Ano es­tra­ga­do

Jornal Economia and Finanças - - MUNDO - Pau­lo Alen­car Jor­na­lis­ta e con­sul­tor na área de Co­mu­ni­ca­ção

A eclo­são da pan­de­mia mun­di­al do no­vo coronavíru­s fez-me lem­brar da ane­do­ta em que o ma­ri­do, a pe­di­do da mu­lher, entra nu­ma lo­ja pa­ra comprar ab­sor­ven­te ín­ti­mo. Ao per­ce­ber a opor­tu­ni­da­de, o ven­de­dor in­da­ga, sem es­con­der o sor­ri­so ma­trei­ro: “Já que o fim-de-se­ma­na es­tá es­tra­ga­do, que tal uma pes­ca­ria?”

O que pa­re­ce es­tra­ga­do, em ra­zão da do­en­ça Covid-19, que ata­ca sem dis­cri­mi­na­ção a po­pu­la­ção dos paí­ses de­sen­vol­vi­dos, emer­gen­tes ou sub­de­sen­vol­vi­dos, é o cres­ci­men­to da eco­no­mia mun­di­al nes­te ano.

As pes­so­as es­tão em pânico com o ris­co de con­traí­rem o coronavíru­s e mui­tas de­las, so­bre­tu­do na Itá­lia e Es­pa­nha, mas não só, en­fren­tam a dor de en­ter­rar e cho­rar a per­da de en­tes que­ri­dos. As­sim, as en­gre­na­gens que fa­zem a eco­no­mia funcionar ficam re­le­ga­das a pla­no se­cun­dá­rio.

As po­pu­la­ções das ci­da­des, em mui­tos paí­ses, man­têm-se con­fi­na­das em ca­sa, por de­ter­mi­na- ção das au­to­ri­da­des, co­mo for­ma de im­pe­dir a pro­gres­são do con­tá­gio. Mui­tas ac­ti­vi­da­des fo­ram sim­ples­men­te in­ter­rom­pi­das, se­ja em fá­bri­cas, comércio, es­cri­tó­ri­os ou escolas, sem men­ci­o­nar as restrições pa­ra o trans­por­te de pas­sa­gei­ros por to­das as vi­as.

No Bra­sil, por exem­plo, a in­dús­tria au­to­mo­bi­lís­ti­ca pa­ra­li­sou tem­po­ra­ri­a­men­te as su­as li­nhas de mon­ta­gem, que a ca­da dia des­pe­ja­vam 10 mil veí­cu­los no mer­ca­do, dei­xan­do em ca­sa um con­tin­gen­te de qua­se 100 mil pes­so­as. O sec­tor de pe­ças au­to, que em­pre­ga du­as ve­zes e meia a for­ça de tra­ba­lho au­to­mo­bi­lís­ti­ca, se­gue o mes­mo ca­mi­nho. O receio dos go­ver­nan­tes, é que ou­tros sec­to­res in­ter­rom­pam a pro­du­ção. O go­ver­na­dor João Do­ria, de São Pau­lo, o es­ta­do mais in­dus­tri­a­li­za­do do Bra­sil, ape­lou aos em­pre­sá­ri­os pa­ra man­te­rem as fá­bri­cas em ope­ra­ção, des­de que ob­ser­va­dos os pro­to­co­los de saú­de pa­ra ga­ran­ti­rem a se­gu­ran­ça dos operários. “Se as fá­bri­cas pa­ra­rem, te­re­mos um co­lap­so, não só em São Pau­lo”, afir­mou Do­ria, su­bli­nhan­do a im­por­tân­cia da pro­du­ção in­dus­tri­al pau­lis­ta pa­ra to­do o país.

Se a in­dús­tria não es­tá to­tal­men­te paralisada, os in­ves­ti­men­tos pre­vis­tos co­me­çam a ser adiados. O sec­tor de pa­pel e ce­lu­lo­se, no qual o Bra­sil é bas­tan­te com­pe­ti­ti­vo, pos­ter­gou in­ves­ti­men­tos de pe­lo me­nos 4 mil milhões de dó­la­res na ex­pan­são do parque fa­bril.

No Rio de Ja­nei­ro, a re­trac­ção da eco­no­mia, cau­sa­da pe­lo avan­ço do coronavíru­s e pe­la que­da do pre­ço do petróleo, de­ve sub­trair aos co­fres es­ta­du­ais, es­te ano, um va­lor pró­xi­mo a dois mil milhões de dó­la­res em re­cei­tas fis­cais e “royal­ti­es” so­bre a pro­du­ção de petróleo e gás.

Em en­tre­vis­ta ao jornal Va­lor, o se­cre­tá­rio es­ta­du­al de Fa­zen­da, Luiz Clau­dio R. Car­va­lho, la­men­tou: “Se já tí­nha­mos uma dificuldad­e gi­gan­tes­ca de vol­tar a pa­gar o ser­vi­ço da dí­vi­da com a União em Se­tem­bro, ago­ra há uma im­pos­si­bi­li­da­de ma­te­ri­al de o fazer”.

Di­an­te do im­pac­to da pan­de­mia, o Fundo Mo­ne­tá­rio In­ter­na­ci­o­nal (FMI) pro­jec­ta pa­ra uma recessão glo­bal. “Ao me­nos tão grave quanto a cri­se fi­nan­cei­ra glo­bal (de 2009), se­não pi­or”, ad­ver­tiu es­ta se­ma­na a di­rec­to­ra do Fundo, a búl­ga­ra Kris­ta­li­na Ge­or­gi­e­va, num co­mu­ni­ca­do divulgado após uma con­fe­rên­cia vir­tu­al com os mi­nis­tros das Finanças e pre­si­den­tes de ban­cos cen­trais do G-20, que reú­ne as mai­o­res eco­no­mi­as do pla­ne­ta.

A di­rec­to­ra do FMI in­for­mou, tam­bém, que des­de o iní­cio da cri­se in­ves­ti­do­res re­ti­ra­ram usd 83 mil milhões dos mer­ca­dos emer­gen­tes, a mai­or saí­da de ca­pi­tal já re­gis­ta­da. Ao mes­mo tempo, cer­ca de 80 paí­ses já so­li­ci­ta­ram ajuda.

Ge­or­gi­e­va as­se­gu­rou que o Fundo de Con­ten­ção e Alí­vio de Ca­tás­tro­fes da ins­ti­tui­ção es­tá a ser re­a­bas­te­ci­do, pa­ra au­xi­li­ar os paí­ses mais po­bres, e ga­ran­tiu que o FMI irá usar to­da a sua ca­pa­ci­da­de de em­prés­ti­mo, no va­lor de um bi­lião de dó­la­res, pa­ra mi­ti­gar os efeitos da cri­se.

Eco­no­mis­tas do Gold­man Sa­chs e do Mor­gan Stan­ley acre­di­tam que a pan­de­mia do coronavíru­s irá tra­zer mais pro­ble­mas pa­ra a eco­no­mia do que o es­ti­ma­do ini­ci­al­men­te, com uma que­da acen­tu­a­da da pro­du­ção nos EUA e uma recessão de al­can­ce glo­bal. “A cri­se do coronavíru­s é uma restrição às ac­ti­vi­da­des eco­nó­mi­cas sem pre­ce­den­tes, na his­tó­ria do pós-guer­ra”, afir­mou Jan Hat­zius, eco­no­mis­ta do Gold­man Sa­chs.

Com o PIB dos paí­ses em que­da e com o au­men­to do de­sem­pre­go, os eco­no­mis­tas de am­bos os ban­cos pro­jec­tam uma con­trac­ção da eco­no­mia mun­di­al na or­dem de 1,00 por cen­to em 2020. Se a previsão vier a se con­fir­mar, es­se se­rá um de­clí­nio mai­or do que o ob­ser­va­do em 2009, qu­an­do hou­ve um re­cuo de 0,8 por cen­to. Se­rá, tam­bém, o pri­mei­ro ano de recessão económica des­de a cri­se fi­nan­cei­ra glo­bal da­que­le ano.

Pa­ra 2021, a di­rec­to­ra do FMI dis­se es­pe­rar uma re­cu­pe­ra­ção, se a res­pos­ta pa­ra a cri­se for cor­rec­ta. “Pa­ra che­gar lá, é fun­da­men­tal pri­o­ri­zar a con­ten­ção e o for­ta­le­ci­men­to dos sistemas de saú­de em to­dos os lu­ga­res”, afir­mou Ge­or­gi­e­va.

Nes­ses tem­pos du­ros, qu­an­do tu­do vai mal, a um ci­da­dão pre­o­cu­pa­do não res­ta nem o con­so­lo de aca­tar a su­ges­tão de uma boa pes­ca­ria.

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