Jornal Cultura : 2019-06-11

Arte : 10 : 10

Arte

10 Cultura ARTE | 11 a 24 de Junho de 2019 | já de certa forma esta forma do homem me persegue, é um trabalho que gosto particular­mente que é as errâncias Axiluanda, mas no fundo equivale muito às minhas próprias andanças, quando vou trabalhar para o Mussulo e lá fico entretido no trabalho com as rotinas diárias: passear, apanhar pequenos objectos. Esta outra obra tem por título A Espera. As pessoas perguntarã­o: “Mas porquê A Espera?” Ora, a gente em toda a nossa vida espera. Esperamos 9 meses na barriga da nossa mãe para aparecer, esperamos por um dia melhor, esperamos por uma sociedade melhor, as kinguilas esperam horas para fazer as suas trocas de dinheiro, no fundo, as esperas são tão grandes e vai crescendo uma árvore dentro da consciênci­a, o azul é uma cor que me agrada sobremanei­ra, A Epera é um dos quadros mais procurados, e o quê que isso quer dizer? A Espera, porquê? Nós, humanos, esperamos a vida inteira por coisas algumas que nunca acontecem, esta cadeira representa um bocado este sentido de espera, de que as pessoas estão à espera sempre de algo que acontece, umas vezes, outras nunca acontece. Já aqui, estes quadros têm um lado mais retrospect­ivo, são quadros do passado. Há aqui uns desenhos que eu fiz para a capa de um bloquinho universitá­rio, em 1973, 1974, digamos que é um desenho que estava guardado. No princípio, fiz muitas artes gráficas, muitos grafismos, parte das artes gráficas que eu fiz no pós-independên­cia para livros e autores angolanos foi imensa, e aqui foi uma série de colagens quando eu cheguei a Los Angeles, eu vivi uns tempos na casa do professor Gerry Bender. O Gerry é que me disse: “Tens aqui estas revistas todas, se quiseres fazer recortes…”, e, a partir dessas revistas, fui trabalhand­o. Isto é uma coisa que eu chamo Carta Astrológic­a, é um bocado premonitor, uma leitura quase cinematogr­áfica dos filmes que se fazem na América. Este aqui é do mesmo período. Acontece que o vendi lá a um professor universitá­rio e, para minha exposição em Los Angeles, no Museu Afro-americana ele não me mostrou as obras que eu tinha vendido, e eu acabei por imprimir e tirar umas fotografia­s. Este chama-se King Kong Memory of Apocalipse, é um pouco de sarcasmo. Este é um quadro muito particular­mente interessan­te, tem muito reflexo, resulta de uma história vivida, em certa altura, estava em Nova York, estive lá dois meses, estava a concluir um filme para o UNICEF sobre as mulheres camponesas angolanas e lembro- me de uma noite que fui jantar na casa de um senhor indiano e da mulher coreana que viviam não muito longe, para chegarmos, tínhamos de apanhar um metro, mas a conversa foi interessan­te que acabei por apanhar o metro uma certa hora um bocado tarde e então, quando fui apanhar o metro não havia quase ninguém, entrei numa carruagem, encontrei lá uma punk cheia de alfinetes adormecida, quando o comboio começou a andar senti que ha- JC – E qual é o material usado? É lápis? AO – Tem lápis de cor, aguarela, lápis de cera que uso muito. Nessa altura, a minha obra é muito mais gráfica. Este aqui particular­mente produzi em Maio, estávamos muito bem eu e a minha mulher em casa a dormir e havia um temporal em Los Angeles, chuvadas e raios, principalm­ente muitos raios, e fomos acordados pela vizinha de baixo, que apareceu completame­nte nua, e me disse: “Fogo! Saiam de casa”, e um dos raios atingiu uma das palmeiras, eu tinha um pequeno balcãozito que dava para o exterior, junto a este balcão tinha duas palmeiras. Só me lembro de vestir as calças, a minha mulher ainda tirou os passaporte­s e ficamos na rua a ver quando é que a casa começava a incendiar, ardeu uma parte da palmeira e depois lá chegaram os bombeiros e apagaram, isso foi outro susto. Esta aqui é a primeira obra, quando voltei do meus estude da Califórnia e que chamo Super Powers, naquela época os Estados Unidos e a Rússia andavam em confronto de grandes poderes, por isso chamo de Super Powers, mas, no fundo, é um confronto. Nessa sequência de 1986 a 1976, fiz este que se chama O Beato e o Corvo. É uma coisa que a gente começa a desenvolve­r, o recurso a cor, eu estava longe de África, andei muito tempo na Califórnia mas ao mesmo tempo com o pensamento em África, enfim estas são as primeiras obras que fiz neste contexto . A certa altura, ganhei uma bolsa do Centro Nacional de Cultura, que era dirigida pela Helena Vaz da Silva, uma senhora que já faleceu e que recebeu a minha proposta sobre uma coisa que me interessav­a sobremanei­ra: fazer um mergulho na história, e qual era a história? Era a escravatur­a e o trabalho forçado que se prolongou, e acho que a escravatur­a ainda não acabou totalmente, ainda temos pelo mundo exemplos tristes de pessoas que escravizam outros por razões de trabalho ou terem mão de obra barata e, quando recebi esta bolsa, para cerca de quatro meses para investigar esse assunto, passei muito tempo nos arquivos históricos aqui em Luanda, ficava aqui numa rua bem perto da primeira casa do MPLA e vai até à Serpa Pinto. A Rosa Cruz e Silva nesta altura era directora do Arquivo Histórico e via um barulho ensurdeced­or de alguém a abrir as portas e a fechar com toda a violência. Quando ficamos só eu e ela, ela estava adormecida mesmo, mas eu fiquei assim um pouco preocupado o que seria que vinha ali? E então quando apareceu a pessoa que estava a produzir este barulho, era um homem com quase com 2 metros e uma gabardina, um sobretudo até abaixo, e eu fiquei realmente assustado, porque o homem vinha com ar muito agressivo, acabei por sair, e quando eu ia já a subir as escadas vinham uns enfermeiro­s e uns polícias a correrem a toda a velocidade a descerem para apanharem a carruagem. Quando cheguei à rua é que eu vi que estava em cima do passeio uma ambulância com doentes mentais, portanto, o senhor devia ter escapado e estavam à procura dele. Acabei por ficar muito impression­ado e acabei por inventar e recriar essa história, mas só a pintei não em Nova Iorque, mas numa altura em que fui para o Texas, Austin, onde vivia um casal amigo que já não via há muitos anos, lá fiquei um mês e então nessa altura é que eu a concluí. JC – Este material é cartão? AO – É sim, é cartão, também foi uma série que eu fiz lá em Los Angeles para um calendário de uma cerveja muito popular “Koors” que é muito popular no meio afro-americano e acabei por começar a trabalhar nestas ilustraçõe­s, no fundo também tem um pendor gráfico e quando já ia no nono, a senhora Barbara Fusk que estava a fazer negócios com a Sonangol, tinha umas ligações com Angola, e quando cheguei ao nono , a senhora disse-me: “António, infelizmen­te não vai ser possível.” Irritou-me um bocado, mas acabei por fazer os doze, dos quais parte deles vendi e estas acabei por guardar. Algumas destas pinturas são propriedad­e da Sonangol, mas eu já tentei saber onde estão, ou foram as pessoas que levaram para as próprias casas e é uma coisa que me irrita um bocado. PRINTED AND DISTRIBUTE­D BY PRESSREADE­R PressReade­r.com +1 604 278 4604 ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY COPYRIGHT AND PROTECTED BY APPLICABLE LAW

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