A ALDEIA DA JU­VEN­TU­DE

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O tem­po his­tó­ri­co é in­cóg­ni­to. Ape­nas os di­ze­res que vi­a­jam de ge­ra­ção em ge­ra­ção dão ideia de que não te­rá si­do na an­ti­gui­da­de clás­si­ca. E con­ta- se que num pla­te­au, tam­bém es­que­ci­do des­sa imen­sa An­go­la, vi­via uma enor­me co­mu­ni­da­de. Ho­mens no­vos e ho­mens ve­lhos se des­ta­ca­vam nos tra­ba­lhos que con­sis­ti­am em agri­cul­tu­ra, pes­ca, ca­ça e re­co­lec­ção.

Ini­ci­al­men­te, os mais no­vos, da­da a sua ro­bus­tez fí­si­ca, exe­cu­ta­vam as mais pe­no­sas ta­re­fas, en­quan­to aos ido­sos re­caia a ta­re­fa de en­si­nar e co­or­de­nar to­das as ac­ti­vi­da­des so­cio-cul­tu­rais e cul­tu­rais.

A in­ves­ti­ga­ção e a im­ple­men­ta­ção de novas tec­no­lo­gi­as era tam­bém ta­re­fas con­fi­a­das aos mais no­vos, che­gan­do, muitos de­les, a en­vai­de­cer- se e des­res­pei­tar os seus pais e avós a quem tra­ta­vam por "ca­du­cos".

Cer­to dia, um gru­po de jo­vens pe­tu­lan­tes che­gou a pro­por a se­pa­ra­ção da aldeia, cons­truin­do, num cam­po que dis­ta­va dois qui­ló­me­tros, a aldeia dos jo­vens que pro­cu­ra­vam "li­ber­tar-se" da "es­cu­ri­dão" a que di­zi­am estar os ve­lhos vo­ta­dos. Na ver­da­de, a in­ten­ção mai­or era ver a aldeia de Ki­tum­bu­lu "uma lar de ido­sos ca­ren­tes e pe­din­tes".

A no­va aldeia, de­sig­na­da Light Youth City foi er­gui­da em tem­po recorde. En­tre os jo­vens abun­da­vam ar­qui­tec­tos, en­ge­nhei­ros ci­vis, tec­nó­lo­gos, in­for­má­ti­cos, au­tó­ma­tos, en­tre ou­tras ci­ên­ci­as mo­der­nas da­que­le tem­po.

Er­gui­da em zo­na pla­na de uma mon­ta­nha, a ilu­mi­na­ção fo­to­vol­tai­ca fa­zia de­la um es­plen­dor. Uns tra­ta­vam- na de "ci­da­de ce­les­ti­al", pois ha­via qua­se tu­do e con­su­miu ape­nas meio ano.

Che­gou o ka­sim­bu, tem­po se­co e de ca­ça. Os ar­ma­zéns de ví­ve­res es­ta­vam va­zi­os e era pre­ci­so pes­car e ca­çar. As mulheres, be­las e mo­der­nas já não se con­ten­ta­vam ape­nas com a ci­da­de. Al­gu­mas fu­ra­vam o com­bi­na­do que era "não se des­lo­car á aldeia de Ki­tum­bu­lu onde fi­ca­ram os ve­lhos até que se ren­des­sem e se mos­tras­sem aber­tos ás es­tra­va­gân­ci­as juvenis". Po­rém, sau­da­de e fo­me qu­an­do se ca­sam, a lei eva­po­ra. Sor­ra­tei­ra­men­te, uma e outra iam vi­si­tar os pais e pe­dir o que co­mer.

Lá, em Ki­tum­bu­lu, mes­mo com su­as for­ças di­mi­nu­tas e seus mei­os ar­te­sa­nais e ru­di­men­ta­res, a pes­ca e a ca­ça nun­ca foi pro­ble­ma. A far­tu­ra apos­sou-se das casas e os ve­lhos e ve­lhas dou­tro tem­po pa­re­ci­am mais jo­vens que seus fi­lhos de­ser­to­res que pa­de­ci­am de fo­me e má nu­tri­ção.

Afli­tos, os ha­bi­tan­tes da Light Youth City ti­ve­ram de reu­nir- se e no­me­ar uma em­bai­xa­da que foi se des­cul­par aos ido­sos e so­li­ci­tar que os en­si­nas­sem a pes­car em la­go­as e pân­ta­nos e a ca­çar com ar­te­fac­tos ru­di­men­ta­res en­tre o ca­pin­zal ri­bei­ri­nho.

Va­leu- lhes o fac­to de "o amor pa­ter­nal ser imen­su­rá­vel e ines­go­tá­vel". Fo­ram to­le­ra­dos e ins­truí­dos. Mas, em con­tra­par­ti­da, ca­da fi­lho teve de le­var os seus pais para a no­va ci­da­de.

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