­vi­da­da pa­ra fa­zer o filme com o Ni­co­lau Brey­ner, éra­mos um ca­sal, mas pou­co an­tes da ro­da­gem o Ni­co mor­reu. O Sér­gio Tré­faut não que­ria subs­ti­tuir o Ni­co de ma­nei­ra ne­nhu­ma por­que só o via a ele na­que­le pa­pel e de­ci­diu que em vez de ser o Mira, pas­sas­se a ser a Mira, por­que tam­bém é fre­quen­te no Alen­te­jo as mu­lhe­res as­su­mi­rem as ta­ber­nas, re­cep­to­res de con­tra­ban­do. As ro­da­gens não fo­ram agra­dá­veis, ha­via a ten­são ter­rí­vel da per­da de um ami­go, ele foi pa­dri­nho de ca­sa­men­to do meu ex-ma­ri­do no nos­so ca­sa­men­to em An­go­la. Per­gun­tei-me sem­pre: “Co­mo é que o Ni­co fa­ria is­to?” O Ni­co era um ac­tor ex­tra­or­di­ná­rio. Nas­ceu em 1944 em Bar­ro­ca do Zê­ze­re, mas foi pa­ra Lis­boa com ano e meio. Porquê? A mi­nha fa­mí­lia já vi­via em Lis­boa an­tes de eu nas­cer. Mas ha­via ca­rên­cia de tu­do com a guer­ra e os meus pais de­ci­di­ram re­gres­sar às ori­gens, on­de a fa­mí­lia ti­nha as su­as coi­sas e on­de não tí­nha­mos de es­tar no ra­ci­o­na­men­to do car­vão, do azei­te e do açú­car. O meu pai ar­ran­jou lá em­pre­go com os ale­mães nas mi­nas da Pa­nas­quei­ra, mas não era mi­nei­ro. Ele foi cri­a­do num co­lé­gio dos je­suí­tas do Fun­dão, ti­nha as mãos bran­cas co­mo um se­mi­na­ris­ta que se pre­zas­se. Era uma fa­mí­lia com pos­ses?

Não, era uma fa­mí­lia da bur­gue­sia ru­ral do in­te­ri­or da Bei­ra. Do la­do do meu pai ha­via le­tra­dos, pa­dres e re­ge­do­res. Do la­do da mi­nha mãe, eram pe­que­nos pro­pri­e­tá­ri­os. Os seus pais se­pa­ra­ram-se quan­do era mui­to no­va. Cres­ceu sem uma fi­gu­ra ma­ter­nal? Acho que no fun­do eles sem­pre es­ti­ve­ram se­pa­ra­dos, a guer­ra é que os apro­xi­mou. Não é por aca­so que há uma di­fe­ren­ça de no­ve anos en­tre o meu ir­mão e eu. O meu pai era um co­mer­ci­an­te da ci­da­de de Lis­boa, um Don Ju­an, e a mi­nha mãe so­fria. Com 3 anos eu fui vi­ver com o meu pai e a mi­nha ma­dras­ta e a mi­nha mãe fi­cou com o meu ir­mão. Que me­mó­ria tem da in­fân­cia?

Não são me­mó­ri­as ale­gres. Via o meu ir­mão e a mi­nha mãe mui­to es­po­ra­di­ca­men­te. Eu pró­pria co­lo­quei ter­mo a tu­do e saí da ca­sa do meu pai aos 13 anos. Te­nho mais lem­bran­ças de quan­do vi­via com a mi­nha mãe. Era uma cri­an­ça fe­liz, uma sel­va­gem, pas­sa­va o dia en­tre­gue às mi­nhas ti­as, em Carnide.

O meu pai e a mi­nha ma­dras­ta fo­ram jul­ga­dos por maus-tra­tos. Lem­bro-me per­fei­ta­men­te do jul­ga­men­to no Tri­bu­nal da Boa Ho­ra e de ter fei­to um exame no Ins­ti­tu­to de Me­di­ci­na Le­gal.

Lia Ga­ma, 74 anos, fo­to­gra­fa­da no Te­a­tro Mu­ni­ci­pal Mi­ri­ta Ca­si­mi­ro, no Es­to­ril, no dia 26 de Ou­tu­bro “O meu pai e a mi­nha ma­dras­ta fo­ram jul­ga­dos por maus-tra­tos no Tri­bu­nal da Boa Ho­ra”

Foi mal­tra­ta­da em cri­an­ça e o seu pai che­gou a ser jul­ga­do. Foi trau­má­ti­co?

Não, nós te­mos de apro­vei­tar as coi­sas ne­ga­ti­vas da vi­da pa­ra as trans­for­mar em coi­sas po­si­ti­vas. An­tes de mor­rer, o meu pai dis­se-me que ti­nha mui­tos re­mor­sos por não ter si­do o pai que de­via ter si­do. Eu já era ac­triz e dis­se-lhe:

“Vá em paz pai, se eu ti­ves­se ti­do uma vi­da nor­mal eu não era quem sou.” Não se­ria ac­triz com cer­te­za, por­que aque­la pe­que­na bur­gue­sia não que­ria que as fi­lhas fos­sem ac­tri­zes. O meu pai cha­ma­va-me co­co­te e pu­nha-me de cas­ti­go, por­que eu sem­pre quis ser ac­triz. Eu li­ber­tei-me dis­so tu­do e a mi­nha vi­da foi fei­ta por mim.

Co­mo é que se sus­ten­tou com 13 anos?

Es­ti­ve em ca­sa da mi­nha mãe por uns tem­pos e tra­ba­lhei em vá­ri­os ca­be­lei­rei­ros de Lis­boa. Com 15 anos já es­ta­va no Te­a­tro Mo­nu­men­tal.

Co­mo che­gou ao te­a­tro?

A mu­lher do do­no do Te­a­tro Mo­nu­men­tal, a Mi­ri­am Pi­men­tel, ia ao cabeleireiro on­de eu tra­ba­lha­va e eu di­zia-lhe que que­ria ser ac­triz. Foi ela que me pôs a tra­ba­lhar no Te­a­tro Mo­nu­men­tal, mas no ate­liê do Jor­ge de Carvalho, que fa­zia os car­ta­zes. Ain­da tra­ba­lhei em al­guns ate­li­ês an­tes de ir pa­ra o te­a­tro. Era aju­dan­te de ate­liê, en­chia le­tras, re­cor­ta­va coi­sas, la­va­va os pin­céis.

Co­mo sal­ta do ate­liê pa­ra o te­a­tro?

O Vasco Mor­ga­do [co­nhe­ci­do empresário de te­a­tro da épo­ca] sa­bia da mi­nha pai­xão pe­lo te­a­tro e um dia en­con­trou-me no Porto, em Santa Ca­ta­ri­na. “Vo­cê ain­da tem a ma­nia do te­a­tro?”, per­gun­tou-me. “En­tão apa­re­ça no Te­a­tro Sá da Ban­dei­ra.”

De on­de vem o so­nho de ser ac­triz?

O meu pai e a mi­nha ma­dras­ta iam ao te­a­tro. Lem­bro-me de ir ao Apo­lo e ao Te­a­tro da Ave­ni­da, de ver a ac­triz Lau­ra Al­ves ves­ti­da de noi­va, meio a dor­mi­tar. Eu era uma cri­an­ça so­li­tá­ria e o meu en­tre­te­ni­men­to era sen­tar-me na má­qui­na de cos­tu­ra com os pés em ci­ma de uma ca­dei­ra e fa­zer diá­lo­gos. A mi­nha ma­dras­ta ra­lha­va: “Mas tu não te can­sas!” E eu di­zia que que­ria ser ar­tis­ta.

Dis­cu­tiu com Lau­ra Al­ves e de­mi­tiu-se do Te­a­tro Mo­nu­men­tal. Era des­te­mi­da ou ir­re­flec­ti­da?

Era co­mo sou, sem pa­pas na lín­gua. Ela zan­gou-se co­mi­go e eu vim-me em­bo­ra. Eu es­ta­va na Mar­ga­ri­da da

Rua, uma pe­ça em que a Lau­ra era pro­ta­go­nis­ta ab­so­lu­ta com 11 ac­to­res e eu era uma Mis­tin­guett [co­ris­ta dos anos 20, que co­me­çou a ven­der flo­res e era a Lia nes­ta pe­ça]. Ti­nham-me da­do um ca­ma­rim pa­ra eu mu­dar de rou­pa, por bai­xo do pal­co, mas eu achei que es­ta­va ali mui­to so­zi­nha e iso­la­da e fui per­gun­tar a uns ac­to­res no­vos se po­dia mu­dar-me no ca­ma­rim de­les. Eles dis­se­ram-me que sim, mas a do­na Lau­ra não quis. Man­dou a cos­tu­rei­ra ir di­zer que não que­ria aque­las pou­cas-ver­go­nhas e eu dis­se: “Es­tá bem! Vou-me em­bo­ra!”

O seu no­me é Ma­ria Isil­da. Já era Lia Ga­ma na al­tu­ra?

Já. Eu quan­do saí da ca­sa do pai mu­dei de no­me por cau­sa de um li­vro do Jo­sé Rodrigues Mi­guéis, Le­ah e

Ou­tras His­tó­ri­as. Sem­pre fui uma lei­to­ra com­pul­si­va. Apai­xo­nei-me por aque­la per­so­na­gem e achei que ia ser Le­ah. Mas os meus ami­gos po­e­tas não gos­ta­ram, fi­ze­ram um ana­gra­ma com o meu no­me e po­dia ser Lia. Na al­tu­ra, usa­va o no­me do meu pai, Gil, mas quan­do me es­tre­ei pro­fis­si­o­nal­men­te, o Raul Sol­na­do, que foi meu pa­dri­nho de te­a­tro, achou feio e per­gun­tou-me se ti­nha ou­tro no­me. Fi­cou Lia Ga­ma.

Diz que es­tu­dou na uni­ver­si­da­de da vi­da. Foi nas noi­tes pas­sa­das no ca­fé Mon­te Car­lo?

Apren­di a ser ac­triz nas tá­bu­as. Mas sem­pre fui es­tu­di­o­sa e in­te­li­gen­te. Lia mui­to, mas não exac­ta­men­te aqui­lo que de­ve­ria. Du­ran­te um ano li com­pul­si­va­men­te o ro­man­ce ame­ri­ca­no, de Stein­beck a John dos Pas­sos. De­pois, ha­via coi­sas de ba­se que não ti­nha li­do e eram os meus ami­gos, o Herberto Hel­der ou o António Jo­sé Forte, que me in­di­ca­vam li­vros.

Foi es­tu­dar te­a­tro pa­ra Pa­ris em 1965. Co­mo che­gou lá?

Ti­nha 21 anos e sou­be que a Te­re­sa Mota ti­nha es­ta­do na Es­co­la Re­né Si­mon. Man­dei uma carta a per­gun­tar se po­de­ria fre­quen­tar o cur­so e fui acei­te. Já sa­bia fran­cês – com censura tí­nha­mos de ler os originais –, mas com um di­ci­o­ná­rio ao la­do. Fui pa­ra a Al­li­an­ce Fran­çai­se e tra­ba­lha­va co­mo au pair. Fi­quei lá um ano, de­pois tive de me ir em­bo­ra por­que não ti­nha bol­sa.

Foi fe­liz em Pa­ris?

A fe­li­ci­da­de é uma coi­sa efé­me­ra. É-se fe­liz por momentos. Não pos­so di­zer que sou in­fe­liz. Te­nho momentos em que sou fe­liz e momentos em que te­nho uma neu­ra hor­ro­ro­sa. Mas a vi­da é as­sim. Te­nho uma gran­de fe­li­ci­da­de, um fi­lho fan­tás­ti­co que é um ho­mem de uma dig­ni­da­de e de um ca­rác­ter ex­tra­or­di­ná­rio e dois ne­tos.

E tem a car­rei­ra que es­co­lheu?

Qual car­rei­ra?! Não sou car­rei­ris­ta. Se sou­bes­se o que sei ho­je se ca­lhar não a ti­nha es­co­lhi­do. Is­to es­tá pés­si­mo. E o que vi­vi já foi. Acho que o pas­sa­do é mui­to im­por­tan­te por­que tu és no pre­sen­te o que fos­te no pas­sa­do. Mas eu não vi­vo pa­ra trás, eu vi­vo ho­je e, se es­ti­ver cá, amanhã. E nas gran­des li­nhas eu não mu­dei: sem­pre fui de es­quer­da avant la

let­tre, sem­pre fui pe­la dig­ni­da­de hu­ma­na, pe­la igual­da­de, por uma so­ci­e­da­de sem clas­ses. E o meu fi­lho foi cri­a­do nes­ses prin­cí­pi­os e é com es­tes prin­cí­pi­os que ele es­tá a edu­car os fi­lhos de­le.

Cri­ou o seu fi­lho so­zi­nha?

Sim, se­pa­rei-me do pai de­le quan­do ele ti­nha 2 anos. Eu te­nho fei­to tu­do so­zi­nha.

Foi di­fí­cil cri­ar uma cri­an­ça so­zi­nha nos anos 70?

Tem si­do um per­cur­so mui­to di­fí­cil. Sou de uma ge­ra­ção que te­ve de lu­tar con­tra mui­tas coi­sas: o ma­chis­mo exa­cer­ba­do que con­ti­nua a vi­go­rar, a censura, a di­ta­du­ra. Eu fui sem­pre do con­tra.

“Lem­bro-me de ir ao Te­a­tro Apo­lo e ao Te­a­tro Ave­ni­da, de ver a Lau­ra Al­ves ves­ti­da de noi­va, meio a dor­mi­tar” “Sem­pre fui de es­quer­da avant la let­tre, pe­la dig­ni­da­de hu­ma­na, pe­la igual­da­de, por uma so­ci­e­da­de sem clas­ses”

Te­ve pro­ble­mas na di­ta­du­ra?

Na di­ta­du­ra to­da a gen­te te­ve pro­ble­mas. Bas­ta­va ter es­ta­do num con­ví­vio uni­ver­si­tá­rio quan­do foi a gre­ve aca­dé­mi­ca de 1962, bas­ta­va es­tar no ca­fé Mon­te Car­lo a con­ver­sar por­que ha­via pi­des em to­do o la­do, bas­ta­va ter vi­vi­do em Pa­ris em ca­sa de um di­ri­gen­te co­mu­nis­ta e ter fei­to a Fê­te de l’Hu­ma­ni­té com pla­cards às cos­tas. Nun­ca me dei ao tra­ba­lho de ir à Tor­re do Tom­bo ver a mi­nha fi­cha. Mas quan­do che­guei de Fran­ça es­ta­va a ser vi­gi­a­da. Na fron­tei­ra, no com­boio Sud-Ex­press, en­tre­ga­ram o pas­sa­por­te a to­da a gen­te e a mim não. O guar­da, quan­do me veio en­tre­gar o pas­sa­por­te, olhou pa­ra mim com um ar ca­na­lha e per­gun­tou: “En­tão o cur­so foi bom?”

Te­ve me­do?

Não. Os meus ca­ma­ra­das em Pa­ris di­zi­am que era pre­ci­so fa­lar em fran­cês: il faut­par­ler­fran­çais, par­ce que

il y a pide par­tout. Eu não: “Sou por­tu­gue­sa, fa­lo por­tu­guês.” Mas o me­do exis­te. Tive me­do quan­do es­ti­ve com o pai do meu fi­lho na guer­ra em An­go­la.

Es­te­ve em zo­nas pe­ri­go­sas?

Ca­sei-me com um ra­paz que es­ta­va mo­bi­li­za­do pa­ra a guer­ra. Fui pa­ra An­go­la com uma com­pa­nhia de te­a­tro e ca­sei-me em Lu­an­da. De­pois, fi­quei com ele o res­to da co­mis­são num des­ta­ca­men­to no ma­to, em Ca­lom­bo­lo­ca. Um dia fi­quei so­zi­nha. O meu ex-ma­ri­do pe­diu-me pa­ra eu ir pa­ra Lu­an­da e eu: “Não, eu não saio da mi­nha ca­sa!” Sen­ti a guer­ra por per­to, so­bre­tu­do atra­vés da rá­dio Braz­za­vil­le. Ou­via: “O co­lo­ni­a­lis­mo por­tu­guês es­tá po­dre. Va­mos ata­car Ma­ria Te­re­sa, Ca­lom­bo­lo­ca, Ca­cha­ri.”

Tra­ba­lhou du­ran­te es­se pe­río­do?

Sim. Fui nu­ma tour­née com a com­pa­nhia Te­a­tro Ale­gre, do Henrique San­ta­na. Fi­ze­mos An­go­la e Mo­çam­bi­que. Fui de pro­pó­si­to nes­sa tour­née pa­ra o re­en­con­trar. Quan­do a com­pa­nhia re­gres­sou eu fi­quei e fui pa­ra o ma­to. Po­dia não ter ido, por­que o Vasco Mor­ga­do ti­nha um te­a­tro em Lu­an­da e que­ria que eu fi­cas­se lá a tra­ba­lhar. Mas eu ti­nha-me ca­sa­do, não se jus­ti­fi­ca­va eu fi­car em Lu­an­da e ele fi­car a 300 qui­ló­me­tros de dis­tân­cia. Foi um dos pe­río­dos mais im­por­tan­tes da mi­nha vi­da, pe­la ex­pe­ri­ên­cia amo­ro­sa, pe­la guer­ra e pe­la du­a­li­da­de: éra­mos con­tra a guer­ra co­lo­ni­al.

Pa­rei, mas não era gra­ve. Na al­tu­ra, já era uma ac­triz pro­ta­go­nis­ta de pe­ças que en­chi­am o Te­a­tro Va­ri­e­da­des. Quan­do re­gres­sei, em 1972, vim ver As Cri­a­das aqui ao TEC e o Car­los Avi­lez con­vi­dou-me ime­di­a­ta­men­te pa­ra vol­tar a tra­ba­lhar.

Por­que ter­mi­nou es­sa his­tó­ria de amor?

Por­que as his­tó­ri­as de amor aca­bam. Por­que tu­do acaba, na­da é eter­no, a não ser que um se sub­me­ta e eu não. É o pai do meu fi­lho, é uma pes­soa que fi­cou to­da a vi­da li­ga­da a mim.

Eu?! Mas eu ca­sei da­que­la vez por cau­sa da guer­ra. Al­gu­ma vez as­si­no pa­péis pa­ra de­cla­rar se­ja o que for à so­ci­e­da­de. Não!

Na sua ju­ven­tu­de des­per­tou uma gran­de pai­xão. O fo­tó­gra­fo Sér­gio Gui­ma­rães che­gou a cor­tar um de­do. Co­mo foi is­so?

Is­so tor­nou-se uma ane­do­ta em Lis­boa. O Sér­gio Gui­ma­rães foi uma pes­soa mui­to im­por­tan­te na mi­nha vi­da. Mas ele cor­tou o de­do por­que era lou­co, não por­que ti­nha uma gran­de pai­xão por mim.

O ges­to não a afec­tou?

Afec­tou. Não se as­sis­te a uma au­to­mu­ti­la­ção e se sai im­pu­ne. Mas o Sér­gio era lou­co, ge­ni­al­men­te lou­co. Ele era 11 anos mais ve­lho que eu, ti­nha uma cul­tu­ra e um ta­len­to ex­tra­or­di­ná­ri­os. Ele era ma­que­tis­ta, ti­nha fei­to Ar­qui­tec­tu­ra no Porto, mas tam­bém era se­cre­tá­rio do Vasco Mor­ga­do e eu co­nhe­ci-o no Te­a­tro Mo­nu­men­tal em 1960. Ele an­dou anos atrás de mim, era um pre­da­dor. Quan­do me ti­nha na mão, eu era a sua Lo­li­ta e era ex­tre­ma­men­te do­mi­na­dor. Po­dia ter si­do o meu Pig­ma­leão, mas não foi. Em­bo­ra o con­ví­vio com ele me des­per­tas­se a cu­ri­o­si­da­de e a bi­bli­o­te­ca e a dis­co­te­ca es­ta­vam lá.

Mas tor­nou-se pe­ri­go­so?

Foi uma re­la­ção mui­to es­tra­nha, por um la­do ti­nha me­do, por ou­tro ti­nha atrac­ção. Mas eu nun­ca me as­su­mi co­mo ví­ti­ma nem do meu pai, nem de­le. Ele an­da­va de fa­ca de ma­to e

Fez uma pau­sa na car­rei­ra. Não vol­tou a ca­sar.

Em 1968, com 24 anos, quan­do in­te­grou o Te­a­tro Ex­pe­ri­men­tal de Cas­cais

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