Ma­ria Gui­not (1945-2018)

Ven­ceu o Fes­ti­val da Can­ção, em 1984, com Si­lên­cio e Tan­ta Gen­te, mas nun­ca quis po­pu­la­ri­da­de. Ac­ti­vis­ta, compôs vá­ri­os te­mas em de­fe­sa dos di­rei­tos das mu­lhe­res

Sábado - - ASEMANA -

Na noi­te de 7 de Mar­ço de 1984, Ma­ria Gui­not, de 38 anos, tor­nou-se co­nhe­ci­da do gran­de pú­bli­co ao ven­cer o 21º Fes­ti­val RTP da Can­ção. Si­lên­cio e Tan­ta Gen­te ti­nha mú­si­ca e letra da sua au­to­ria. O con­cur­so, apre­sen­ta­do por Manuela Mou­ra Guedes e Fi­a­lho Gou­veia, no an­ti­go ci­ne­ma Eu­ro­pa, fi­cou mar­ca­do por uma gre­ve dos mú­si­cos, o que obri­gou os par­ti­ci­pan­tes a ac­tu­ar em play­back. Gui­not foi a ex­cep­ção: acom­pa­nhou-se a si pró­pria ao pi­a­no.

A 5 de Maio, re­pre­sen­tou Por­tu­gal no Fes­ti­val da Eu­ro­vi­são, no Luxemburgo. Dis­cre­ta, com um ves­ti­do ne­gro do cos­tu­rei­ro Jo­sé Car­los, ob­te­ve um lu­gar igual­men­te dis­cre­to: 11º en­tre as 19 par­ti­ci­pa­ções. Gui­not não era uma es­tre­an­te na ini­ci­a­ti­va da RTP. Já em 1981 – ano em que Car­los Paião ven­ceu com Play­back – con­cor­re­ra com o te­ma Um Adeus, Um Re­co­me­ço, ou­tra vez com letra e mú­si­ca de sua au­to­ria, e fi­cou em 3º lu­gar. Re­co­lheu elogios de crí­ti­cos. Um de­les apon­tou a au­to­ra co­mo “uma ar­tis­ta de gran­de va­lor e qu­a­li­da­de”; um jú­ri for­ma­do por jor­na­lis­tas su­bli­nhou que a sua com­po­si­ção era a me­lhor.

De­pois de ga­nhar o fes­ti­val, nun­ca se dei­xou em­ba­lar pe­la po­pu­la­ri­da­de. “A Ma­ria Gui­not foi, na al­tu­ra, uma ven­ce­do­ra atí­pi­ca do fes­ti­val por­que can­ta­va a sé­rio com um po­e­ma for­tís­si­mo”, re­cor­da Jú­lio Isi­dro, que apre­sen­tou o pri­mei­ro dis­co da cantora, em 1968, no Rá­dio Clu­be Por­tu­guês. “Não se tra­ta­va de uma pes­soa que fi­zes­se es­for­ço pa­ra ser sim­pá­ti­ca”, diz o apresentador. “Co­mo mu­lher de es­quer­da, era mui­to con­vic­ta nas opi­niões. Tive o pri­vi­lé­gio de a ter em vá­ri­os pro­gra­mas.” Nas­ci­da em Lis­boa, a 20 de Ju­nho de 1945, Ma­ria Ade­lai­de Fer­nan­des Gui­not Mo­re­no – o úl­ti­mo ape­li­do adop­ta­do do ca­sa­men­to com um professor uni­ver­si­tá­rio, com quem vi­veu até à mor­te des­te, em 2016 – co­me­çou a es­tu­dar pi­a­no aos 4 anos, in­gres­san­do de­pois no cur­so de Mú­si­ca do Con­ser­va­tó­rio Na­ci­o­nal. Li­cen­ci­ou-se em Ger­mâ­ni­cas, fre­quen­tou a Al­li­an­ce Fran­çai­se e o Ins­ti­tu­to Bri­tâ­ni­co, o Ale­mão e o Ita­li­a­no, e ob­te­ve uma bol­sa de es­tu­do con­ce­di­da pe­lo go­ver­no fran­cês. A vi­da em Pa­ris abriu-lhe ho­ri­zon­tes, o que se re­flec­tiu no seu tra­ba­lho ar­tís­ti­co. Fez as pri­mei­ras gra­va­ções com 21 anos, de te­mas da sua au­to­ria co­mo Ba­la­da do Ne­gro Só, Cri­an­ça Lou­ra e Si­lên­ci­os do Lu­ar.

A VI­DA EM PA­RIS ABRIU-LHE HO­RI­ZON­TES E IS­SO RE­FLEC­TIU-SE NO SEU TRA­BA­LHO AR­TÍS­TI­CO

Sau­da­des do pi­a­no

Em­pre­ga­da na TAP, di­zia que só ac­tu­a­va on­de se sen­tis­se fe­liz a can­tar aqui­lo de que gos­ta­va. A se­guir ao 25 de Abril, in­te­grou o Mo­vi­men­to De­mo­crá­ti­co das Mu­lhe­res (MDM). “Até ado­e­cer, a Ma­ria Gui­not co­la­bo­rou, com a sua mú­si­ca, em vá­ri­as ini­ci­a­ti­vas de ho­me­na­gem a mu­lhe­res an­ti­fas­cis­tas e con­gres­sos da as­so­ci­a­ção”, con­ta Re­gi­na Mar­ques, mem­bro da di­rec­ção e se­cre­ta­ri­a­do do MDM. O ac­ti­vis­mo po­lí­ti­co le­vou-a a es­cre­ver can­ções co­mo Sau­da­ção a Jo­sé Afon­so, te­ma com que em 1986 ten­tou par­ti­ci­par mais uma vez no con­cur­so da RTP, mas a com­po­si­ção foi re­cu­sa­da pe­lo jú­ri do fes­ti­val. Nes­se ano, cri­ou tam­bém Mães da Pra­ça de Maio, co­mo apoio às mu­lhe­res que per­de­ram os fi­lhos du­ran­te a di­ta­du­ra mi­li­tar na Ar­gen­ti­na, e Es­ta Pa­la­vra Mu­lher – uma crí­ti­ca aos ban­cos por­tu­gue­ses que não ad­mi­ti­am mu­lhe­res. Em 2001, fez par­te da lis­ta da CDU à Câ­ma­ra de Cas­cais, li­de­ra­da por Di­nis de Al­mei­da, um dos ca­pi­tães de Abril. Em 1991, gra­vou o ál­bum Ma­ria

Gui­not, pro­du­zi­do por Jo­sé Mário Bran­co e edi­ta­do pe­la União Por­tu­gue­sa de Ar­tis­tas de Va­ri­e­da­des. No mes­mo ano, com Rú­ben de Carvalho e Jo­sé Ma­nu­el Osó­rio, es­cre­veu o li­vro His­tó­ri­as do Fa­do. Em 2004,

Gui­not lan­çou ou­tro li­vro, Me­mó­ri­as de um Es­per­ma­to­zói­de Ir­re­qui­e­to, que in­cluiu o ál­bum Tu­do Pas­sa, com 13 iné­di­tos. Pro­ble­mas de saú­de afas­ta­ram-na da mú­si­ca há cer­ca de 10 anos. Em 2010, re­ce­beu a SÁ­BA­DO na sua ca­sa, na Pa­re­de, com o seu chihu­ahua, Mi­ga­lha, ao co­lo. Di­zia que es­ta­va a fa­zer “co­lec­ção de AVCs”, o que não lhe per­mi­tia to­car pi­a­no. “Cá vou vi­ven­do. O que é pre­ci­so é acor­dar vi­vo.” Con­fes­sa­va não “sen­tir sau­da­des do es­tre­la­to, dos ho­lo­fo­tes nem das en­tre­vis­tas. Do que sin­to sau­da­des é de pôr as mãos no pi­a­no e to­car mas, co­mo se diz, a vi­da é uma ma­dras­ta”. Vi­veu os úl­ti­mos anos num lar, na li­nha do Es­to­ril, on­de mor­reu no úl­ti­mo sá­ba­do, dia 3, na sequên­cia de uma in­fec­ção res­pi­ra­tó­ria.

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