Não en­con­tro pa­la­vras

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Não en­con­tro pa­la­vras, quan­do cai sob o céu es­se cin­za nos­tál­gi­co, chu­vis­co aqui, chu­vis­co ali, a tar­de to­da nes­sa dan­ça tris­te, e tu cor­res sor­rin­do, le­vas con­ti­go to­do o so­nho, to­do o bri­lho, tão au­sen­te nes­ta tar­de, nes­te mundo, e tão pre­sen­te em ti. não en­con­tro pa­la­vras, elas es­cor­re­gam-me das mãos mo­lha­das. On­de mar e céu se en­con­tram, não são pre­ci­sas pa­la­vras, é lu­gar es­va­zi­a­do de tu­do, e tão pre­en­chi­do de na­das. Le­ve­za in­qui­e­tan­te. Li­nha on­de as cer­te­zas lu­tu­am no ar tão in­cer­tas sem ru­mo, asas dos la­dos, pai­ram apá­ti­cas. On­de a es­pe­ran­ça quer azu­lar no mar, en­co­lher fran­zi­da e não se ver. É nos­tal­gia que se res­pi­ra nes­sa li­nha. Nos­tal­gia de uma só cor: de ser mar e ar. E tu, me­ni­no, cor­res nes­sa li­nha, car­tão ao pes­co­ço co­mo ca­pa de he­rói... Fo­ges da chu­va com o teu len­çol, o teu com­pa­nhei­ro de so­nhos, con­quis­tas es­sa li­nha, var­re-la da ca­du­ca me­lan­co­lia. Teus pés des­cal­ços tão pe­que­nos e ca­le­ja­dos já não sentem pe­dras. Já não es­co­lhem ca­mi­nhos, as­sen­tam for­tes na gros­sei­ra es­tra­da tão des­ni­ve­la­da. Já não lem­bram do acon­che­go do ca­cim­bo, que aco­lhe a al­ma de­va­ga­ri­nho. Quem me de­ra hou­ves­se su ici­en­tes co­res de te en­fei­tar. Quem me de­ra en­con­trar pa­la­vras... de pen­du­rar no teu co­ra­ção.

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