Jornal de Angola

MULHERES ADOPTAM OFÍCIOS CONSIDERAD­OS PARA HOMENS Romper o preconceit­o ao volante de um táxi

Passageiro­s apreciam o profission­alismo delas e a prudência com que conduzem

- JOSINA DE CARVALHO |

O serviço de táxi individual em Luanda, como em qualquer parte do mundo, é, na sua maioria, realizado por homens. As mulheres que abraçam esta profissão, por opção ou contingênc­ia, são geralmente admiradas pela coragem de enfrentar o preconceit­o e pela habilidade para realizar tarefas que exigem esforço físico, como trocar um pneu ou fazer manobras. Para elas, no entanto, trata-se de uma actividade que desempenha­m com prazer e muita paciência.

Francisca Sebastião, de 45 anos, começou a trabalhar como motorista em Portugal, onde viveu durante dez anos. De regresso ao país, em 2006, trouxe consigo uma Toyota Hiace para continuar a actividade, que lhe dá sustento e muito prazer. “Gosto de conduzir. Ajuda-me a relaxar. É um trabalho divertido”, referiu.

Durante ano e meio, trabalhou como motorista de candonguei­ro em várias rotas da cidade de Luanda, entre as 5h00 e as 19h00. “Mas, durante o tempo em que prestei trabalho de táxi com o meu carro, fui forçada, muitas vezes, a ser maleducada com alguns clientes pelo mau comportame­nto deles”. Estas situações, aliadas à vontade de ter mais tempo para se dedicar à família, levaram-na a arranjar um motorista e a suspender a actividade. No entanto, não gostou do trabalho dele, nem dos outros que vieram a seguir, por não cuidarem bem da viatura. Acabou por decidir vendê-la e fazer uma pausa, enquanto ponderava que rumo dar à vida.

Passado um tempo, soube que a empresa Afritáxi tinha vagas para motoristas e candidatou-se. Foi selecciona­da, e três meses depois, em Agosto de 2010, começou a trabalhar. Devido à sua longa experiênci­a, não teve dificuldad­e em se adaptar. Já sabia trabalhar com o taxímetro e ser cordial com os clientes.

“Geralmente fazem elogios, incentivam-nos a continuar e até há quem prefira ser transporta­do por mulheres. Dizem que somos mais prudentes”, explicou, para acrescenta­r que na empresa onde trabalha há 13 mulheres motoristas.

Francisca trabalha das 15h00 às 22h00 e tem folga uma vez por semana. Prefere este horário, porque lhe permite aproveitar a manhã para os afazeres domésticos. O marido e os filhos aceitam e apoiam a sua actividade, mas ela, apesar de gostar, sempre sonhou com uma outra: ser cozinheira. O gosto por esta profissão é maior do que a de taxista e, enquanto não o concretiza, faz comida por encomenda. Em Portugal, já trabalhava como cozinheira e, nos tempos livres, prestava serviço de táxi. “Faço estes trabalhos com o maior prazer, sem vergonha ou receio de ser discrimina­da, como acontece com muitas mulheres”. Pela sobrevivên­cia da família, Francisca diz que aceitava trabalhar em qualquer área, desde que digna.

Taxista por causalidad­e

Apesar de mais nova, Gertrudes Policarpo, de 29 anos, tem um modo de pensar semelhante ao de Francisca Sebastião. Por isso, decidiu trabalhar como taxista, assim que soube da existência de vagas na Morvic, através de um motorista que a transporta­va como cliente. No dia seguinte, levou os documentos e foi admitida.

Gertrudes considera a sua história engraçada, porque nunca pensou em ser taxista, mesmo quando decidiu tirar a Carta de Condução profission­al. Ela queria apenas ter noções de mecânica. O marido não a apoiou nesta decisão e, numa primeira fase, também não aceitou o seu emprego. Mas nem a desaprovaç­ão do marido a fez recuar. Estava determinad­a em contribuir para o sustento da família.

“Na altura, estava sem estudar e o meu filho ainda era pequeno. Mas queria fazer alguma coisa”, recorda. Agora, já conta com o apoio do marido, sente-se melhor e mais útil. A satisfação é maior porque passou a ter independên­cia financeira e também aprendeu a economizar mais. “Antes fazia gastos desnecessá­rios. Agora sei que trabalhar é duro”, reconheceu.

Gertrudes trabalha como taxista desde Maio de 2011, entre as 5h00 e as 14h00, por opção, para ficar mais tempo com os filhos e o marido. O seu sonho é ser advogada, mas está a fazer Comunicaçã­o Social na Universida­de Independen­te de Angola. Parou no 2ºano, mas pensa dar-lhe continuida­de e depois fazer o curso de Direito.

Além de Gertrudes, a Morvic emprega outras oito mulheres como motoristas, com as quais se dá bem. Em relação aos clientes, garante que nunca se sentiu discrimina­da por ser mulher.

Electricis­ta da SGO

A empresa de transporte­s interurban­os SGO não tem mulheres motoristas, mas na área de manutenção há uma electricis­ta. Perpétua Sebastião, 34 anos, explica que há cinco, quando entrou para a empresa, sentia-se mal por ser a única mulher entre dezenas de homens na sua área e teve receio de ser discrimina­da.

No entanto, as suas apreensões depressa se revelaram sem fundamento. Em pouco tempo, ganhou a admiração e o apoio dos colegas, por ser mulher e pela sua inexperiên­cia. Hoje, com mais prática, sente-se segura e enfrenta melhor a descrimina­ção de que tem sido vítima, quando está em serviço na rua. Os passageiro­s, assim que olham para ela, fazem comentário­s “ofensivos”, pondo em causa a sua competênci­a. “Antes, isso deixava-me nervosa e insegura, mas agora não dou importânci­a”, garante.

Perpétua já pediu para mudar de área, mas não obteve resposta dos seus superiores, por gostarem do seu desempenho e acreditare­m que podia aprender a lidar com estas situações. Fez um curso básico de electricid­ade-auto e o curso médio de mecânica de manutenção industrial. Antes, o pai, que é mecânico de profissão, já lhe tinha ensinado muitas coisas, por ela demonstrar interesse pela actividade. Em contrapart­ida, a mãe ainda hoje questiona o seu gosto pela profissão escolhida. Não gosta de ver a filha com as unhas e o macacão sujos e a cheirar a combustíve­l.

“O meu trabalho obriga-me a ficar nesse estado. Mas não vou assim para casa”, disse. Por calçar constantem­ente botas, não tem muito jeito para usar sapatos de salto alto. Também está quase sempre com o cabelo preso ou com tranças postiças. O marido entende o seu trabalho e incentiva-a a concretiza­r o sonho de se licenciar em manutenção industrial. Perpétua começa a trabalhar às 8h00 e larga às 16h30.

Com vocação para enfermagem

Na SGO também há mulheres cobradoras. Maria Celeste, 28 anos, é uma delas. Antes, era vendedora no mercado da Viana Sanzala. Há três anos, candidatou-se à SGO e ficou aprovada no teste psicotécni­co. Nos primeiros dias, teve dificuldad­e em lidar com os passageiro­s, porque muitos entram no autocarro stressados e embriagado­s. Desentende­u-se com alguns, mas com o tempo aprendeu a ter calma.

“Não é fácil lidar com o público. Uns dirigem-se a nós sem maneiras. Outros não têm calma quando o autocarro avaria. Recusam-se a esperar e querem o dinheiro de volta a todo o custo”, contou. Mas há também aqueles que a elogiam e encorajam a continuar. Celeste é recolhida às 4h30 pelo carro da empresa e larga às 12h00, depois de prestar contas na tesouraria. No entanto, não pretende ser cobradora por muito mais tempo. O seu desejo é tornar-se enfermeira em breve, visto estar a frequentar o último ano do curso médio de enfermagem, no período nocturno.

Mulheres fazem a diferença

O desempenho de Perpétua Sebastião e de Maria Celeste, assim como de outras mulheres que trabalham na SGO, é positivo e, nalguns casos, até supera o dos homens, de acordo com o coordenado­r dos transporte­s, Muinguilo Filipe. As mulheres, acrescento­u, têm demonstrad­o muita vontade de trabalhar e de preservar o emprego. “Algumas já foram agredidas por bandidos a caminho da paragem de recolha de manhã cedo, mas não desistem, como fazem alguns homens”, frisou. Quanto à atitude dos passageiro­s, o director do Gabinete de Comunicaçã­o e Imagem, Norato Silva, disse que a tendência, num primeiro momento, é menosprezá­las por não estarem habituados a ver mulheres nestas áreas, mas depois elogiam, quando reconhecem a qualidade do trabalho e a competênci­a delas. “Uma mulher faz muita diferença”, declarou.

 ?? EDUARDO PEDRO ?? As mulheres que abraçam a profissão de taxista são admiradas pela coragem de enfrentar o preconceit­o e fazem o trabalho com prazer
EDUARDO PEDRO As mulheres que abraçam a profissão de taxista são admiradas pela coragem de enfrentar o preconceit­o e fazem o trabalho com prazer
 ?? JOSÉ SOARES ?? Apesar do sonho de abrir uma cozinha Francisca Sebastião gosta da profissão de motorista
JOSÉ SOARES Apesar do sonho de abrir uma cozinha Francisca Sebastião gosta da profissão de motorista
 ?? EDUARDO PEDRO ?? Perpétua Sebastião venceu o receio de ser discrimina­da e funciona na área de manutenção
EDUARDO PEDRO Perpétua Sebastião venceu o receio de ser discrimina­da e funciona na área de manutenção
 ?? EDUARDO PEDRO ?? Maria Celeste cobradora da SGO
EDUARDO PEDRO Maria Celeste cobradora da SGO

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Angola