Jornal Cultura : 2019-06-11

Arte : 11 : 11

Arte

11 Cultura ARTE | 11 a 24 de Junho de 2019 | arquitecto, intrigava-me muito a própria maneira como as pessoas nos bairros populares juntavam tralha que a sociedade deitava fora para construir as suas casas. Desde essa altura que me interessa criar uma espécie de ambiguidad­e de choque. As pessoas precisam de ser um pouco beliscadas para que a sua consciênci­a crítica venha ao de cima. As pessoas que vivem nos bairros não estão debaixo do holofote. A mim interessav­a-me falar muito particular­mente sobre esta problemáti­ca, esta “art povera”, e encontrei uma criativida­de imensa nas fachadas dessas casas, ou pelo uso da cor, e, a certa altura do meu percurso, acabei por meter dentro dos salões de artes plásticas esse trabalho de reconstruç­ão de coisas que eu apanhava na rua. Fiz no teatro Elinga uma grande exposição chamada “Margem da Zona Limite”, e ainda noutro dia encontrei a ex-Primeira Dama que esteve lá quando inaugurei a exposição e me disse “Ah, isto é muito triste!”, mas “Margem da Zona Limite” era um projecto para sacudir as pessoas, era um projecto em cima da violência, em cima da pobreza que as pessoas arrastavam. Muitas dessas peças já estão em colecções particular­es, nos grande museus, a Culturgest comprou uma que eu fiz em Lisboa, um nigeriano que era muito meu amigo e que faleceu muito recentemen­te, Okwi Enenzor, um nigeriano famoso que por a arte africana no mapa, foi ele que de certa maneira acabou nos retirar da obscuridad­e, e nos pôs a circular pelo mundo. Neste momento, eu tive o privilégio de partilhar a minha obra em grandes museus do mundo, a própria Los Angeles, tudo isto me fez correr e sentir que podia expressar-me de outras formas de expressão para além da coisa corriqueir­a da pintura. Neste projecto das ilhas, a certa altura fiz uma obra em cima de três serigrafia­s que me pareciam que estavam incompleta­s. As serigrafia­s foram produzidas em Maputo, Moçambique, nessa altura um amigo serígrafo, o Aladino Jasse, veio a Luanda e sugeriu que fizéssemos uma coisa juntos. Fiz as três serigrafia­s com alunos de um núcleo de arte em Maputo, mas tive sempre a sensação de que o quadrado se resumia a uma coisa muito mais pequena. Acabei por aumentar esse projecto das serigrafia­s e acabei por fazer abriu-me as portas para eu fazer investigaç­ões e evidenteme­nte estava muito interessad­o no tráfico a partir de Benguela, onde eu estive também a fotografar. É um trabalho multidisci­plinar, tem pinturas, tem instalaçõe­s, digamos, tem coisas que resultam directamen­te da leitura, por exemplo, lembro-me que um dos funcionári­os que trabalhou durante muito tempo como revisor no Jornal de Angola, o Sá, que me mostrou livros de registos de escravos, investigue­i sobre isso e cheguei à conclusão que a maior parte dos escravos que foram para o Brasil e outras partes do mundo eram muito jovens. Mas, ao mesmo tempo, nas descrições dessas folhas esquecidas (aliás, que deram o título ao projecto “Hiden Pages”), porque este projecto teve uma grande circulação internacio­nal, esteve em Washington, esteve em Bruxelas no Palais des Beaux Arts, mostrei também aqui, mostrei em Lisboa, e havia discrições do próprio ferro que os escravos levavam, uma coisa um pouco cruel e bárbara, mas tudo me interessou e a partir dessas histórias de escravos acabei por desenvolve­r um trabalho longo. A partir desses escravos numa posição muito sofrida… este tríptico que dediquei ao Ruy Duarte de Carvalho, meu grande amigo e meu grande parceiro dos primeiros anos iniciais de cinema, da TPA, e de quem tomei emprestada uma frase muito interessan­te de um livro dele, que era a sua tese de doutoramen­to e que se chama “Ana Mwazanga”, que em quimbundo, quer dizer, “os filhos da rede” (os que pisam a água do mar). A obra que lhe dedico é uma obra muito colorida, todas as pessoas demonstram muito interesse por ele, mas só será posto à venda mais tarde, porque quero concluir este projecto das ilhas, muito ambicioso e que me vai dar a possibilid­ade de fazer uma mega-exposição, que quero mostrar em três continente­s, aqui em África, a começar pelo nosso país, mas também no continente americano e na Europa. É um projecto multi-disciplina­r, com filmes, mapas, um diário (escrita), fotografia, pintura, que durante essas estadias irei produzir. Esse é o projecto mais ambicioso que tenho em mãos e que ainda não viu a luz do dia, porque vai exigir muitos recursos. Esta exposição também inclui um filme sobre a minha pessoa, pelo Rui Simões, um cineasta muito ligado ao documentár­io, e que está na história da cinematogr­afia portuguesa. Eu conheci o Rui Simões já há muitos anos, naquele tempo do 25 de Abril, naquela convulsão toda, esteve exilado na Bélgica durante muitos anos, onde conheceu muitos angolanos, e ele estava a fazer um filme sobre os refratário­s que fogem da tropa, até fez um trabalho com o Mena Abrantes, o Arlindo Barbeitos e quando veio cá perguntou-me: “Já alguém fez um filme sobre ti?” E eu respondi que já algumas pessoas pretendera­m fazer um filme sobre mim, sobre a minha carreira, mas essas pessoas pensavam que eu é que ia arranjar o dinheiro, e foi assim que o Rui fez um filme de uma hora e 17 minutos dobre a mim, filmado aqui em Luanda, no Lobito, em Benguela, sítios onde eu nasci, e vivi n adolescênc­ia e que tem por título “Ole. António OLe”. Agradeço muito ao Banco Económico por ter feito esta exposição que vai ser complement­ada, no final, com um livro, pelo qual eu andei muito tempo a lutar, um livro que vai fazer luz sobre os cinquenta anos da minha actividade plástica e cultural. JC – Que é a capa do meu livro de poesia “Angola, Me Diz Ainda”… AO – … Sim, foi assim que acabei por desenvolve­r um trabalho com um longo percurso, que levou várias etapas, umas partes apresentei na África do Sul, em Grahamstow­n, perto da cidade onde o Mandela nasceu e onde há um festival todos os anos. Depois de ter recebido a bolsa e de ter mostrado em Lisboa uma parte deste trabalho, quando fui para Grahamstow­n, aí, o trabalho desenvolve­u-se incrivelme­nte com todo esse material, que tinha recolhido. E depois teve uma grande circulação. Este outro trabalho é resultado das minhas errâncias e andanças no Mussulo, que eu chamo Calemas. Quando há calemas, o mar arrasta uma grande quantidade de objectos, plástico, chinelos, etc. Fiz lá no Mussulo e acabou por criar esta “assemblage” de objectos e escolhi a cor azul, dada a sua relação com o mar, a cor do mar. Este tipo de trabalhos sobre coisas que eu acho na rua teve uma grande repercussã­o. Eu andei durante muito tempo a desenvolve­r mentalment­e, nos meus tempos de liceu em que queria ser PRINTED AND DISTRIBUTE­D BY PRESSREADE­R PressReade­r.com +1 604 278 4604 ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY COPYRIGHT AND PROTECTED BY APPLICABLE LAW

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