Ca­var

Jornal Cultura - - ARTE POÉTICA -

En­tre o de­do e o de­dão a ca­ne­ta Par­ru­da pou­sa; co­mo ar­ma pe­ga.

Sob mi­nha ja­ne­la, um som ras­pan­te e cla­ro Quan­do a pá pe­ne­tra a cros­ta de cas­ca­lho: Meu pai, ca­van­do. Olho pa­ra baixo.

Até seu dor­so re­te­so en­tre os can­tei­ros En­cur­var-se, bro­ta­rem vin­te anos atrás Do­bran­do-se em ca­dên­cia nos ba­ta­tais On­de es­ta­va ca­van­do.

A chan­ca ani­nha­da no re­bor­do, o ca­bo Al­ça­do con­tra o jo­e­lho in­ter­no com ir­me­za. Ele ex­tir­pa­va ta­los al­tos, in­ca­va o io lu­zi­dio Pa­ra es­pa­lhar ba­ta­tas no­vas que co­lhía­mos Ado­ran­do a fres­ca du­re­za nas mãos.

Por Deus, o ve­lho sa­bia usar uma pá. Tal qual o ve­lho de­le.

Meu avô cor­tou mais tur­fa num dia Do que qual­quer ou­tro ho­mem no pân­ta­no de To­ner. Uma vez le­vei lei­te nu­ma gar­ra­fa Mal ro­lha­da com pa­pel. Ele apru­mou-se Pa­ra be­bê-lo, e em se­gui­da pôs-se a Ta­lhar e fa­ti­ar com pre­ci­são, lan­çan­do Tor­rões nos om­bros, in­do mais em baixo atrás Da tur­fa boa. Ca­van­do.

O chei­ro frio de bar­ro de ba­ta­ta, o cha­pe e o tra­pe De tur­fa em­pa­pa­da, os cur­tos cortes de um io Nas raí­zes vi­vas des­per­tam em mi­nha ca­be­ça. Mas pá não te­nho pa­ra se­guir ho­mens co­mo eles.

En­tre o de­do e o de­dão a ca­ne­ta Par­ru­da pou­sa. Vou ca­var com ela.

Seamus Heaney nas­ceu em 1939, em Der­ry, Ir­lan­da do Nor­te, de fa­mí­lia agri­cul­to­ra. Em 1961 for­mou-se em lín­gua e li­te­ra­tu­ra in­gle­sas na Qu­e­en's Uni­ver­sity, ins­ti­tui­ção na qual co­me­ça­ria a lec­ci­o­nar cin­co anos mais tar­de. O im­pul­so pa­ra es­cre­ver po­e­sia ma­ni­fes­tou-se ape­nas aos 23 anos, com o in­cen­ti­vo do crí­ti­co e en­tão pro­fes­sor Phi­lip Hobs­baum. A ac­ti­vi­da­de poé­ti­ca não ti­rou o seu gos­to pe­la edu­ca­ção: em 1984, tor­nou-se pro­fes­sor de re­tó­ri­ca e ora­tó­ria em Har­vard e, em 1988, pas­sou a dar au­las de po­e­sia na Uni­ver­si­da­de de Har­vard. Em 1995 re­ce­beu o Pré­mio No­bel de Li­te­ra­tu­ra.

Não é di ícil per­ce­ber que a fonte pri­mei­ra da po­e­sia de Seamus Heaney -Pré­mio No­bel de Li­te­ra­tu­ra em 1995 -- de­ri­va do sen­ti­men­to de re­ci­pro­ci­da­de pa­ra com a na­tu­re­za e a co­mu­ni­da­de hu­ma­na que ne­la tra­ba­lha. Lon­ge, po­rém, de se res­trin­gir a uma es­fe­ra pu­ra­men­te in­tros­pec­ti­va, o po­e­ta com­bi­na o li­ris­mo de su­as re­mi­nis­cên­ci­as a um sen­ti­do pro­fun­do de res­pon­sa­bi­li­da­de in­di­vi­du­al di­an­te dos di­le­mas co­lec­ti­vos.

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