Lu­ko­ki e Az­na­vour na bar­ca de Rá

Jornal Cultura - - Editorial - JOSÉ LUÍS MENDONÇA

Aqui na Ter­ra, uns an­dam de can­don­guei­ro, ou­tros vi­a­jam de jac­to pri­va­do. Mas qu­an­do se vai pa­ra o Rei­no dos Mor­tos, to­dos vi­a­jam no bar­co so­lar de Rá (me­sek­tet), que, por cau­sa da sua pri­ma­zia mi­to­ló­gi­ca, nas­ci­da no Egip­to An­ti­go – a pri­mei­ra po­tên­cia mun­di­al da His­tó­ria – é, até pro­va em con­tra­rio, o veí­cu­lo mais apro­pri­a­do pa­ra nos le­var des­ta pa­ra me­lhor.

Me­ra coin­ci­dên­cia fac­tu­al, ou eso­té­ri­ca con­cer­ta­ção as­tral, o an­go­la­no Am­bró­sio Lu­ko­ki “Nza­kimwe­na”, ex-mi­nis­tro e em­bai­xa­dor, e o fran­cês Char­les Az­na­vour, in­sig­ne can­tor e ac­tor de ci­ne­ma, dei­xa­ram es­te mun­do no mes­mo dia 1 de Ou­tu­bro e, por es­sa ra­zão, lá se fo­ram os dois en­con­trar sen­ta­dos la­do a la­do, na bar­ca so­lar do deus Rá.

Ba­loi­çan­do le­ve­men­te nas on­das sub­ter­râ­ne­as do má­gi­co e im­po­nen­te rio Ni­lo, per­gun­ta, a sor­rir, o nos­so ex-mi­nis­tro da Edu­ca­ção ao seu ines­pe­ra­do com­pa­nhei­ro de jor­na­da:

– Ó ilus­tre Char­les Az­na­vour, sai­ba que vo­cê compôs uma can­ção que me mar­cou to­da a vi­da. Tem por tí­tu­lo Hi­er En­co­re ( ain­da on­tem). Lem­bra- se des­sa can­ção?

– Lem­bro-me, que­ri­do com­pa­nhei­ro des­te bar­co fu­ne­rá­rio. Olhe que não es­que­ço nem uma le­tra das 650 can­ções que com­pus. Tra­go-as aqui to­das na mi­nha al­ma e vou en­tre­ter Osí­ris, lá no sa­lão dos Mor­tos, can­tan­do-as uma a uma, até ele ador­me­cer. As­sim, sa­fa­mo-nos e bem do juí­zo inal, ah, ah, ah!, – sor­riu a ban­dei­ras des­pre­ga­das o mú­si­co.

– Ah, ah, ah! – cor­ro­bo­rou Nza­kimwe­na. – Mas, di­ga-me uma coi­sa, Char­les, es­sa can­ção nos­tál­gi­ca, ago­ra e aqui, não te traz sau­da­des lá da Ter­ra?

– Sai­ba que não, Lu­ko­ki, cum­pri a mi­nha mis­são, fui ho­me­na­ge­a­do em vi­da, até uma es­tá­tua me er­gue­ram na Ar­mé­nia, de on­de sou des­cen­den­te, emo­ci­o­nei mui­tos co­ra­ções, que as mi­nhas mú­si­cas ins­pi­rem ou­tras e os meus il­mes aju­dem a pa­ci icar o mun­do cru­el que dei­xá­mos. Mas, en­tão, e vo­cê, Lu­ko­ki, leio na sua al­ma que vo­cê foi um po­lí­ti­co in lu­en­te em Angola. Tem al­gum re­ceio de Osí­ris o con­de­nar por es­sa sua es­co­lha de vi­da?

– Não te­nho re­ceio al­gum, meu ca­ro Char­les. Nem sem­pre so­mos nós que es­co­lhe­mos. No meu ca­so, era jo­vem e vi­via num país co­lo­ni­za­do. Não ti­ve es­co­lha. En­trei pa­ra a po­lí­ti­ca, dei o meu con­tri­bu­to pa­ra a in­de­pen­dên­cia do meu país, se ti­ves­se que vol­tar atrás, nas mes­mas con­di­ções, não he­si­ta­ria.

– Fol­go em ou­vi-lo, meu ilus­tre Lu­ko­ki. Es­ta­mos qua­se a che­gar ao nos­so des­ti­no inal. Já ve­jo Osí­ris e os seus 42 as­ses­so­res à nos­sa es­pe­ra. Dei­xa-me co­me­çar a can­tar...

– En­tão, Char­les, co­me­ce por aque­la be­lís­si­ma can­ção La bohè­me (A boé­mia)...

Char­les Az­na­vour

Am­bró­sio Lu­ko­ki

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Angola

© PressReader. All rights reserved.