Por es­tra­nhas MA­RÉS

VOGUE (Portugal) - - In Vogue - Iri­na Chi­tas

Tu­do o que é ne­gro, am­bí­guo e trá­gi­co é co­mo um íman pa­ra a Mo­da. E não é com sur­pre­sa que es­ta pri­ma­ve­ra se vol­ta a apai­xo­nar pe­los fo­ra da lei mais co­ol de to­dos.

Há uma cer­ta fa­ta­li­da­de na atra­ção pe­la de­ca­dên­cia. É uma for­ça mai­or, um le­me ine­vi­tá­vel que, vol­ta e meia, nos le­va oce­a­nos aci­ma a lu­ga­res tor­tu­o­sos co­mo Tor­tu­ga ou Port Royal. Os piratas, claro. O guar­da-rou­pa tem al­gu­ma cul­pa no car­tó­rio, com os seus cor­sá­ri­os e ris­cas, os seus es­par­ti­lhos e pe­les e as su­as bo­tas lon­gas, do­bra­das e des­lei­xa­das. Man­gas em ba­lão, ca­mi­sas de­sa­bo­to­a­das, cin­tos tão gran­des qu­an­to a cin­tu­ra per­mi­tir. Mar­ques’al­mei­da, Y/pro­ject, Pre­en e Ale­xan­der Mcqu­e­en ins­pi­ra­ram-se, nun­ca as­su­mi­da­men­te (nem tão des­ca­ra­da­men­te co­mo na­que­la pri­ma­ve­ra 2008 de Je­an Paul Gaul­ti­er), e des­cul­pa­ram-se com te­mas mai­o­res co­mo Car­mi­na Bu­ra­na ou Is­le of Man, ou até a vi­a­gem em que Sa­rah Bur­ton le­vou to­da a sua equipa pa­ra se ins­pi­rar às Ilhas She­tland. É, tam­bém, um ato de pi­ra­ta­ria es­con­der os piratas. Ou tal­vez se­ja ain­da mais ma­trei­ro quan­do, na ver­da­de, eles re­pre­sen­tam uma von­ta­de in­di­zí­vel de man­dar tu­do pe­los ares – tan­tas ve­zes li­te­ral­men­te – e em­bar­car pa­ra lu­ga­res sem re­gras. É um pa­ra­do­xo que os mais li­vres es­te­jam mui­tas ve­zes mar­ca­dos com o ca­rim­bo da bar­bá­rie e do fo­go, mas são pre­ci­sa­men­te os pa­ra­do­xos que, no es­ti­lo, va­lem o seu pe­so em ou­ro.

As­sim, na pró­xi­ma es­ta­ção gra­vi­ta­re­mos nos re­can­tos mais escuros do de­se­jo, pa­ra um des­po­jo on­de os gé­ne­ros se mis­tu­ram com rum, as ru­as são su­jas e a se­xu­a­li­da­de é des­me­di­da e des­pren­di­da – tu­do é li­ber­ti­no. Tam­bém a rou­pa des­cai, ras­ga-se em la­ça­das, ar­re­ga­ça-se nas per­nas, so­bre­põe-se num sty­ling ne­o­mís­ti­co que, mais de­pu­ra­do e des­cons­truí­do. Es­ta é a ori­gem dos ob­je­tos de de­se­jo da es­ta­ção, que po­de­ri­am fi­gu­rar no con­vés de An­ne Bonny e Mary Re­ad, ou em qual­quer ce­na ro­man­ti­za­da de Piratas das Ca­raí­bas. Com mais ca­be­dal e me­nos ca­nhões. Mais ver­me­lho e me­nos san­gue. l

Óleo Bo­ar­ding Sce­ne de Louis-phi­lip­pe. Piratas das Ca­raí­bas: O Co­fre do Ho­mem Mor­to. Ca­pi­tão Gan­cho, Pe­ter Pan.

Cal­ças-cor­sá­rio em de­nim, El­lery.

Ban­da­na em se­da re­ves­ti­da a lan­te­jou­las, Jud­son Har­mon na far­fet­ch.com Saia em al­go­dão, Ca­ro­li­ne Cons­tas. Blu­sa em se­da es­tam­pa­da, Pre­en by Thorn­ton Bre­gaz­zi, Net-a-por­ter.com

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