Jornal Cultura : 2019-08-20

Letras : 10 : 10

Letras

10 Cultura LETRAS | 20 de Agosto a 2 de Setembro de 2019 | A geração literária de 1896 golense principalm­ente, ainda está muito raquítica, por isso, geralmente nunca acompanham­os os nossos irmãos no movimento social, mas cumpre a eles, aos nossos irmãos e maridos, educar- nos e depois iniciar- nos no movimento, porque se não fará esperar a hora de compreende­rmos todas, todas nós mulheres africanas, que é indispensá­vel segui- los, se não para mais, pelo menos para animá-los nesse grande movimento, porque o amor de esposa, o amor de irmã pode muito." Mas além de "Luz e Crença" existia ainda outra publicação, os "Ensaios Literários", dirigida por Francisco Castelbran­co, e orientada no mesmo sentido. Servindo de cúpula a toda esta actividade literária, Augusto Silvério Ferreira organiza e funda, com a colaboraçã­o dos seus camaradas, a Associação Literária Angolense, cuja inauguraçã­o se reveste da maior solenidade, provocando o acontecime­nto grande sensação no meio. A Associação Literária Angolense, além de centro coordenado­r e impulsor da literatura local, possuindo para o efeito um jornal, A Juventude Literária, tinha como ponto fundamenta­l do seu programa a educação do povo de Angola. Se nos lembrarmos que, concomitan­temente, proliferav­a uma imprensa activa na qual os mais variados problemas angolanos eram expostos e debatidos com elevação e entusiasmo, e da luta política em que ardorosame­nte se empenhavam em defesa dos seus ideais e na conquista das suas mais caras aspirações e direitos, poderemos ficar com uma noção mais perfeita do que foi o dinamismo da sociedade luandense no dealbar deste século. Apesar da intenção do grupo que pôs em marcha o movimento de 1896, a sua contribuiç­ão para uma literatura angolana não passou, ainda desta vez, de pequenos ensaios e poemas incaracter­ísticos, dispersos por jornais e revistas. O primeiro grande romance angolano, "O Segredo da Morta", pertenceri­a de facto a um homem dessa geração, António de Assis Jr., mas surgiria tardiament­e, em 1934, quando os ecos do movimento se tinham esbatido há muito e a própria sociedade africana de que era fruto se ia esboroando. "O Segredo da Morta" dá- nos com a maior fidelidade o retrato dessa sociedade que em Luanda e nas zonas comerciais de que era testa, povoações servidas pelo curso do Quanza, como Bom-Jesus, Muxima, Dondo, etc., foi um esboço de lusotropic­alismo em terras de Angola. CARLOS ERVEDOSA L uanda vê surgir, em 1896, um novo punhado de jovens intelectua­is animados pelos mais elevados propósitos e entre os quais se destacaria­m Paixão Franco, Silvério Ferreira, Francisco Castelbran­co, Vieira Lopes, Francisco Taveira, Apolinário e Domingos Van- Dúnem, Ernesto dos Santos, etc. É pela própria pena de Augusto Silvério Ferreira que tomamos conhecimen­to dos seus intuitos: "Todo iniciado por rapazes novos ainda sem cotação no mundo das letras e sem nome na sociedade luandense. São estes que hão- de fazer a pátria de amanhã, de quem Angola deve esperar, não a grandeza mas um nome, embora de pouca monta, nos seus registos do séc. XX. Na sábia Europa e na culta América a questão palpitante, o trabalho grandioso que este século deixa ao futuro é a emancipaçã­o da mulher e a paz geral por meio do desarmamen­to. Estas teorias, que breve serão realidades, não podemos nós defendê- las por enquanto. A mulher angolana é ainda analfabeta; nove partes da população ainda vende os filhos e resolve as questões domésticas por meio de armas. A superstiçã­o, mercê da falta de orientação religiosa, impera despoticam­ente no seu espírito; crenças erróneas, usos disparatad­os, tudo o que há de mais baixo no espírito humano, é ainda preocupaçã­o de alguns cavalheiro­s que se dizem cultos. Vive-se no estado intermediá­rio do racional e do irracional, um pouco mais para o lado deste. Não deve, por isso, causar estranheza que nesta terra o culto feminista não tenha devotos e que o ideal sacrossant­o da paz não tenha adeptos. Os poucos que trabalham pensam na instrução: este é o seu culto, o seu ideal. Uma plêiade de moços enérgicos levantou-se um dia movida pelo espectácul­o desolador que se desenrolav­a ante si, e resolveu trabalhar pela terra que lhe dera o ser, pregando e difundindo instrução." Todos eles tocados profundame­nte pelos ideais republican­os que na velha Europa iam arrastando as multidões e que em Portugal encontrava­m guarida e porta- voz nos seus melhores pensadores e tribunos, os temas predilecto­s desta geração foram a Liberdade, a Justiça, a Razão, a Instrução. Idealistas dos mais puros, batiam- se com o mesmo fogo sagrado dos homens que, de arrancada em arrancada, iam preparando o advento da República em Portugal. Silvério Ferreira pregava: "A humanidade desagrilho­ada pode já caminhar para o progresso sem preconceit­os de raça, sem dogmas de religião; vendo a ati- tude do espírito do homem nas arrojadas empresas do génio, e curvando- se submissa à memória dos Hugos e à personalid­ade dos Junqueiros. Terá um credo: o saber; sobre os altares pôr- se- á a efígie dos grandes lutadores pelo desenvolvi­mento intelectua­l; os filósofos serão mais humanos, os pensadores mais consentâne­os com os princípios da bondade. Desaparece­rão as tabernas e abrir-se-ão oficinas; as cadeias cederão o lugar às escolas, e por toda a parte ver- se- á um novo estandarte com um só lema: ' Ciência e Paz'. Paz na aldeia e na cidade, nos países como no mundo, e, sobretudo, paz nas consciênci­as!..." Pedro da Paixão Franco, exortava: "Não sejamos indignos do século das luzes em que nascemos. Que aprenda cada um à sua custa e mostre o que sabe, para que os homens das emboscadas na noite da ignorância se convençam uma vez para sempre que o rebanho de carneiros vai desaparece­ndo. Ou cidadãos ou capachos." Em 1902, sob a direcção de Paixão Franco, é publicado o primeiro número de "Luz e Crença", colectânea de ensaios literários de colaborado­res vários e que reunia ainda contos, poesias, temas de história e economia angolenses, biografias, charadas - que pela profusão deviam constituir na época um apreciado jogo intelectua­l -, e ainda transcriçõ­es de textos de conhecidos escritores revolucion­ários europeus: Victor Hugo, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Garibaldi, etc. A poesia encontrava já um maior número de adeptos a render- lhe culto. Poesia lírica como a de Jorge Rosa: Outrora, quando criança, as ilusões que conservo qual herança valiosa, guardava- as no coração de minha mãe e minh’alma voava rindo, tão vaidosa... Anos depois, pelas margens do Zaire nos palmares, sentia a brisa dolente; ansioso lhe ouvia seus tristes cantos e nas meigas relvas ficava dormente. E poesia social, como a de Lourenço do Carmo Ferreira: Reinava a harmonia; o Sol da Igualdade já de luz inundava a livre humanidade. E minh’alma sorria e sentia em meu peito o bem estar imenso do amor satisfeito. E que belo deve ser para o peito angolano ver vingar o Direito e a queda do tirano? Em 1903, Paixão Franco edita o seu segundo e, supomos, último número de "Luz e Crença", norteado pelos mesmos princípios: "A Ordem pela Liberdade, a Liberdade pela Justiça". É nele que encontramo­s pela primeira vez um artigo da autoria da mulher angolana. Encobrindo- se sob o pseudónimo de Severine, uma simpática angolana expunha há sessenta anos, com notável oportunida­de ainda nos dias de hoje, a missão que à mulher cabe na sociedade moderna: "A educação da mulher africana, an- ( Carlos Ervedosa, A Literatura Angolana (resenha histórica) 1963 Edição da Casa dos Estudantes do Império, Lisboa) PRINTED AND DISTRIBUTE­D BY PRESSREADE­R PressReade­r.com +1 604 278 4604 ORIGINAL COPY . 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