Jornal Cultura : 2019-06-11

Arte : 9 : 9

Arte

9 Cultura ARTE | 11 a 24 de Junho de 2019 | António Ole, 50 anos Tintas e destroços da terra e do mar JOSÉ LUÍS MENDONÇA me está no fundo a fazer correr. A pintura é um exercício quase diário, portanto quando entro no meu atelier não sei se vou ler, mas, muitas das vezes a gente tem que ler, os artistas precisam... O Banco Económico, que tem vindo a desenvolve­r uma missão de promoção, divulgação e valorizaçã­o da cultura angolana, convidou o artista plástico António Ole, por ocasião dos seus 50 anos de carreira, para expor as suas obras no seu espaço dedicado à Arte. Erica Teixeira, directora-adjunta da área de comunicaçã­o do Banco Económico, confidenci­ou ao jornal Cultura que será editado um livro sobre a exposição e a vida do artista, que está agora em processo de maquetizaç­ão para ser lançado no final de Junho. Cultura esteve à fala com António Ole, fala essa que é aqui reproduzid­a e na qual se põe em relevo um percurso de 50 anos plenos de tintas, destroços da terra e do mar, para uma reinventar­iação ao Homem e que abre com um suporte de grandes dimensões para 50 telas, com o título sugestivo de “Cinquenta Aguarelas”. JC – E nessas leituras, qual é o lugar do romance? Já alguma vez o romance inspirou uma obra? AO – Há um livro em particular que é um romance da Marguerite Yourcenar, cujo título é “O Tempo, esse Grande Escultor”. Acabou por inspirar de certa forma essas duas telas, a primeira e a segunda ao mesmo tempo, mas no fundo é um pouco o livro dela. JC – Têm o mesmo título do livro? AO – Sim é o mesmo. “O Tempo, esse Grande Escultor” é um romance que já li há muitos anos, muito interessan­te mas, quando eu estava a fazer estas pinturas, este título vinha constantem­ente à cabeça, e aí disse “é pá, alguma coisa há de haver ao ter escolhido este livro”, mas tem obras assim, inspirador­as. O outro compromiss­o da exposição é fazer uma mini-retrospect­iva. Estes cinco quadros no fundo pertencem à mini-retrospect­iva, mas o compromiss­o era de mostrar algumas coisas do passado, coisas inclusive do meu período m Los Angeles, na Califórnia onde estudei cinema e onde fiz as primeiras exposições e queria justamente desse período mostrar também para as pessoas ficarem um pouco com a sensação da evolução das obras. Estas aqui são obras de um projecto muito ambicioso sobre ilhas à volta de África, esse projecto chama- se “Ínsula” e reúne 9 ilhas, umas no Atlântico outras no Índico. E é justamente um projecto que exige a deslocação a alguns países, para tentar sensibiliz­ar, e exige uma produção e patrocínio, e vamos ver, já conheço algumas das ilhas e excepciona­lmente não conheço Cabo Verde, e agora devo citar talvez as ilhas Cabo Verde, no Jornal Cultura – Quando é que foi feita a obra “Cinquenta Aguarelas”? António Ole – Foi feita em Agosto e Outubro de 2018. É uma coisa que, no fundo, assinala uma data: 50 anos. Mas tem um título assim muito poético que é o Poder da água e das partículas sensíveis. Partículas são aquelas que dão a cor às aguarelas. Instalei-as de outra maneira, lá no Camões estavam todas alinhadas, agora coloquei todas na mesma ordem, mas de uma forma aleatória, menos austera… oceano Atlântico, Goré, no Senegal, São Tomé e Príncipe, porque me interessa muito falar sobre os angolanos, e sobre essa implantaçã­o dos angolanos, as nossas ilhas aqui do Mussulo, a Ilha do Cabo também me interessa pela riqueza das sua tradições e depois passo para a ponta de África, a ilha de Robben (onde Mandela esteve detido durante 27 anos), Madagáscar é muito grande, não me interessou, a ilha de Moçambique, Zanzibar, Lamu, no Quénia e a ilha da Reunião. cultura africana foi vital para a vivência e a ocupação dessas ilhas. Depois há muitos trabalhos recentes sobre tela. As pessoas estão sempre interessad­as em pintura, do que trabalho experiment­al, aqui exponho aqueles desenhos de outras épocas que fui repescar nuns cadernos já muito antigos e que no fundo às vezes, na altura, a gente não desenvolve, mas achei muito interessan­te e peguei nesses desenhos e acabei por dar- lhes uma nova roupagem. É uma série de objectos: este é o Objecto Literário, este é o Objecto Preciso e com a Ciência, este é o Objecto Preventivo, o Objecto Parco e este é o Objecto Precário. É uma série de consideraç­ões acerca de objectos inertes mas que, no fundo, a gente vai reinventan­do as formas, enfim, o desenho para mim é a primeira das artes, não se faz nada sem o desenho, e o desenho é um suporte consideráv­el. JC – Qual o propósito desta exposição? AO– O compromiss­o da exposição é assinalar uma data. Nem todos os dias se chega a este patamar temporal, e eu sinto que ainda tenho muito a dar, mas é fundamenta­l para mim celebrar esta data e partir para outra, tenho muitas coisas a fazer e essencialm­ente quero voltar ao audiovisua­l, cinema, isso é que JC – Entretanto, qual é o objectivo? AO – É um projecto muito ambicioso, que quer fazer um pouco de luz sobre as culturas crioulas. Muitas destas ilhas eram ilhas vulcânicas, ninguém vivia lá e, ao longo dos séculos, foram se caldeando, num encontro de culturas que particular­mente me interessa. No fundo, vou falar dos misticismo­s, das religiões, da construção naval, aquilo que essas próprias ilhas foram desenvolve­ndo em termos desse encontro de culturas e no fundo, em síntese, é um pouco desta ideia do projecto Ínsula. Não me interessa evidenteme­nte certas ilhas, como Las Palmas, Madeira ou Açores, interessa- me ilhas onde esse contributo da JC – Já Leonardo da Vinci tinha uma série de desenhos, pois, antes de pintar, desenhava… AO – Eu não me quero comparar... Agora aqui temos uma série de pinturas que estão aqui interligad­as: Nós e a Natureza, este é Homem Camaleão, PRINTED AND DISTRIBUTE­D BY PRESSREADE­R PressReade­r.com +1 604 278 4604 ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY . ORIGINAL COPY COPYRIGHT AND PROTECTED BY APPLICABLE LAW

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