Uma mo­e­da sem per­dão

Po­e­ma de Pau­lo Fi­guei­re­do

Jornal Cultura - - Primeira Página - Pau­lo Jor­ge Fi­guei­re­do

Era uma vez um eu, mui­to bran­co. Era uma vez um me­ni­no ne­gro, mui­to ma­gro. Era uma vez uma is­ga e uma mo­e­da. Era uma vez um pi­que­ni­que. O meu Pai ca­ça­va, A mi­nha Mãe co­zi­nha­va, E eu com coi­sa al­gu­ma brin­ca­va.

E o tem­po pas­sa­va.

Quan­do en­tre­tan­to, Do meio do ca­pim apa­re­ceu um me­ni­no, Com a me­lhor is­ga que eu já vi­ra, To­da en­vol­ta nu­ma lon­ga ita de bor­ra­cha, Da mes­ma cor de quem a ti­nha. Pro­puz com­prar-lha, Pe­diu-me um es­cu­do. Acei­tei o pre­ço, Pe­di à mi­nha Mãe uma mo­e­da. O me­ni­no vol­tou pa­ra on­de vi­e­ra, E eu por ali iquei. Brin­quei com a is­ga, Com a mes­ma pon­ta­ria de sem­pre. Ne­nhu­ma. Nun­ca con­se­gui ca­çar na­da com ela, Co­mo com is­ga al­gu­ma, A não ser o tem­po que pas­sa­va, En­quan­to com elas brin­ca­va Com a es­pe­ran­ça de acer­tar al­gum dia. Par­ti­ram-se as bor­ra­chas da fun­da, Que eu subs­ti­tuia sem­pre, Com a que ia ti­ran­do da que ti­nha. Até que vi a pon­ta de uma mo­e­da es­con­di­da. De­sen­ro­lei mais, e des­co­bri uma mo­e­da de me­ta­de de um es­cu­do. Gri­tei pe­lo me­ni­no sem no­me, Mas ele não vol­tou. Fi­quei com a mo­e­da co­mi­go, E a is­ga mais ba­ra­ta do que me cus­tou. Se al­guém en­con­trar es­se me­ni­no por aí, Ain­da me­ni­no co­mo eu, Di­ga-lhe que ain­da te­nho a mo­e­da de­le, En­ta­la­da na mi­nha gar­gan­ta, Já lá vão qu­a­ren­ta e cin­co anos. Ele ain­da de­ve ser po­bre, Mui­to mais do que eu. De­ve fa­zer-lhe fal­ta, E bas­ta-me le­var os de­dos à boca, Pa­ra ali­vi­ar a mi­nha re­vol­ta, E lhe dar o que nun­ca foi meu.

14 de Abril de 2014

(cer­ca de 45 anos atrás, no meio do ma­to, al­gu­res na pro­xi­mi­da­de da es­tra­da Lo­bi­to - Benguela)

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