“Só não gos­to da ra­ça de gen­te ES­TÚ­PI­DA”

Vo­lun­ta­ri­o­sa, fleu­má­ti­ca e ex­tro­ver­ti­da fo­ram as ca­rac­te­rís­ti­cas que le­va­ram o Tu­ris­mo do Alen­te­jo a con­vi­dá-la pa­ra ser an­fi­triã da re­gião. À TV Guia, re­ve­la o que mais a apai­xo­na no Alen­te­jo, fa­la dos que mais ama e do ca­ri­nho que sen­te pe­la sua per­son

TV Guia - - ESTRELAS ENTREVISTA -

Es­te ano foi, de no­vo, con­vi­da­da pa­ra ser em­bai­xa­do­ra do Alen­te­jo. Não, ago­ra es­tou no pa­pel de an­fi­triã pa­ra os no­vos em­bai­xa­do­res que en­tra­ram. Fui em­bai­xa­do­ra há dois anos. Co­mo foi a sua ex­pe­ri­ên­cia há dois anos? Foi mui­to in­te­res­san­te. Es­ti­ve­mos em Es­tre­moz, de­pois fi­ze­mos o desfile dos ca­po­tes alen­te­ja­nos, ain­da lá te­nho o meu, é gi­rís­si­mo, e fa­ço ques­tão de o usar es­te ano. E en­tre­tan­to fui cri­an­do la­ços com o pre­si­den­te [da Re­gião de Tu­ris­mo], [António] Ceia da Sil­va, e fo­mos fa­lan­do por­que acho que so­mos em­bai­xa­do­res do nos­so País, to­dos nós. Nes­te ca­so, es­ta­mos aqui a dar vi­si­bi­li­da­de a uma re­gião, que é o Alen­te­jo, com as su­as ca­rac­te­rís­ti­cas mui­to pró­pri­as.

Uma re­gião que faz um es­for­ço tre­men­do pa­ra cres­cer e pro­jec­tar-se. Exac­ta­men­te. Te­mos de­ve­res en­quan­to em­bai­xa­do­res, as­su­mi­mos as nos­sas fun­ções, te­mos di­rei­to aos nos­sos fins-de-se­ma­na, que te­mos de cum­prir. Con­vém ir­mos aos sí­ti­os e pas­sar­mos a men­sa­gem do que é re­al­men­te bom vi­si­tar e co­nhe­cer. Pu­bli­ca de­pois es­sas impressões no seu Ins­ta­gram e no seu Fa­ce­bo­ok? Sem­pre. E de­pois te­mos al­guns even­tos mais ins­ti­tu­ci­o­nais em que so­mos con­vi­da­dos a es­tar pre­sen­tes. E is­so é mui­to en­gra­ça­do por­que se vai cri­an­do afi­ni­da­des com al­guns sí­ti­os e com al­gu­mas pes­so­as.

Já se apai­xo­nou por um lu­gar em es­pe­ci­al no Alen­te­jo?

Fui cri­an­do al­gu­mas li­ga­ções de ami­za­de en­gra­ça­das e ain­da re­cen­te­men­te es­ti­ve em Al­cá­cer do Sal e fi­quei a co­nhe­cer lá uma quan­ti­da­de enor­me de coi­sas que des­co­nhe­cia. Além de po­der di­vul­gar, a mim en­ri­que­ce-me tam­bém ir ab­sor­ven­do a cul­tu­ra dos lu­ga­res. Gos­to mui­to da His­tó­ria e de sa­ber coi­sas no­vas. Is­so é tu­do o que le­va­mos des­ta vi­da. O co­nhe­ci­men­to é o nos­so úni­co pa­tri­mó­nio ga­ran­ti­do... E ao Alen­te­jo já ti­nha uma li­ga­ção es­pe­ci­al? Sem­pre ti­ve. Não por via fa­mi­li­ar. Não, eu sou de Lis­boa. A mi­nha fa­mí­lia é to­da de Lis­boa. Ti­ran­do a mi­nha mãe que tem fa­mí­lia do Ri­ba­te­jo, tu­do o res­to é de Lis­boa, por­que vi­e­mos es­can­ca­ra­dos lá da Ga­li­za há mui­tas ge­ra­ções e fi­cá­mos por cá.

Mas a li­ga­ção que tem ao Alen­te­jo... Te­nho, por­que sem­pre vi­a­já­mos mui­to pe­lo País, eu e os meus pais. E ha­via o

há­bi­to de pas­se­ar por to­das as re­giões do Alen­te­jo. Es­ta ex­pe­ri­ên­cia faz-me re­vi­si­tar e vol­tar ao Alen­te­jo que vi­si­ta­va quan­do era pe­que­na.

O que mais a fas­ci­na na re­gião? Tu­do! A gas­tro­no­mia é ma­ra­vi­lho­sa, mas ca­da zo­na do País tem a sua pró­pria e boa gas­tro­no­mia. Eu adoro a do Alen­te­jo, mas tam­bém gos­to mui­to da do Nor­te. Gos­to de co­mer e is­so faz par­te da nos­sa cul­tu­ra. Em Al­cá­cer es­ti­ve num restaurante, que é A Es­co­la, do chef Hen­ri­que Gal­vão Lo­pes [em Ca­cho­pos, Com­por­ta], um es­pa­ço mui­to en­gra­ça­do. E é cu­ri­o­so, por­que ele man­tém a tra­di­ção na con­fec­ção dos pra­tos, com to­dos os tem­pe­ros que se usa­vam an­ti­ga­men­te.

O que ain­da lhe fal­ta des­co­brir no Alen­te­jo? Já fez a Ro­ta dos Vinhos? Não, mas vou que­rer ex­pe­ri­men­tar. Es­tou a recomeçar a ter con­tac­to com o Alen­te­jo e há mui­tas coi­sas que vou que­rer fa­zer no­va­men­te. E de­pois há uma das coi­sas mais fan­tás­ti­cas no Alen­te­jo, que são os alen­te­ja­nos, das me­lho­res pes­so­as que co­nhe­ço. E não são na­da par­vos. Há uma coi­sa que me cha­teia, que é con­fun­di­rem pes­so­as bo­a­zi­nhas, en­gra­ça­das ou divertidas com ton­tos. Is­so ti­ra-me do sé­rio. Eles são gen­te boa e ver­da­dei­ra, aco­lhe­do­ra e que re­ce­be bem.

E le­vam sem­pre com as ane­do­tas.. Ah, mas is­so é cul­tu­ral e eles pró­pri­os acham pi­a­da, por­que têm es­sa in­te­li­gên­cia e es­sa ca­pa­ci­da­de de hu­mor. Só há uma ra­ça que eu não gos­to – que é a ra­ça de gen­te es­tú­pi­da. Tu­do o res­to gos­to: se­jam ama­re­las, cas­ta­nhas, azuis ou às ris­cas. Gos­to de pes­so­as em ge­ral. E não pos­so com gen­te que dá de­ma­si­a­da im­por­tân­cia a si pró­pria... quan­do não a têm.

Ti­ran­do a sua ca­sa, já des­co­briu em Por­tu­gal um sí­tio a que con­si­ga cha­mar a sua se­gun­da ca­sa?

Não te­nho ne­nhum es­pe­cí­fi­co. Ti­ran­do a mi­nha ca­sa, que adoro e on­de gos­to imen­so de es­tar, não.

Ca­da vez mais?

Sim, ca­da vez mais, mas sem­pre gos­tei de es­tar em ca­sa.

A Ga­li­za dos seus an­te­pas­sa­dos diz­lhe al­gu­ma coi­sa?

Fui lá há uns anos, mas não te­nho lá re­fe­rên­cia al­gu­ma. Nem sei qual é a ter­ra de on­de veio o meu te­travô. Sei que ele abriu uma das pri­mei­ras ca­sas de câm­bi­os na Bai­xa de Lis­boa. Es­se re­cor­te de jor­nal es­tá ain­da na ca­sa da mi­nha mãe. O meu pai já mor­reu, mas a mi­nha mãe guar­dou-o re­li­gi­o­sa­men­te.

É a Síl­via quem vai her­dar o re­cor­te? Es­pe­ro que sim. Que­ro mui­to guar­dá-lo.

Gos­ta des­ses ob­jec­tos com his­tó­ria? É a his­tó­ria, são as me­mó­ri­as.

Mas gos­ta de jun­tar es­sas pe­ças de his­tó­ria, em es­pe­ci­al de fa­mí­lia, e co­lec­ci­o­ná-las?

Gos­to. Eu te­nho uma di­fi­cul­da­de... Não sou pes­soa de coi­sas ma­te­ri­ais, de fi­car agar­ra­da às coi­sas. Ago­ra, es­sas me­mó­ri­as da mi­nha his­tó­ria, e da mi­nha fa­mí­lia, te­nho mui­ta di­fi­cul­da­de em me des­li­gar de­las. Já pen­sou com­pi­lar a his­tó­ria da sua fa­mí­lia, es­cre­ver umas me­mó­ri­as? Quem sa­be um li­vro?

Que­ro fa­zer is­so. Co­mo mo­ro re­la­ti­va­men­te per­to da Tor­re do Tom­bo, que­ro fa­zer es­se tra­ba­lho.

A sua mãe ain­da é um tes­te­mu­nho vi­vo des­sas his­tó­ri­as?

É, e te­nho na mi­nha ca­sa os re­tra­tos an­ti­gos da fa­mí­lia dela e da do meu pai com umas mol­du­ras mui­to bo­ni­tas. A mi­nha fi­lha achou que aqui­lo era an­ti­go e ve­lho e pe­diu-me pa­ra ti­rar tu­do, mas es­tão guar­da­das. Te­nho re­tra­tos da fa­mí­lia to­da, mas não co­nhe­ci qua­se nin­guém. E porquê? Por­que en­tre­tan­to hou­ve uns que fo­ram pa­ra o Bra­sil e per­de­ram-se os la­ços.

Por fa­lar em la­ços, ago­ra es­tá na no­ve­la Va­lor da Vi­da, na TVI, no pa­pel da “amá­vel” Ci­dá­lia.

A mi­nha Ci­dá­lia é a pes­soa que na no­ve­la va­lo­ri­za pes­so­as. Ela dá efec­ti­va­men­te va­lor à vi­da. É uma pes­soa mui­to pre­o­cu­pa­da com os ou­tros. É a che­fe das cos­tu­rei­ras nu­ma fábrica têx­til, é das pes­so­as que mai­or pre­o­cu­pa­ção tem com os ou­tros e aca­ba por aco­lher pra­ti­ca­men­te to­da a gen­te na sua ca­sa.

Pe­la sua des­cri­ção, ima­gi­no que es­te­ja a ado­rar fa­zer es­ta per­so­na­gem. Es­tou, a Ci­dá­lia é mui­to hu­ma­na. Há mui­to tem­po que não ti­nha uma per­so­na­gem tão den­sa do pon­to de vis­ta hu­ma­no.

Ver­da­de. E às ve­zes sin­to al­gu­ma di­fi­cul­da­de em bai­xar o meu ím­pe­to, em­bo­ra a Ci­dá­lia te­nha os seus mo­men­tos fleu­má­ti­cos. Mas, de um mo­do ge­ral, é uma per­so­na­gem con­ti­da.

É um bom exer­cí­cio pa­ra pes­so­as mais ex­tro­ver­ti­das co­mo a Síl­via. Sim, e te­nho um ca­ri­nho mui­to es­pe­ci­al por ela. Sim­ples, con­fiá­vel. Es­pe­ro que te­nha um des­ti­no me­lhor por­que é uma mu­lher que me­re­ce. Es­pe­ro que na no­ve­la te­nha uma vi­da boa, um bom des­ti­no.

Nor­mal­men­te, as pes­so­as bo­a­zi­nhas nun­ca têm mui­ta sor­te na vi­da. Os maus, na vi­da co­mo nas no­ve­las, nor­mal­men­te é que se sa­fam sem­pre. [Ri­sos] Pois é, sem­pre. A his­tó­ria da hu­ma­ni­da­de com­pro­va es­se prin­cí­pio. E de­pois há aque­les que se fa­zem de bon­zi­nhos, mas se­rão des­mas­ca­ra­dos mais ce­do ou mais tar­de. Não fa­çam de con­ta que são fo­fi­nhos e bon­zi­nhos que vão ser des­mas­ca­ra­dos [acon­se­lha, com iro­nia e ri­sa­das]. No­ta que as pes­so­as li­ga­das à te­le­vi­são, a par­tir de uma cer­ta ida­de, pa­re­ce que são es­que­ci­das?

Não! Há pes­so­as mui­to in­te­res­san­tes, co­mo o Jú­lio Isi­dro, o Ma­nu­el Luís Gou­cha ou o Her­man Jo­sé, que de­vi­am ter sem­pre um lu­gar de mai­or des­ta­que e não ser es­que­ci­das. Os mais ve­lhos são as pes­so­as que têm uma vi­vên­cia e uma ex­pe­ri­ên­cia que lhes per­mi­te en­tre­vis­tar e re­pre­sen­tar bem por­que sa­bem o que fa­zem e do que es­tão a fa­lar. Pes­so­as in­te­res­san­tes, co­mo as que re­fe­ri, de­vi­am ter sem­pre um lu­gar de des­ta­que e man­ter-se na te­le­vi­são o mais pos­sí­vel. Têm vi­vên­ci­as e ex­pe­ri­ên­cia, sa­bem do que es­tão a fa­lar. Eles pró­pri­os são a re­fe­rên­cia.

Mas há uma quan­ti­da­de de ac­to­res e ac­tri­zes mais ve­lhos que não es­tão a ser apro­vei­ta­dos.

Há mui­tos mais ve­lhos que es­tão pa­ra­dos.

São des­car­tá­veis.

É ver­da­de.

Mas há ten­dên­cia pa­ra não se cri­a­rem pa­péis pa­ra ac­to­res mais ve­lhos. Não há avós, ti­os-avós nas no­ve­las... Não, não há. E nu­ma no­ve­la tem de exis­tir is­so. Tem de ha­ver a fa­mí­lia. Uma no­ve­la des­ti­na-se às fa­mí­li­as, lo­go tem de ter fa­mí­li­as. Nu­ma no­ve­la as pes­so­as que­rem ver uma boa his­tó­ria de rir e cho­rar. São as emo­ções mais for­tes.

E nas fa­mí­li­as das no­ve­las os ve­lhos são es­que­ci­dos ou às ve­zes apa­ga­dos. Nas no­ve­las, co­mo na vi­da re­al. ●

“Não sou pes­soa de coi­sas ma­te­ri­ais, de fi­car agar­ra­da às

coi­sas. Ago­ra as me­mó­ri­as da mi­nha

fa­mí­lia... te­nho di­fi­cul­da­de em me

des­li­gar de­las”

TEX­TO JOÃO BÉNARD GARCIA I FO­TOS LI­LI­A­NA PE­REI­RA

No Mu­seu de Be­ja, Síl­via, uma apaixonada pe­la his­tó­ria, es­cu­tou to­das as ex­pli­ca­çõescom aten­ção.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Portugal

© PressReader. All rights reserved.