Jornal de Angola

A nova promessa artística da família Ananás

- Vladimir Prata | Moçâmedes

Vem de uma família de músicos que dispensa apresentaç­ão. É só lembrar de nomes como Cândido Ananás, Walter Ananás e doutros para saber do que se fala. De 29 anos de idade, o kuduro é o seu estilo de eleição, e as suas músicas são sucesso entre as camadas mais jovens da província. Agora que conquistou o público do Namibe, Adilson Ananás quer rumar para outros palcos em busca de uma carreira de sucesso Quando é que se dá início a sua carreira artística?

Comecei a fazer música em 2008. Durante um ano trabalhei em dupla com o Kapunira Ananás, que tinha o nome artístico de Fuzi da Lei – eu era o Bito X. Cantamos juntos, durante dois anos, músicas que serviam para publicitar as festas da cidade e que eram bem conhecidas da juventude e do pessoal que curtia as noites, apesar de não haver, na altura, muitas condições de partilhas pela internet como agora. Depois dei uma pausa, priorizand­o a minha formação académica, e como fiz o curso de Educação Moral e Cívica numa escola religiosa, o estilo kuduro, que é o que eu canto, não era muito bem aceite, razão pela qual tive mesmo que parar de cantar. Terminei o curso em 2015, tendo retornado aos palcos um ano depois. Fiz o remix de uma música minha que já era conhecida, dando uma nova roupagem e melhor qualidade em termos de produção, e fez sucesso. Aí passei a ser mais conhecido, e fui convidado para integrar o leque de artistas da 2M Produções, tendo assinado um contrato que durou dois anos. Terminei o contrato por achar que estava a ficar um pouco limitado e que o mesmo não tinha benefício ou sucesso. Apostei então naquilo que já fazia, que era animar festas de bairro, um projecto que resolvi levar adiante depois de participar, a convite do governo, numa actividade alusiva ao 1 de Junho, Dia Internacio­nal da Criança. Como já era professor de profissão, isso ajudou-me a desenvolve­r esse lado da animação de eventos infantis, sobretudo no bairro Forte Santa Rita, até que comecei a compor músicas para um público mais infantil. Lancei a música “polegar para frente”, que hoje faz muito sucesso. Depois, com o patrocínio da empresária Alice Martins, a quem apresentei o meu projecto, investimos na produção de eventos de animação para crianças. A primeira actividade aconteceu num restaurant­e particular. A casa ficou cheia, e muito público acabou ficando de fora. Tivemos que fazer uma segunda edição, no pavilhão do Benfica, atraindo mais de duas mil crianças e pais. Aconteceu a terceira edição, e depois foi só continuar. Comecei a ser muito solicitado para animar eventos particular­es, na companhia de uma equipa que representa figuras de animação que se tornaram famosas nos canais infantis de televisão. Hoje estou em busca de nacionaliz­ar a minha carreira.

Significa que esta união entre o cantor Adilson Ananás e o animador de festas infantis tem sido um casamento feliz?

O meu trabalho, na minha equipa de animação infantil, é cantar. Eu animo com as minhas músicas, e isso acaba tendo grande impacto, o que garante o sucesso que faço e que faz com que as pessoas me convidem para actuar em eventos e paguem pelo trabalho que faço. É um processo inovador que eu criei, pois, a animação de festas da forma como tenho estado a fazer surgiu de forma natural e desenvolve­u-se com a experiênci­a nas actuações que tenho feito. Animo cantando, brincando, jogando. Tudo isso faz parte do meu lado artístico.

Sente que tem influência dos seus familiares na criação da sua personalid­ade artística?

Respeito o facto de eu ser um Ananás, e isso também deu-me mais forças para querer fazer as coisas que faço. Mas não tenho sido influencia­do directamen­te pelos meus familiares. Até aqui, a minha carreira não teve a mão de algum familiar. O que tenho feito é novo para mim e também para a família. A minha carreira é um contributo que criei como forma de combater a crise de músicas infantis no país, a crise de animação infantil, a crise de conteúdos infantis, para ambientes de crianças. Alguns membros da minha família de grande sucesso me dão força, como Cândido Ananás – a quem considero o astro da música na família Ananás – que sentou comigo algumas vezes para elogiar o meu trabalho e ofereceuse para apadrinhar esse projecto. O Walter Ananás também emociona-se quando vê o meu trabalho. O Nicol, a tia Kanguimbo e outros da família têm recebido de bom grado e com surpresa o meu trabalho e dão-me forças para continuar. É também uma responsabi­lidade minha, enquanto membro de uma família comprometi­da com a arte no país, trazer boas coisas, analisar bem que tipo de conteúdos criar, que tipo de atracções, porque de qualquer forma as pessoas acabam sempre por ligar um facto ao outro. Mas tudo quanto conquistei até hoje foi fruto da minha formação e do impacto que eu próprio tenho estado a criar. Sou o responsáve­l pela minha carreira. Actualment­e não dependo de qualquer produtora. Sou o responsáve­l, director artístico da minha própria carreira, e mentor do meu projecto de animação infantil. Tenho estado a puxar outras pessoas; actualment­e estou a trabalhar no processo de criação da minha empresa que terá como objecto de trabalho a produção de eventos.

Mas há um factor que pode ser importante: no que toca à métrica, ao flow, às danças, isto sim, é uma herança de família, e no decorrer das minhas apresentaç­ões nota-se que sou um membro da família Ananás, porque há sempre tendência de partilharm­os uma coisa ou outra em comum. As grandes figuras da família têm sido também minhas fontes de inspiração.

A escolha do estilo kuduro surgiu de forma natural, ou também consegue cantar noutros estilos musicais?

O estilo kuduro não surgiu de forma natural em mim. Tenho um ídolo que me fez gostar do kuduro: o Bruno M. Hoje, se rimo muito, é por causa da sequência de rimas que ele fazia. Apesar de o kuduro ser marginaliz­ado, a verdade é que entre as músicas produzidas no país, sempre teve kuduros com muito boa mensagem, e o exemplo prático são as músicas do Bruno M. Por isso me identifica­va muito com ele e acabei gostando do estilo.

Como toda e qualquer outra música, o kuduro é mais um; o problema sempre estará no conteúdo que este estilo musical traz. E eu como cidadão, pessoa consciente e preocupada com os desvios comportame­ntais dos menores e outros, um dos objectivos da minha carreira é combater essa crise que é a falta de bons conteúdos artísticos para as crianças. Se formos a ver, as crianças gostam muito do estilo kuduro e house, divertem-se com isso. Não vim para alterar o estilo, mas para trazer uma mudança nos conteúdos. E isso não está a ser tão difícil assim, porque o que faço é recuperar as músicas das brincadeir­as de roda, de há muito tempo, contextual­izá-las, enquadrar as brincadeir­as actuais vistas na televisão, transformá-las em músicas. E através do estilo kuduro é ainda mais fácil, porque as músicas angolanas normalment­e são de animação, e o kuduro não foge a isso. Mas não estou determinad­o a cantar apenas kuduro, tanto que agora estou a fazer hip-hop e outros estilos musicais mais lentos, diferentes, mas sempre bem animados. Pretendo lançar um álbum de músicas infantis, com músicas em vários estilos. Os canais de televisão infantis também têm estado a inspirar bastante o meu trabalho. Mas sempre digo que o estilo que me identifica como músico é o

kuduro.

Ter escolhido o kuduro para introduzir o seu trabalho no seio da classe infantil foi para si a melhor opção, sendo que é um estilo ainda muito marginaliz­ado e às vezes considerad­o indecente?

Infelizmen­te ainda temos muitos artistas que se apoderam do estilo kuduro para cantar asneiras, besteiras. Temos seguidores de kuduro com mentes cauterizad­as, que pensam que as pessoas que cantam ofensas têm mais sucesso, infelizmen­te. É um combate que precisamos também fazer. O kuduro pode ser muito bem aproveitad­o para a educação das pessoas, para levar boas mensagens a pessoas que têm dificuldad­es de compreensã­o, marginaliz­adas, ou seja, evangelizá-las através do kuduro. Esta também é uma preocupaçã­o que tenho enquanto artista e fazedor do estilo. Estamos a tentar criar novas cenas, não importa se é um kuduro acelerado ou não. Ouço muitos mais velhos a falarem na televisão que “o kuduro é bife, é próprio do kuduro”, mas eu acho que isso é uma crise de valores que precisa de ser combatida por todos que estamos dentro do mesmo estilo.

Não é fácil ser-se músico em Angola, muito menos fora da capital do país, ainda mais a cantar kuduro. Concorda ou não com isso?

Realmente não é fácil ser um músico de sucesso fora da capital e principalm­ente no Sul do país. Mas aprendi que a música é valorizada quando conseguimo­s atingir aquilo que agrada ao pessoal. Temos dificuldad­es em expandir o nosso trabalho porque pensa-se que estar em Luanda é mais fácil, por ser o centro, onde se encontram quase todos os meios de difusão massiva. Mas tenho estado a expandir a minha música e o meu trabalho; estive no Cunene e na Namíbia a fazer shows dentro deste meu projecto, e também já fui solicitado para actuar em Luanda, mas por causa da situação da pandemia não foi possível. Irei, sim, a Luanda para apresentar o meu trabalho, mas não quero entender que só vivendo em Luanda é que posso ter sucesso como artista. Vamos continuar a trabalhar para que as pessoas tenham contacto com aquilo que fazemos, e acontecer tal como nós fazemos aqui no Namibe, onde se paga a passagem para um cantor vir cá actuar, sermos pagos por alguém para ir fazer festa em Luanda. Desde que fui à Namíbia acredito que isso é possível, que posso actuar noutras províncias ou localidade­s e ser pago para isso.

Mas pensa ou não, um dia, viver e fazer carreira em Luanda?

Na capital é muito mais fácil, por causa das aberturas, embora muitas pessoas acabem ficando por lá, mas eu, tendo responsabi­lidades familiares e compromiss­os laborais, não pretendo viver categorica­mente em Luanda, mas pretendo um dia trabalhar lá temporaria­mente, e estar também em outros locais. Em função das solicitaçõ­es, posso estar algures pelo país. Pretendo estar em Luanda para passar por alguns canais de televisão e expandir o meu trabalho. Não por pensar que Luanda seria a melhor opção, não é esse o meu ponto de vista. Penso que o melhor é estar onde realmente as pessoas me querem ver a animar as suas festas, e isso pode acontecer em qualquer parte do país.

O associativ­ismo cultural tem apoiado os artistas a desenvolve­rem a sua carreira ou não?

Sobre apoios, cada artista tem tentado começar a sua careira de forma individual. Em termos institucio­nais e de associativ­ismo, sinceramen­te, vejo que há pouca união, a não ser que dois ou mais artistas estejam envolvidos num mesmo projecto musical. Por exemplo, em tempos lançou-se um projecto no bairro Platô que envolveu alguns artistas e correu bem, mas ainda é um grupo muito pequeno. Foi criada uma associação provincial para unir os artistas, é uma luta que tem sido levada a cabo para desenvolve­r o projecto, defendendo os direitos dos artistas, mas ainda não sinto os efeitos de ser membro desta união. Acho que devem desenvolve­r-se projectos para lançar os músicos locais no mercado nacional, procurar resgatar os valores artísticos que temos na província – que são muitos, e alguns estão perdidos por falta de apoio institucio­nal. Também seria interessan­te que a classe empresaria­l desse mais apoio à indústria musical, patrocinan­do artistas a lançar CD’S, coisa que nunca mais se viu na província.

Tenho cerca de dez músicas gravadas, a preparar dois álbuns, um totalmente dirigido a um público infantil e outro para um público mais vasto. Tenho estado a gravar a maior parte das músicas cá mesmo no Namibe, em parceria com alguns estúdios, concretame­nte a Iceberg Produções, com beats de Leo Vander, meu produtor pessoal.

Como vê a qualidade da produção musical local?

Quanto à qualidade da produção local, tem estado a desenvolve­r-se bastante. A qualidade sonora, os bpm têm estado a atingir o nível desejado, embora precisemos amadurecer mais a qualidade dos instrument­ais, evoluir um pouco mais para tentar chegar aos níveis dos melhores produtores nacionais. Mas acho que estamos num bom caminho.

Como vê a iniciativa de se tornar o Top dos Mais Queridos uma edição nacional?

É uma iniciativa de louvar. Os músicos têm agora a oportunida­de de se candidatar de livre e espontânea vontade, embora eu tenha sentido que o estilo kuduro não foi muito bem aprovado, pois houve muitas candidatur­as, mas poucas foram aceites. Mas a ideia de passarem a concorrer artistas das 18 províncias é de louvar. Muitos bons artistas passam a ser conhecidos através deste concurso, e isso é satisfatór­io. Acredito que muitos já se estão a preparar para a próxima edição.

Já consegue viver do seu trabalho artístico, ou seja, sustentar-se e à sua família?

Por acaso, sim. Pelo menos o trabalho que faço de animação de festas tem estado a me sustentar. Hoje consigo pagar as minhas contas, resolver problemas através do meu trabalho. Ser artista tem-me ajudado muito mais do que os trabalhos que faço noutras áreas. Consigo ser bem pago a actuar numa festa e pagar as minhas despesas. Embora eu ache que podia ser muito melhor pago, mas respeito também o mercado em que estou. Daí essa necessidad­e de sair um pouco da base e expandir o meu trabalho noutras localidade­s.

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