À flor do fo­go

Jornal Cultura - - Academia Angolana De Letras -

Bate o de­se­jo su­as len­tas águas fun­das, e de­sa­ta so­bre nós: seus la­ços vi­vos – sô­fre­gas: su­as tei­as, tran­ça­das de re­lâm­pa­gos. Di­go: aqui tens o co­lo que te dou. E tu alon­gas o teu cor­po em ofe­ren­da pe­lo chão: o olhar pun­do­no­ro­so que sú­bi­to tres­pas­sa, im­plo­de – afe­rin­do o ru­mor to­ca­do pe­lo ar – ao al­to e em re­dor. E eu re­vol­vo os teus ca­be­los sen­ta­dos no meu co­lo, co­mo quem pers­cru­ta um rio des­de a in­fân­cia, e ago­ra plan­tas­se ho­ri­zon­tes no teu ros­to.

– Fe­cha os teus olhos, meu amor, fe­cha os teus olhos, e abre – per­fei­ta – a len­tís­si­ma nu­dez – em lor e fru­to, dan­ça­da.

As mãos de­vo­ram as mãos – de­vo­ram su­as mar­cas, seus o íci­os: ali­men­tam-se do re­fa­zer es­cul­pi­do e tra­ba­lha­do dos cor­pos, do es­tre­me­ci­men­to abrup­to dos sen­ti­dos. As lín­guas ilu­mi­nam o sal dul­cís­si­mo da pe­le: co­mo re­lâm­pa­gos na­ve­gan­do alu­ci­na­dos – pro­cu­ram: a se­cre­ta e noc­tur­na lor do fo­go. E o ar per­fu­ma-se de nós co­mo um bos­que das su­as ár­vo­res aten­tas.

E pas­sam bei­jos que se de­mo­ram – se­xo a se­xo: a res­pi­ra­ção cre­pi­ta num tre­mor ju­bi­lo­so. E to­do o chão é len­çol e mar – e den­tro de ti, eu te me dou in­tei­ro – oh meu amor aca­ba­do de nas­cer!

3.1-20.8.2013

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