Jornal Cultura

(QUE VOZ É ESSA QUE SE CALA QUANDO ACORDO?)

- VÍTOR BURITY DA SILVA

Nem dormi, nem li… - Talvez, sabes dizer onde? … o cabo carvoeiro nas agruras do com asas de água, afagas com um amor o engenho nazi, o suor seca…

- Sonho margens e séculos e não paro, toca-me!

… ponta de sagres adormece, e sob os seus pés um frio do sul este mar nem dorme, nunca dorme, é noite e dia assim, fere e apazigua, Saramago dizia sem mar não escrevo, Antunes diz sem mar não escrevo, Beckett vivia no mar, Pessoa andava pelo mar nas suas es inges de latão e subia o mediterrân­eo numa canoa de pau e sem remos, velas quem sabe ou como seria possível navegar ostras e durezas tão duras como o metal dos céus a caírem sobre os telhados, Cardoso num bar e eu sem nada aqui, escrevera nevralgias para que os destinos não adormeçam, fria a cerveja na trindade com Hélder, barbudo e de chapéu vendido, largo longo e escuro porque nem sei, se um dia perguntass­e responder-me-ia o dilúvio, escrito num guardanapo de óleos sacados dos lábios no marisco comido entre coisas bebidas, e a rua desce, um cansaço sem im entre aspas, após a noitada nem sei se é descida ou subida ou coisa nenhuma, como se a noite fosse Portimão a eclodir-se nas castas do douro. Os homens não se contam nem encantam. Dizem-se. Imagino uma selva ou uma serra, um deserto ou um castelo onde um dia Ka ka invadira ingindo-se o agrimensor prometido, ou nas cartas de Checoslová­quia para uma Alemanha vencida pela dor e dureza dos homens sãos e bons que matavam, a razão ali era o io de inhado da lucidez que faltava aos demais, se Ulisses de Joyce uma quimera ou odisseia reli a sustentaçã­o de que Borges sugerindo-me, a escrita de deus no cárcere inventava grãos de areia que cresciam a cada sonho. Dei o meu corpo e a minha alma esvaziou-se numa falésia. Enternecid­as estas gemas voam sobre prantos famintos, e o que sei é que foi, e o que foi, foi, se volta não sei nem quero, premissa miserável meu Deus, se o céu fosse o habitáculo dos sonhos desfeitos na planície, cântaros vazios por entre os tédios, fumegantes e repletos nasciam na distância, à beira os cervos gatinhavam os areais despidos de petulância, crescidos, fosse a vida uma certeza qualquer, ou consternaç­ão apenas. Ou se pueril acima dos ombros num peso de bradar, o silêncio da vigília neste canto inventado repleto de muros sem cor a saírem dos casebres cobertos de divindade, a voz nua subindo carreiros numa janela vermelha deste lugar que descubro a cada sonho que sinto, verosímil o silêncio das hostes, num mar que refuta, o pó laico da tarde numa casa que se perde a cada sombra que nasce numa noite que se arromba, como uma vírgula que divide uma frase, estendida na cama da verdade alojada no quintal de anos depois, acordado num relento de tempos esquecidos e vencidos e de mortes sem destino e sem nada, acima mais, coisa nenhuma, quem perde a alma, a ordem, quem se deslumbra na vitória, esquece quando perde, como quem sofre e se socorre dos vazios deixados após o dilúvio deste mar recuado num tsunami de mentira e sou, um sono prolongado. Acordar no vazio refrescant­e da praia. Numa praia de ilha. Num mar de sol, quente, um mar azul deste distante e intenso sonho entre paredes mordazes, um dia um choro em mim sobre a cara cremada num desejo queimado, neste saco branco a morte que me leva aos deuses do im, na terra encoberto de quilos e pesos para acorrentar o im que o destino cria.

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