A que­da do cão ci­da­dão

Jornal Cultura - - BARRA DO KWANZA - FRANCISCO NE­TO

OKa­ma­tum­bo do lu­xu­o­so ga­bi­ne­te do 10º an­dar da Co­man­dan­te Va­ló­dia mos­trou­me que es­ta­va ain­da na ou­tra era. Re­ce­beu-me co­mo se fos­se um cão. Na­que­le dia, achei-me ti­ri­tan­te su­bi­ta­men­te. Da ca­be­ça aos pés, meu cor­po fo­ra ma­re­a­do por uma rai­va sem me­di­da. Ele, pen­san­do que era o cli­ma fres­qui­nho do seu lu­xu­o­so ga­bi­ne­te que me dei­xa­va tré­mu­lo, pe­gou no co­man­do do ar con­di­ci­o­na­do e au­men­tou a tem­pe­ra­tu­ra.

Ac­to con­tí­nuo, vol­tou a vo­mi­tar­me to­da a pe­ço­nha que ti­nha no seu cor­po adi­po­so. A mi­nha rai­va cres­ceu. Sen­ti von­ta­de de o de­go­lar, lan­çar a sua gor­da ca­be­ça ja­ne­la abai­xo e, por úl­ti­mo, sair à rua com as mãos su­jas do seu su­jo san­gue e gri­tar pa­ra to­dos os can­tos:

- Es­te homem es­ta­va pre­so na­que­la era!!! Que­ria hu­mi­lhar-me, mas aca­bou hu­mi­lha­do nas mi­nhas mãos!!...

Fin­do o seu des­pre­zí­vel vó­mi­to, aban­do­nei o seu ga­bi­ne­te. Meu cor­po ain­da fre­mia. Mi­nha ca­be­ça ten­ta­va en­con­trar jus­ti ica­ção pa­ra aque­le com­por­ta­men­to so­ez do Ka­ma­tum­bo. “Em ple­no tem­po no­vo?!” – In­da­ga­va-me. Na rua, as­sus­tei ao ver o seu ros­to gor­do na ja­ne­la.

- Vol­ta aqui na se­gun­da-fei­ra, sem fal­ta!!! – Gri­tou-me e fe­chou a ja­ne­la.

Olhei à mi­nha vol­ta: a rua es­ta­va en­xa­me­a­da de gen­te. Na es­tra­da, os car­ros se­gui­am ve­lo­zes. De re­pen­te, ima­gi­nei na al­ga­zar­ra que se­ria ca­so eu de­go­las­se o Ka­ma­tum­bo e lan­ças­se a sua ca­be­ça gor­da, que cer­ta­men­te é de­vo­lu­ta, à rua. De­cer­to to­das aque­las pes­so­as fu­gi­ri­am em de­ban­da­da. Uma bu­lha de ver­da­de.

No tá­xi, o co­bra­dor per­gun­tou-me se es­ta­va do­en­te, pois ain­da tre­mia. An­tes de lhe res­pon­der, ti­rou uma lâ­mi­na de com­pri­mi­dos Pa­ra­ce­ta­mol, uma pe­que­na gar­ra­fa de água e es­ten­deu-mas. Eu dis­se que não es­ta­va do­en­te. Es­ta­va ner­vo­so por cau­sa de um Ka­ma­tum­bo que ain­da con­ti­nu­a­va ato­la­do na­que­le tem­po.

O co­bra­dor sor­riu.

- Es­tes de­vem apa­nhar pon­ta­pés do ra­bo pa­ra aban­do­na­rem as ca­dei­ras!... Ele é gor­do, né?! – In­da­gou-me o co­bra­dor.

- Já vis­te ini­nhos nes­tes lu­ga­res?! – Re­tru­quei.

O co­bra­dor vol­tou a sor­rir. Pa­ra meu es­pan­to, o ri­so de­le, que era so­no­ro, acom­pa­nhou-nos até ao tér­mi­no. Não co­brou al­guém. Eu, ci­en­te de que es­ta­va num tem­po no­vo, ti­rei o di­nhei­ro pa­ra lhe pa­gar. As­sim que lhe es­ten­di a mão, ele fe­chou a por­ta do Hi­a­ce e o mo­to­ris­ta lo­go ar­ran­cou. O co­bra­dor, sem­pre sor­ri­den­te, le­vou a mão di­rei­ta à tes­ta. Ba­teu-me a pa­la.

En­co­lhi os om­bros. Na ca­cho­la, me­ti in­da­ga­ção: “se­rá que no no­vo tem­po se viaja sem pa­gar?!”. Se­gui à ca­sa. Che­ga­do, a tre­mu­ra, que já ha­via aban­do­na­do o meu cor­po, vol­tou. Sen­tei­me. Co­me­cei a su­ar. Tre­mia e su­a­va. Tre­mis­su­a­va bué. As rou­pas que me co­bri­am, de tão mo­lha­das co­mo ica­ram, eu pa­re­cia es­tar de­bai­xo de um chu­vei­ro. Nos sa­pa­tos, os meus pés na­da­vam.

Le­van­tei-me. Com pas­sos va­ga­ro­sos, di­ri­gi-me ao quar­to de ba­nho. Ba­nhei-me. Fin­do, dei­xei-me es­tar sen­ta­do na sa­ni­ta, em pe­lo­te. Vol­tei a pen­sar no Ka­ma­tum­bo. A rai­va vol­tou a co­man­dar-me, mas já não tre­mia. Co­lei as du­as mãos na ca­be­ça. Ma­gi­ca­va. De brus­co, uma voz for­te eco­ou:

- Tu tens po­der atá­vi­co. Tu és o as­tu­to Xi­ku dya Ngu­xi da san­za­la de Iná­cio. Não te dei­xes do­brar por aque­le ver­me ig­nó­bil. Usa o teu po­der. Usa o teu fei­ti­ço. Fei­ti­ço não se gu­ar­da!!!

Es­tar­re­ci-me. Lam­pei­ro, olhei à vol­ta. Eu es­ta­va so­zi­nho.

- Ca­ra­ças!... O Ka­ma­tum­bo es­tá a dei­xar-me ma­luc…

Sem ter­mi­nar de fa­lar, le­van­tei-me com cor­ri­da nos pés. Na sa­la, es­cor­re­guei no char­co dei­xa­do pe­lo meu su­or. O ba­que da mi­nha que­da foi gran­di­o­so. Cai de costas, ba­ten­do com a ca­be­ça no du­ro chão. Apa­guei. Quan­do des­per­tei, com as­som­bro des­co­bri que es­ta­va na ma­nhã da se­gun­da-fei­ra, o dia de vol­tar à Co­man­dan­te Va­ló­dia, pa­ra en­fren­tar o Ka­ma­tum­bo. Es­ta­va atra­sa­do.

Ao di­ri­gir-me ao quar­to de ba­nho, lem­brei-me da­que­la voz mis­te­ri­o­sa: ra­pi­da­men­te, cam­bi­ei a ro­ta dos pés. Fui ao quar­to. Ves­ti-me. Saí. No tá­xi em que su­bi, en­con­trei silêncio tu­mu­lar. As­sim que me sen­tei, meu estô­ma­go cor­reu com o silêncio. Emi­tiu ruí­do al­tís­so­no. Qual gai­a­to fa­mé­li­co, cla­ma­va por co­mi­da. Ao meu ros­to di­ri­giu-se o olhar de to­dos os pas­sa­gei­ros, in­clu­si­ve o do mo­to­ris­ta, que pas­sa­ra a con­du­zir com o ros­to vi­ra­do pa­ra trás. A ver­go­nha pos­suiu-me. Fe­chei os olhos. Le­vei as du­as mãos ao ros­to.

- Meu se­nhor, põe-te fo­ra, pá!! En­tão, pen­sas que es­tás on­de?! Ba­ru­lhar as­sim num tá­xi dos no­vos tem­pos?! – Ex­pul­sou-me o co­bra­dor, um homem cul­to, cu­jo cor­te de ca­be­lo era cheio e a bar­ba bem apa­ra­da. Tra­ja­va uma fa­ti­o­ta ama­re­la.

Ape­a­do, pe­tri iquei-me. Fal­ta­ram­me as for­ças pa­ra an­dar. A ver­go­nha que me co­man­da­va agi­gan­ta­ra-se. Era mai­or do que eu.

- Seu re­tró­gra­do ba­ru­lhen­to!! – À dis­tân­cia, vo­ze­ou-me o pas­sa­gei­ro sen­ta­do no ban­co de fren­te. O Hi­a­ce já es­ta­va dis­tan­te. Seu ros­to era ira­cun­do.

De­sa­pa­re­ci­do o Hi­a­ce, lem­brei-me da voz mis­te­ri­o­sa. De­se­jei ser um bru­xo pa­ra eli­mi­nar aque­la ver­go­nha que me avas­sa­la­va. Num sú­bi­to, a co­ra­gem do meu avô do­mou-me. A ver­go­nha fu­giu de mim com gran­de ber­ri­da. Re­vi­go­ra­do, pus-me a an­dar. Na Co­man­dan­te Va­ló­dia, en­con­trei o fre­ne­si con­su­e­to a rei­nar. A rua es­ta­va abar­ro­ta­da de pes­so­as. Umas eram pas­san­tes, ou­tras con­ver­sa­vam sor­ri­den­tes. Ha­via ain­da ou­tras tan­tas que fa­zi­am de­la es­cri­tó­rio de tra­ba­lho.

“Ho­je, vão fu­gir. Ho­je mes­mo, a ca­be­ça do Ka­ma­tum­bo vem à rua. Vou de­go­lá-lo. Aque­le ban­da­lho vai ma­cu­lar es­ta rua com o seu san­gue imun­do”. – Pen­sei, pois já es­ta­va mes­mo to­ma­do por gran­de co­ra­gem atá­vi­ca.

No 10º an­dar, tes­to, abri a por­ta do lu­xu­o­so ga­bi­ne­te do Ka­ma­tum­bo

En­co­lhi os om­bros. Na ca­cho­la, me­ti in­da­ga­ção: “se­rá que no no­vo tem­po se viaja sem pa­gar?!”. Se­gui à ca­sa. Che­ga­do, a tre­mu­ra, que já ha­via aban­do­na­do o meu cor­po, vol­tou. Sen­tei-me. Co­me­cei a su­ar. Tre­mia e su­a­va. Tre­mis­su­a­va bué. As rou­pas que me co­bri­am, de tão mo­lha­das co­mo fi­ca­ram, eu pa­re­cia es­tar de­bai­xo de um chu­vei­ro. Nos sa­pa­tos, os meus pés na­da­vam. “

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