Demis Roussos Odis­seia de um can­to fa­raó­ni­co

Jornal Cultura - - Primeira Página -

Mor­reu o can­tor gre­go Demis Roussos. O mú­si­co gre­go ti­nha 68 anos, es­ta­va in­ter­na­do num hos­pi­tal em Ate­nas, e fa­le­ceu no pas­sa­do do­min­go, 15 de Ja­nei­ro.

Ar­te­mi­os «Demis» Ven­tou­ris Roussos nas­ceu a 15 de Ju­nho de 1946. O mú­si­co ven­deu mais de 60 mi­lhões de ál­buns por to­do o mundo.

Roussos nas­ceu e foi cri­a­do na Ale­xan­dria, Egip­to, e era ilho de pai gre­go e mãe egip­cía, com ori­gem gre­ga. «Go­odbye My Lo­ve, Go­odbye», «Fo­re­ver and Ever » , ou « My Only Fas­ci­na­ti­on » fo­ram al­guns dos seus mai­o­res su­ces­sos.

O can­tor foi for­te­men­te in lu­en­ci­a­do pe­la mú­si­ca ára­be. Aos dez anos de ida­de, fã do es­ti­lo jazz, apren­deu a to­car trom­be­ta. De­pois dos seus pais te­rem per­di­do tu­do, após a Cri­se do Ca­nal do Su­ez, a fa­mí­lia vol­tou pa­ra a Gré­cia, quan­do Demis ti­nha quin­ze anos. Sua mãe, Ol­ga, é mais co­nhe­ci­da pe­lo no­me ar­tís­ti­co de Nelly Maz­loum.

A par­tir de en­tão, Demis par­ti­ci­pa em vá­ri­os gru­pos mu­si­cais. O pri­mei­ro, com de­zas­se­te anos, The Idols, quan­do ti­nha de tra­ba­lhar pa­ra sus­ten­tar a sua fa­mí­lia. Já nes­se gru­po, Demis co­me­ça a des­ta­car-se co­mo can­tor, a par­tir do mo­men­to em que é so­li­ci­ta­do pa­ra subs­ti­tuir o vo­ca­lis­ta que es­ta­va can­sa­do, pa­ra can­tar al­gu- mas mú­si­cas (o que co­me­çou com “The Hou­se of the Ri­sing Sun” e “When a Man Loves a Wo­man”).

Com o com­po­si­tor La­kis Vla­vi­a­nos, Roussos deu iní­cio à ban­da We Fi­ve, já co­mo vo­ca­lis­ta prin­ci­pal. Mas só se tor­na mais co­nhe­ci­do a par­tir de 1968, com a ban­da de rock pro­gres­si­vo Aph­ro­di­te's Child, for­ma­da no Rei­no Uni­do, pa­ra a qual Demis se as­so­cia a ou­tros dois mú­si­cos gre­gos, res­pec­ti­va­men­te Van­ge­lis ( ou Van­ge­lis Pa­pa­ta­nas­si­ou) e Lou­kas Si­de­ras, pri­mei­ra­men­te co­mo vo­ca­lis­ta, de­pois tam­bém co­mo gui­tar­ris­ta e bai­xis­ta. Van­ge­lis icou co­mo com­po­si­tor prin­ci­pal e te­clis­ta, en­quan­to Lou­kas cui­da­va da ba­te­ria. No en­tan­to, por fal­ta de per­mis­são pa­ra tra­ba­lhar em In­gla­ter­ra, o gru­po mu­dou- se pa­ra Pa­ris, en­tão no au­ge da Re­vo­lu­ção de Maio de 1968. O pri­mei­ro ál­bum foi Rain and Te­ars, que ob­te­ve um tre­men­do su­ces­so e ven­deu um mi­lhão de dis­cos ape­nas em Fran­ça, al­tu­ra em que nas­ce a sua pri­mei­ra ilha, Emily. Nos três anos se­guin­tes, o de­sem­pe­nho do gru­po foi ex­ce­len­te. Com uma voz ao es­ti­lo de ópe­ra de Roussos, a ban­da pas­sou a ter su­ces­so a ní­vel in­ter­na­ci­o­nal.

Com o inal do Aph­ro­di­te's Child, Demis con­ti­nu­ou a gra­var com Van­ge­lis, seu ex- co­le­ga de ban­da. Pu­bli­ca­ram os ál­bus Sex Power (1970), Ma­gic To­gether (1977). A obra de mai­or su­ces­so da du­pla foi Ra­ce to the End, vo­cal­men­te adap­ta­da da tri­lha so­no­ra do il­me Cha­ri­ots of Fi­re. Roussos tam­bém par­ti­ci­pou co­mo con­vi­da­do da tri­lha so­no­ra do il­me O Ca­ça­dor de An­drói­des (Bla­de Run­ner) (1982), il­me de cul­to con­si­de­ra­do o me­lhor da dé­ca­da de 1980.

Su­ces­so Mun­di­al

Fa­ce ao seu su­ces­so co­mo can­tor, en­quan­to vo­ca­lis­ta dos Aph­ro­di­te’s Child, a edi­to­ra propôs- lhe gra­var o seu pri­mei­ro com­pac­to a so­lo, com a can­ção “We Shall Dan­ce”. Lo­go a se­guir gra­vou o ál­bum “On the Gre­ek Si­de of My Mind”, o qual, jun­ta­men­te com o men­ci­o­na­do com­pac­to, es­tou­rou co­mo os 5 dis­cos mais ven­di­dos em to­da a Eu­ro­pa, in­clu­si­ve a Es­can­di­ná­via. Demis Roussos con­sa­grou- se, en­tão, co­mo can­tor em 1971. Pou­co de­pois Roussos re­en­con­trou-se com La­kis Vla­vi­a­nos, ex-co­le­ga do We Fi­ve. La­kis en­tão compôs e Roussos gra­vou vá­ri­as can­ções que ocu­pa­ram o pri­mei­ro lu­gar nas ta­be­las de vendas de vá­ri­os paí­ses, en­tre as quais, Fo­re­ver And Ever, My Fri­end the Wind, Vel­vet Mor­ning – tam­bém co­nhe­ci­da co­mo Tric Tric Tric, en­tre ou­tras. Des­ta­ca­ram-se tam­bém, na dé­ca­da de 1970, os su­ces­sos My Re­a­son; Go­odbye, My Lo­ve, Go­odbye; So­me­day, So­mewhe­re e Lo­vely Lady of Ar­ca­dia. Ga­nhou um dis­cou de ou­ro com seu LP “Demis”, o qual foi seu úni­co su­ces­so nos Es­ta­dos Unidos.

Após o nas­ci­men­to do ilho, Cy­ril, em 1975, o can­tor gre­go icou os pró­xi­mos oi­to anos fa­zen­do tour­nés pe­lo mundo fo­ra, jun­ta­men­te com sua se­gun­da es­po­sa e o ilho. No Bra­sil, con­se­guiu lo­tar o es­tá­dio Ma­ra­ca­nã com ca­pa­ci­da­de pa­ra 150.000 pes­so­as, fa­ça­nha ape­nas con­se­gui­da por Frank Si­na­tra. Foi ci­ta­do no Li­vro de Re­cor­des de Guin­nes co­mo personalidade de des­ta­que do mundo do en­tre­te­ni­men­to mu­si­cal das dé­ca­das de 70 e 80. Foi con­tem­pla­do com mais de 100 dis­cos de ou­ro, pla­ti­na e di­a­man­te.

O pro­ble­ma hu­ma­no

Em 1978, Demis de­ci­diu re­ti­rar-se dos pal­cos tem­po­ra­ri­a­men­te e mu­dou-se com a fa­mí­lia pa­ra um lu­gar on­de não era co­nhe­ci­do, a sa­ber, a Praia de Ma­li­bu, no Es­ta­do da Ca­li­fór­nia (EUA). Ema­gre­ceu en­tão 54 qui­los e de­ci­diu apro­vei­tar a vi­da vi­a­jan­do pe­lo mundo. De­pois de al­gum tem­po, ain­da no es­ti­lo de vi­da pa­ca­ta, mu­dou-se dos EUA e, com seu ilho Cy­ril, pas­sou a al­ter­nar re­si­dên­cia en­tre a In­gla­ter­ra e a Gré­cia.

Em 14 de Ju­nho de 1985 ocor­reu um fac­to que Demis con­si­de­rou co­mo um se­pa­ra­dor de águas na sua vi­da:

jun­ta­men­te com sua ter­cei­ra es­po­sa, o avião da TWA no qual vi­a­ja­vam de Ate­nas a Ro­ma foi se­ques­tra­do. O fa­to de ver a mor­te de per­to le­vou o can­tor a re lec­tir so­bre o va­lor da vi­da, de­ci­din­do re­as­su­mir sua car­rei­ra de can­tor, com gra­va­ções e shows ao vi­vo, co­mo for­ma de con­tri­buir pa­ra um fu­tu­ro me­lhor pa­ra a hu­ma­ni­da­de. Gra­vou en­tão mais vin­te can­ções, e com­pi­lou o ál­bum “The Story of Demis Roussos”. Pa­ra­le­la­men­te, Roussos par­ti­ci­pa em even­tos vol­ta­dos pa­ra so­lu­ções de pro­ble­mas hu­ma­nos, co­mo, por exem­plo, o fó­rum pe­la paz e de­sar­ma­men­to (Krem­lin, Mos­co­vo, em Fe­ve­rei­ro de 1987) . Pre­o­cu­pa­do com pro­ble­mas am­bi­en­tais, par­ti­ci­pou tam­bém da Reu­nião de Cú­pu­la da Ter­ra, no Rio de Ja­nei­ro.

A par­tir de 2004, Demis Roussos vi­veu uma vi­da mais sos­se­ga­da à bei­ra mar em al­gum lu­gar da Gré­cia, go­zan­do os lou­ros de ser con­si­de­ra­do um dos can­to­res mais ta­len­to­sos do sé­cu­lo XX.

Em 2005, após 25 anos, Demis Roussos re­tor­nou ao Bra­sil e fez três apre­sen­ta­ções.

O seu úl­ti­mo dis­co foi lan­ça­do em 2009.

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