O PE­QUE­NO HO­MEM DOS “TRÊS FIOS”

Jornal Cultura - - BARRA DO KWANZA -

Foi ao meio-dia, es­ta­va eu en­tre­ti­do nos afa­ze­res ti­pos da ida­de, quan­do um vi­zi­nho meu veio e dis­se-me que o meu pai o man­dou cha­mar-me. Eu fui cor­ren­do, an­si­o­so, não era pa­ra me­nos, o meu pai qua­se que nun­ca me man­da­va cha­mar. Com uma mis­ce­lâ­nea de ex­pec­ta­ti­vas, sal­tan­do-me os olhi­nhos, lá ia eu ide­a­li­zan­do porquê que o pai, lo­go o pai, me man­da­ra cha­mar… se­ria um pre­sen­te, um pas­seio... Não pas­se­a­va com o meu pai fa­zia tan­to tempo, – é des­ta vez! Pen­sei.

Quan­do che­guei, sen­ti o cli­ma que ia de acor­do com o prog­nós­ti­co, o ma­da­la es­ta­va ali lo­go à por­ta prin­ci­pal da ca­sa, se­gu­ra­va as mi­nhas ca­mur­ças, lá den­tro eu con­se­guia en­xer­gar as mi­nha rou­pas de fes­ta sen­do en­go­ma­das pe­la mi­nha mãe. – Adi­an­ta, to­ma ba­nho, rá­pi­do…! Dis­se a mi­nha mãe num tom aus­te­ro e meio de­ses­pe­ra­do. Em se­gui­da ela mes­ma abre­vi­ou-me o ba­nho pa­ra lo­grar os in­ten­tos do meu pai. Fez a sua po­ma­da de ca­be­lo des­li­sar a mi­nha epi­der­me. Pen­te ino às mi­nhas ca­ra­pi­nhas, go­la e bo­tões no seu devido lu­gar. En­quan­to is­so, o meu pai ata­va­me as botas. Eu co­me­cei a sen­tir a se­ri­e­da­de do que me es­pe­ra­va. A mi­nha mãe ser­viu-me com tan­ta pres­sa a co- mi­da que ti­ve que co­mer ain­da quen­te. E se­gre­dou-me: – Ho­je vais à es­co­la. Na qua­li­da­de de pri­mo­gé­ni­to nun­ca vi­ve­ra com al­guém que es­ti­ves­se na es­co­la pa­ra que me dis­ses­se ao cer­to o que era, mes­mo as­sim em­pol­guei-me. – Va­mos lá… já são ho­ras! Dis­se meu o pai com um sem­blan­te só­brio, o que me cri­ou ca­la­fri­os e pre­nún­ci­os ater­ra­do­res qu­an­to à es­co­la. Lá fo­mos nós. Eu no acen­to da trás da sua djin­ga, uma bi­ci­cle­ta ve­lha em que pa­ra tra­var bas­ta­va pi­sar no pneu da atrás. No meio de pou­cas pe­da­la­das chi­ou na ter­ra ba­ti­da os pneus ca­re­cas da djin­ga. Es­tá­va­mos na es­co­la!

Não era aqui­lo que eu tan­to ima­gi­na­ra. Ha­via ape­nas al­gu­mas sa­las mal aca­ba­das que la­de­a­vam uma ár­vo­re fron­do­sa. Um bar­ru­lho en­sur­de­ce­dor abra­ça o lo­cal. Uma al­ga­zar­ra fei­ta de cho­ros e gri­tos. O meu pai que tam­bém era pro­fes­sor, de uma ou­tra es­co­la, foi ter com o meu pro­fes­sor. – Es­tá aqui o miú­do. – Oh… me­ni­no Ja­po­ne, co­mo es­tás cres­ci­do…!

A inal o pro­fes­sor co­nhe­ceu-me quan­do be­bé… ha­ja cle­mên­cia! Ou­vi­ra que os pro­fes­so­res eram uma es­pé­cie de pas­to­res, com paus e ré­guas, pa­ra ali­nha­var o re­ba­nho. Quan­do es­prei­tei o sem­blan­te dos meus fu­tu­ros co­le­gas, não que­ria ter cres­ci­do ao pon­to de es­tar on­de me en­con­tra­va.

O meu pai dei­xou-me, caiu-me uma lá­gri­ma no can­to do olho. Von­ta­de de cor­rer atrás da bi­ci­cle­ta não me fal­tou, mas te­mia as re­pre­sá­li­as à noi­ti­nha lá em ca­sa, man­ti­ve-me se­re­no. En­trei e sen­tei-me no chão, co­mo ain­da não ti­nha os ca­der­nos fui ra­bis­can­do no meu acen­to cer­tas igu­ras in­cóg­ni­tas.

Lá veio o pro­fes­sor. To­do so­ber­bo, com uma va­ra nas mãos. Ver­ga­va uma ima­cu­la­da ba­ta, o que na al­tu­ra me lem­bra­va as en­fer­mei­ras do cen­tro de saú­da de que fre­quen­ta­va com a mãe. – Boa tar­de me­ni­nos… – Boa tar­de!!! – Vo­cês sa­bem porquê que es­tão aqui?

A eloquên­cia do si­lên­cio respondeu ao pro­fes­sor e a to­dos nós. Foi uma ques­tão que nun­ca nos ha­vía­mos fei­to e ao sair do pró­prio pro­fes­sor eu fui­me ques­ti­o­na­do, o porquê de aban­do­nar o acon­che­go e o con­for­to da mi­nha ca­sa pa­ra me jun­tar a ou­tros me­ni­nos nes­te so­a­lho de ter­ra-ba­ti­da e ain­da ter de res­pon­der a ques­tões que de cer­te­za ab­so­lu­ta o emis­sor ti­nha as res­pos­tas.

Ho­je, vol­vi­dos vin­te e tal anos sei e sin­to o porquê de ter fre­quen­ta­do aque­le lu­gar e o quão im­por­tan­te foi aque­le pri­mei­ro dia e o quão im­por­tan­te foi o su­por­te que ti­ve dos meus pais. Só não sei ao cer­to por que é que vol­vi­dos to­dos es­tes anos, as cri­an­ças, as es­co­las, os pro­fes­so­res, a edu­ca­ção no ge­ral con­tí­nua a mes­ma coi­sa: sem pro­gres­sos, sem ino­va­ções e com os mes­mos ve­lhos fan­tas­mas.

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