Ma­tar sau­da­des de Só­nia BRA­GA

VOGUE (Portugal) - - Cinema -

se­gun­da vi­da de Só­nia Bra­ga no ci­ne­ma co­me­çou em Can­nes, o ano pas­sa­do. A Ga­bri­e­la de Jor­ge Ama­do foi a atriz mais elo­gi­a­da com a in­ter­pre­ta­ção mons­tru­o­sa em Aqua­rius, obra de re­sis­tên­cia de Kle­ber Men­don­ça Fi­lho, pro­va­vel­men­te o fil­me bra­si­lei­ro mais im­por­tan­te da úl­ti­ma dé­ca­da. Um re­gres­so tão ines­pe­ra­do co­mo pre­ci­o­so. Bra­ga es­ta­va a viver em No­va Ior­que de for­ma dis­cre­ta, de­pois de ter che­ga­do a uma ida­de on­de Hollywo­od dei­xou de que­rer sa­ber de­la. No­ve­las no Bra­sil foi coi­sa de que já há mui­to de­sis­tiu. De al­gu­ma for­ma, es­te era um pa­pel fei­to à sua me­di­da. (Qua­se) Só ela po­de­ria ser Cla­ra, uma se­xa­ge­ná­ria do Re­ci­fe, jor­na­lis­ta apo­sen­ta­da pres­si­o­na­da pe­los pro­pri­e­tá­ri­os do seu pré­dio pa­ra ven­der a sua ca­sa pa­ra que o edi­fí­cio (cha­ma­do Aqua­rius) se­ja de­mo­li­do e trans­for­ma­do num no­vo ar­ra­nha-céus. A da­da al­tu­ra, co­me­ça mes­mo a ser ame­a­ça­da. Tra­ta-se de um es­pe­lho do atu­al mo­men­to do Bra­sil, ou se­ja, o pas­sa­do a ser es­cor­ra­ça­do de for­ma de­su­ma­na por um fu­tu­ro su­jo e do­mi­na­do pe­los ri­cos. Ci­ne­ma de re­sis­tên­cia, re­pe­ti­mos.

E Cla­ra tam­bém re­sis­te, vai à luta. Não dei­xa de viver a vi­da: ama os ne­tos, con­ti­nua com uma vi­da se­xu­al ab­so­lu­ta­men­te li­vre e ou­ve mú­si­ca. Cha­ma-se a is­so não ce­der, so­bre­tu­do de­pois de ter so­bre­vi­vi­do a um can­cro. Só­nia tem uma força que não se ex­pli­ca. O fil­me ecoa uma di­men­são de re­tra­to de mu­lher fei­to com um res­pei­to pe­la con­di­ção hu­ma­na no­tá­vel. To­ca-nos, con­ta­gia-nos. Es­ta Cla­ra de Só­nia Bra­ga da­qui a uns anos se­rá um sím­bo­lo de uma épo­ca que já não vol­ta, de um tal Bra­sil que se per­deu. E já não en­con­tra­mos a Só­nia Bra­ga das te­le­no­ve­las Dan­cin’ Days ou de Ga­bri­e­la, nem a mu­lher sím­bo­lo se­xu­al que eclo­diu um ima­gi­ná­rio pró­prio com su­ces­sos co­mo A Da­ma de Lo­ta­ção ou Do­na Flor e os Seus Dois Ma­ri­dos (1981), fil­mes de uma épo­ca em que o ci­ne­ma po­pu­lar não era a glo­bo­chan­cha­da des­tes di­as. Ago­ra, cla­ro, com o su­ces­so de Aqua­rius foi de no­vo cha­ma­da por Hollywo­od. Faz de mãe de John Tur­tur­ro no spin-of que o pró­prio re­a­li­za de O Gran­de Le­bows­ki, Going Pla­ces e Won­der, on­de tem um pa­pel for­te ao la­do de Owen Wil­son e Ju­lia Ro­berts. A Amé­ri­ca vai vol­tar a lem­brar-se do seu no­me, so­bre­tu­do dos tempos de O Bei­jo da Mu­lher-ara­nha, de Héc­tor Ba­ben­co, o fil­me que deu o Ós­car a Wil­li­am Hurt ou O Se­gre­do de Mi­la­gro, ma­ra­vi­lho­so ma­ni­fes­to de Ro­bert Red­ford, on­de a atriz es­ta­va fil­ma­da ao na­tu­ral com uma be­le­za in­to­cá­vel. Só­nia vol­tou. Que bom! l

Uma atriz que se rein­ven­ta na or­dem do mi­la­gre em Aqua­rius, obra obri­ga­tó­ria do no­vo ci­ne­ma per­nam­bu­ca­no e um dos gran­des fil­mes do ano.

Por Rui Pedro Ten­di­nha.

Só­nia Bra­ga com o re­a­li­za­dor de Aqua­rius, Kle­ber Men­don­ça Fi­lho.

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