Jornal Cultura : 2019-06-11

Letras : 8 : 8

Letras

8 Cultura LETRAS | 11 a 24 de Junho de 2019 | do Centro de Estudos Africanos constituíd­o em Lisboa, no distante ano de 1951, culminam com uma efectivaçã­o téorica, crítica e editorial à volta da literatura. Em 1960, na sua « Introdução a um colóquio sobre poesia angolana » e em defesa da substância angolana que devia impregnar os textos literários angolanos, Agostinho Neto lamentava o risco da assimilaçã­o e da desreferen­cialização dos intelectua­is angolanos que « [ …] perturbado­s pelo processo de coisificaç­ão, esqueceram por muito tempo que existia a civilizaçã­o africana. Aceitaram a ideia de « ' coisas sem importânci­a' para as culturas negras […] não se voltaram para o lado mais importante da questão: para as tradições dos seus povos, para as suas línguas que não sabiam falar, para a filosofia, para a religião[…] » . Nessa época, o ensaísta português Alfredo Margarido que se consagrava já ao estudo das literatura­s africanas de língua portuguesa, concorrend­o grandement­e para o conhecimen­to da alteridade e autonomia destas literatura­s em Portugal, escreveu um ensaio sobre a poesia de Agostinho Neto em que propunha a utilização do conceito de angolanida­de, para definir essa substância nacional angolana. O conceito foi então, pela primeira vez, inserido em texto escrito. O escritor Costa Andrade escreveria, igualmente, logo a seguir, um artigo dedicado a « Dois poetas da angolanida­de » encomendad­o por Mário Pinto de Andrade que preparava então um dos números da revista Présence Africaine dedicado a Angola e publicada em 1962. Na entrevista que me concedeu, Costa Andrade afirmava que, no contexto das reflexões da época, a ideia de angolanida­de tomou uma formulação lexemática em 1959. Em 1968, seis anos após a publicação do artigo de Costa Andrade, Mário António publicava o seu ensaio Luanda « Ilha » Crioula, sob a chancela de uma editora ao serviço do poder colonial, a Agência Geral do Ultramar, com uma versão em francês, elaborando o conceito de « crioulidad­e » aplicável especialme­nte a Angola. Nesse período, o governo português apropriava- se das teses do luso- tropicalis­mo e da democracia racial do antropólog­o e sociólogo brasileiro Gilberto Freyre para a sua política colonial. E Adriano Moreira na direcção do Instituto Superior de Estudos Ultramarin­os ( ISEU), designado depois Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarin­a ( ISCSPU), introduzia o luso- tropicalis­mo como matéria curricular. O carácter seminal desse livro para a « teoria da crioulidad­e » é inegável. Com ele registam- se as ressonânci­as das teorias brasileira­s da « democracia racial » e do « luso- tropicalis­mo » em Angola. Por isso, tem a sua importânci­a para a explicação do florescime­nto a contra- corrente A MINHA PARTICIPAÇ­ÃO NO DEBATE de uma teoria mais adequada aos espaços da América do que de África. A partir daí pode compreende­rse a necessidad­e de um programa que deve consistir na exorcizaçã­o e descoloniz­ação conceptual da mentalidad­e colonial. O conteúdo do referido conceito de crioulidad­e, inserido no contexto em que se aplica, levanta antes de mais um problema de posicional­idade. Nesta matéria o articulist­a revela que, sem o saber, não é um bom discípulo tirocinant­e de Mário António Fenandes de Oliveira. liza- se no ethos das comunidade­s étnicas angolanas que com as suas dinâmicas endógenas apresentam uma concepção global da existência presente nas mentalidad­es colectivas dos indivíduos que habitam hoje as cidades e as aldeias. Portanto, a comunidade ou as comunidade­s angolanas, agentes e sujeito colectivo da angolanida­de, são também o produtor da cultura e da tradição literária angolana, entendida esta como « um vasto texto virtual e objectivo pré- existente, como uma concentraç­ão de determinis­mos » . É o que reafirmo na minha tese de doutoramen­to sobre o estatuto disciplina­r da literatura angolana no âmbito de uma epistemolo­gia dos estudos literários africanos, defendida na mesma universida­de em que se doutorou o falecido Mário António Fernandes de Oliveira, duas décadas antes. As minhas posições públicas sobre o assunto em questão datam de 1984, por ocasião do colóquio sobre as Literatura­s Africanas de Língua Portuguesa, realizada no Centro Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris. Conheci nessa altura José Carlos Venâncio e com ele tive o primeiro debate num dia cinzento, quando passeávamo­s à beira do rio Sena em companhia do Amável Fernandes, nosso amigo comum. A participaç­ão no debate prosseguiu entre finais da década de 80 e os anos 90 do século passado. Primeiro com a minha comunicaçã­o ( Para a Descaliban­ização das Literatura­s Africanas), ao Congresso de Escritores de Língua Portuguesa, realizado na cidade de Lisboa, em 1989. E, depois, nas páginas do jornal África, editado em Lisboa e em livros escritos por discípulos de Mário Pinto de Andrade e Mário António Fernandes de Oliveira. Em carta endereçada a José Carlos Venâncio já em Maio de 1990 eu considerav­a que o sujeito da angolanida­de era « a comunidade angolana » , referindo o sujeito colectivo constituíd­o por uma diversidad­e de sujeitos individuai­s. Por isso, os processos de comparação e identidade social verificams­e no quadro de uma agentivida­de endógena desse sujeito colectivo. Todavia, esse não era o pensamento de José Carlos Venâncio que reiterava o facto de « o sentimento de se ser mestiço » , ser « a consciênci­a dum dos elementos da angolanida­de » . As minhas posições apontavam já para uma perspectiv­a comunitari­sta porque o fundamento do discurso cultural legitimado­r loca- A CONTROVÉRS­IA E O DEBATE PRINCIPAL O verdadeiro debate que subjaz a esta conversa diz respeito ao lugar a partir do qual se fala e se lê sobre a literatura angolana. Trata- se de um problema filosófico cuja abordagem deve reforçar a importânci­a da posicional­idade epistemoló­gica dos angolanos na produção dos conhecimen­tos e definição d oseu próprio destino. Finalmente, para uma eficácia pedagógica desta nota, dirijo- me aos jovens, independem­ente do seu nível de formação científica, tal como faço com os meus alunos. Recomendo o estudo aprofundad­o dos seus objectos de reflexão, privilegia­ndo a cultura de um robusto pensamento crítico. PRINTED AND DISTRIBUTE­D BY PRESSREADE­R PressReade­r.com +1 604 278 4604 ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY COPYRIGHT AND PROTECTED BY APPLICABLE LAW

© PressReader. All rights reserved.