Valor Econômico

Medidas contra Jack Ma são pressão sem precedente­s na China

Varejo Conflito é um teste para atitude do governo de Pequim em relação a companhias do setor privado

- Tom Mitchell, Yuan Yang e Ryan McMorrow Financial Times, de Cingapura e Pequim Business · E-commerce · Finance · Jack Ma · China · Adult Swim · Mary J. Blige · Chinese Communist Party · Xi Jinping · Bloomberg L.P. · United States of America · European Union · Beijing · Staatsrat · Indonesia · Joko Widodo · Canada · Justin Trudeau · Italy · Matteo Renzi · foreign affairs ministry · Financial Technology · Communist Party · Deng Xiaoping · Wang Qishan · Chen · Zhong Shanshan · Ministry of Foreign Affairs of the Republic of Korea

Há quatro anos, quando o principal fundo do Ant Group no mercado monetário avançava em alta velocidade na China e atingia o pico de mais de US$ 260 bilhões em ativos sob gestão, muitos bancos estatais chineses e as autoridade­s reguladora­s começaram a incomodar-se. Em uma série de ligações e reuniões com Jack Ma, fundador do Ant Group, executivos de banco e autoridade­s passaram a exigir que o fundo, chamado Yu’E Bao, pisasse no freio.

“O Yu’E Bao estava tirando um monte de dinheiro dos bancos”, disse uma fonte a par das conversas. “Os bancos estavam preocupado­s com o impacto na liquidez e queriam que o Ant tomasse medidas para minimizá-lo. As conversas foram bem tensas.”

No fim das contas, Ma precisou recuar e o Yu’E Bao impôs limites às quantias que as pessoas podiam aplicar no fundo, que investe em ativos de curto prazo. Entre março e dezembro de 2018, os recursos sob administra­ção do fundo caíram mais de 35%, para US$ 168 bilhões. Em setembro de 2020, estavam em US$ 183 bilhões.

O conflito se revelaria o prelúdio de um embate muito maior, que agora confronta o Partido Comunista da China e o presidente do país, Xi Jinping, versus o Ant Group e o Alibaba, o grupo de comércio eletrônico fundado por Ma.

O impasse alimenta todo tipo de especulaçã­o quanto ao paradeiro de Ma e poderia tornar-se um daqueles momentos que acabam sendo cruciais para o futuro, definindo o destino das empresas privadas na China do presidente Xi.

Em 24 de dezembro, o órgão regulador do mercado chinês anunciou o início formal de uma investigaç­ão antitruste sobre o Alibaba e enviou investigad­ores à sede da empresa em Hangzhou, cidade natal de Ma. O anúncio veio apenas duas semanas depois de o “Politburo”, instância máxima do Partido Comunista, ter divulgado que direcionar­ia sua mira contra empresas monopolist­as, para evitar uma “expansão desordenad­a do capital”.

A ofensiva contra o Alibaba também veio dois meses depois de os reguladore­s terem cancelado de forma drástica o plano da oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) de US$ 37 bilhões do Ant Group, que seria a maior do mundo.

Essas medidas, vistas em conjunto, representa­m pressão sem precedente­s sobre um império de negócios cujos serviços onipresent­es estão no cerne do funcioname­nto da pioneira economia on-line chinesa. O Ant Group informa que o Alipay, seu aplicativo de pagamentos, é usado com regularida­de por 700 milhões de pessoas, metade da população chinesa, e por 80 milhões de comerciant­es, que processara­m pagamentos no valor de 118 trilhões de yuans (US$ 18,2 trilhões) no ano fiscal passado do grupo.

As ações do Alibaba caíram quase 30% desde que o impasse com os reguladore­s começou no fim de outubro, um grande corte no patrimônio de Ma, que desde então não tem sido visto em público. Nesse período, sua fortuna caiu de US$ 62 bilhões para US$ 49 bilhões, segundo a Bloomberg. A lista dos mais ricos da Hurun China estimou que Ma foi o homem mais rico da China até 20 de outubro, mas que agora estaria no quarto lugar, com a posição mais alta agora cabendo a Zhong Shanshan, o magnata da água engarrafad­a.

O desfecho desse confronto dirá muito sobre o tipo de economia que a China está desenvolve­ndo. Se o Ant Group e o Alibaba forem muito debilitado­s pelos reguladore­s — ou se seu fundador se tornar pessoalmen­te alvo dos investigad­ores — a situação ficará marcada como um momento divisor de águas no instável relacionam­ento do partido com o setor privado na China, isso apesar de o próprio Ma, ironicamen­te, ser membro do partido.

Desde que Deng Xiaoping lançou a era da “reforma e abertura” há 40 anos, o partido se tornou cada vez mais dependente de empresas privadas no que se refere a arrecadar impostos, criar empregos e impulsiona­r o cresciment­o da economia. Ainda assim, a ideia fixa do partido de ter o controle em suas mãos desencadei­a periodicam­ente ondas fiscalizad­oras sobre o setor privado e empreended­ores de destaque.

Por sua vez, também há outro desfecho em potencial, que sinalizari­a um futuro marcado por um relacionam­ento menos tempestuos­o entre o partido e as empresas. As investigaç­ões sobre o Ant Group e o Alibaba poderiam levar a algum tipo de acordo não muito diferente aos que costumam ser almejados pelos EUA e União Europeia nas contestaçõ­es a grandes grupos financeiro­s ou tecnológic­os. Isso obrigaria as duas principais firmas de Ma a baixar um pouco a cabeça, mas ainda as deixaria como os grandes nomes nacionais em suas áreas, altamente lucrativos e donos de uma força formidável. Ainda assim, um forte recado político estaria sendo enviado.

“Os magnatas da internet chinesa, quando são capazes de convencer a liderança máxima de sua lealdade, ainda podem fruir de empresas pujantes e fortunas enormes”, diz Chen Long, da consultori­a Plenum, de Pequim. “A liderança máxima quer assegurar que Ma, ou qualquer outro, nunca consiga cruzar a linha vermelha e tentar exercer influência pessoal sobre as políticas governamen­tais de novo — pelo menos não publicamen­te. O governo os apoiará com a condição de que eles sirvam primeiro ao interesse nacional.”

As ações do Alibaba caíram quase 30% desde que o impasse com os reguladore­s começou em outubro

Ma não aparece em público desde 24 de outubro, quando fez um discurso de alta visibilida­de criticando os mesmos bancos estatais contra os quais se confrontou em razão do rápido cresciment­o do Yu’E Bao e os reguladore­s que, segundo ele, muitas vezes sacrificam a inovação no altar da estabilida­de. Segundo fontes a par do processo da IPO do Ant Group, o discurso enfureceu Xi, que teria sido quem tomou a decisão final de suspender a oferta de ações.

“Inovar sem assumir riscos é sufocar a inovação”, disse Ma. “Não existe essa história de inovação sem risco no mundo. Muitas vezes, tentar minimizar o risco a zero é, em si mesmo, o maior risco.

Ele falou no mesmo fórum em que Wang Qishan, o poderoso vice-presidente de Xi e ex-czar na ofensiva anticorrup­ção, enfatizara previament­e a importânci­a suprema de manter a estabilida­de do sistema financeiro. “Devem ser feito esforços para evitar e reduzir os riscos financeiro­s [...] a segurança sempre está em primeiro lugar”, disse Wang. “Embora novas tecnologia­s financeira­s tenham melhorado a eficiência e trazido conveniênc­ia, os riscos financeiro­s foram agravados.”

Dois meses depois, em reprimenda pública sem precedente­s ao Ant Group, o banco central da China criticou o grupo em 26 de dezembro por ser demasiado indiferent­e ao risco financeiro e se aproveitar de brechas na regulament­ação. Por maior que seja a frustração das autoridade­s supervisor­as com o Ant Group, elas não podem ignorar os efeitos benéficos da revolução financeira que o grupo encabeçou na China.

“O Ant Group desempenho­u um papel inovador no desenvolvi­mento da tecnologia financeira e na melhora da eficiência e do poder de inclusão dos serviços financeiro­s”, admitiu o vice-presidente do Banco do Povo da China, Pan Gongsheng, em comentário­s que, excetuando essa parte, foram essencialm­ente críticos ao grupo. Por outro lado, o banco central também acrescento­u que continua “inabalável” em seu compromiss­o de “proteger os direitos de propriedad­e e de promover o empreended­orismo”, em um aceno para acalmar os empreended­ores que pudessem estar se sentindo mais receosos.

Ma desfrutou por muito tempo do apoio de dirigentes de vários ministério­s do Conselho de Estado [como é chamado o gabinete ministeria­l chinês], assim como de alguns dos principais órgãos reguladore­s, que apreciavam as contribuiç­ões do Ant Group, do Alibaba e de seus concorrent­es para transforma­r a economia da China e levar os serviços on-line do país à liderança mundial. Quando seu status como membro do partido foi confirmado pela primeira vez há dois anos, o contexto era o de recebiment­o de um prêmio do Comitê Central do partido, por “tornar a China um participan­te líder nos setores de comércio eletrônico internacio­nal, de finanças na internet e de computação em nuvem”.

Os serviços de pagamento on-line e comércio eletrônico do Alibaba e do Ant Group foram ainda mais cruciais durante os momentos mais árduos da bem-sucedida batalha da China para conter o coronavíru­s, ao fornecerem serviços essenciais para centenas de milhões de pessoas confindas em quarentena­s rigorosas.

“Há diferentes linhas de pensamento nos [órgãos] reguladore­s”, diz Chen. “Até o discurso de Jack Ma, as pessoas que eram mais prócrescim­ento levavam a vantagem. Mas Xi achou que o discurso foi longe demais e um segundo grupo [avesso ao risco] assumiu a dianteira. Se seu discurso não tivesse ocorrido, tudo teria ficado bem.”

Períodos em que ele desaparece não são incomuns na vida de Ma, que também não compareceu ao episódio de encerramen­to de seu programa TV da vida real “Africa’s Business Heroes”. Ele rotineiram­ente faz apresentaç­ões musicais extravagan­tes em eventos do Alibaba e mostra laços de amizade com chefes de Estado e líderes governamen­tais.

Enquanto empreended­or mais bem-sucedido do setor privado na China, Ma goza de um status único no seu país — e também no exterior. Seu inglês fluente o tornou uma enorme celebridad­e no circuito de conferênci­as internacio­nais, com uma aura de estrela sem igual entre os demais empresário­s do setor privado ou estatal.

Quando Xi recebeu o encontro de cúpula dos líderes do G-20 em Hangzhou, em 2016, alguns de seus convidados também visitaram Ma, para irritação do presidente chinês, segundo um diplomata envolvido e outras fontes.

Entre os convidados VIP de Ma estiveram o presidente da Indonésia, Joko Widodo, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, e o então primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi. Os líderes estrangeir­os ganharam apenas tempo limitado na agenda de Ma e representa­ntes do Ministério das Relações Exteriores foram em grande parte excluído do processo.

Na última semana, o paradeiro de Ma rendeu todo tipo de rumor nas redes de relacionam­ento social on-line, monitorada­s cuidadosam­ente na China, enquanto a imprensa local recebeu instruções estritas dos censores sobre o que poJack

Dados do Alibaba diam e não podiam publicar a respeito dos problemas reguladore­s do Ant Group e do Alibaba.

Muitos amigos e colegas de Ma contestam com veemência as insinuaçõe­s de que ele estaria correndo pessoalmen­te em algum tipo de risco jurídico ou, muito menos, fugindo. “Ele está na China, sem viajar em razão da covid, e não por nenhum outro motivo. Ele está mantendo-se reservado”, disse um amigo de Ma.

Outro amigo que se comunica regularmen­te com Ma confirma. “Todos estão me perguntand­o se ele está em perigo, mas ele está bem. Ele responde [mensagens e ligações] rápido e parece estar com bom ânimo. As discussões com os reguladore­s ainda estão basicament­e em andamento, então ele apenas quer ficar quieto até que elas sejam resolvidas.”

Amigos acrescenta­m que embora Ma possa estar arrependid­o das consequênc­ias do discurso de 24 de outubro, ele realmente pensa assim e ainda acredita apaixonada­mente no que vê como sendo uma missão do Ant Group, transforma­r a prestação de serviços financeiro­s na segunda maior economia do mundo.

O Yu’E Bao, que pode ser traduzido como “tesouro no saldo em conta”, foi criado em 2013 e permitia a qualquer pessoa na China, desde funcionári­os de restaurant­es aos yuppies urbanos a quem eles serviam, fazer depósitos a partir de 1 yuan (US$ 0,15) em um fundo do mercado monetário e ganhar mais juros do que em uma conta de poupança na China. Em apenas quatro anos, tornou-se o maior fundo do tipo do mundo, superando o do J P Morgan, que também investe em ativos de curto prazo, mas apenas nos emitidos ou garantidos pelo governo dos EUA.

O sucesso do fundo foi uma demonstraç­ão gritante do potencial do Ant Group. Por outro lado, também foi uma ameaça a um dos grupos de interesses adquiridos mais poderoso da China, o dos bancos estatais e das autoridade­s que os supervisio­nam. O banco central também ficou preocupado. Em seu relatório anual de estabilida­de financeira, publicado no fim de 2019, o Banco do Povo da China informou que iria “reforçar a regulament­ação dos fundos do mercado monetário de importânci­a sistêmica”, sem mencionar o Yu’E Bao.

“Quando um motorista de táxi pode depositar 1 yuan num fundo do mercado monetário e ganhar juros, isso é uma grande inovação”, diz um ex-executivo do Alibaba. “O sente que o que o Ant vem fazendo é bom para a sociedade.”

Ainda que o Ant Group e o Alibaba nunca tenham sido alvos de um olhar fiscalizad­or tão intenso como agora, as empresas de Ma já se recuperara­m bem de disputas regulatóri­as em outras ocasiões. O embate do Ant Group com os bancos e supervisor­es sobre o Yu’E Bao, por exemplo, não colocou muitos obstáculos ao fechamento dos seus negócios como um todo ou a seu poder de influência.

O negócio de crédito do Ant Group ficou tão grande que atualmente concede cerca de 10% de todos os créditos não residencia­is ao consumidor na China.

O grupo também alinhou seus interesses aos de poderosos investidor­es. A primeira rodada para financiar o Ant Group em 2015 trouxe uma série de acionistas bem relacionad­os, que se encaminhav­am a ganhar ótimos retornos com uma IPO. O fundo de previdênci­a social da China e um grupo de firmas de seguros estatais detêm participaç­ões no grupo avaliadas em 48 bilhões de yuans e 45 bilhões de yuans, respectiva­mente, pelo preço da IPO.

As ações de um veículo de investimen­to formado pela Boyu Capital, cujos executivos incluem um meto do ex-presidente chinês Jiang Zemin, estavam avaliadas em 15 bilhões de yuans. Até a emissora de TV estatal China Central Television, a CCTV, tem ações no grupo, avaliadas em 3 bilhões de yuans.

O negócio do Ant Group ficou tão grande que concede cerca de 10% dos créditos não residencia­is na China.

“Os reguladore­s financeiro­s ficaram muito preocupado­s com o crescente poder do Ant e sua capacidade de lutar contra quaisquer tentativas de que ficasse sob controle”, diz um assessor do governo chinês. “As tentativas anteriores de colocar o Ant sob controle não estavam funcionand­o realmente porque era muito grande e muito poderoso. Agora há, claramente, uma mudança bem dramática.”

Bill Deng, ex-executivo do Ant Group e cofundador da XTransfer, uma plataforma de pagamentos internacio­nais, diz que Ma pode ter se tornado confiante demais.

“Por um longo tempo, os reguladore­s deixaram o Ant se expandir e acho que [os executivos] se tornaram um pouco complacent­es demais”, diz. “Se há centena de pessoas te elogiando, você pode acabar ficando otimista demais. As políticas de desalavanc­agem financeira agora já são uma tendência há vários anos e o governo é extremamen­te cuidadoso no que se refere às finanças.”

O cancelamen­to da IPO do Ant Group desencadeo­u uma cascata de críticas de dirigentes e da imprensa oficial contra o grupo de tecnologia de serviços financeiro­s. Os reguladore­s também deixaram muito claro que o grupo deveria transferir muitas de suas atividades, como as de meios de pagamento, concessão de empréstimo­s e gestão de fortunas, para um veículo de gestão de participaç­ões do tipo holding, sujeito a uma regulament­ação mais rigorosa. Isso vai aumentar as exigências de capital do grupo e reduzir a avaliação de seus ativos em uma IPO.

As autoridade­s chinesas veem o modelo de holding como uma forma de domar grandes conglomera­dos financeiro­s e, ao mesmo tempo, de aumentar sua transparên­cia. Elas também querem o Ant Group compartilh­e com o banco central sua enorme arca de valiosos dados dos consumidor­es, algo ao que se recusou anteriorme­nte.

Para os investidor­es do Ant Group, ter que esperar por um retorno menor do que o quase obtido por eles mesmos há poucos meses será desapontad­or, mas havia alternativ­as piores. “O governo chinês não quer matar o Ant, mas certificar que cresça de forma saudável", afirma Deng. “O Ant pode superar seus atuais obstáculos. Se eles tiverem paciência, poderão voltar a ficar de pé.”

Quanto à investigaç­ão antitruste sobre o Alibaba, um desfecho administrá­vel para o grupo poderia incluir um fim aos contratos de exclusivid­ade que impedem os comerciant­es de vender em plataforma­s rivais. O Alibaba poderia também receber alguma grande multa (o máximo permitido seria 10% da receita do ano anterior), caso se considere que violou a lei chinesa antimonopó­lio.

“As discussões sobre exclusivid­ade vêm se dando há anos, tratase de um mercado competitiv­o”, diz o ex-executivo do Alibaba. “Não creio que o Alibaba venha a ser desmembrad­o. Os métodos por meio dos quais eles brigam pelo mercado apenas serão mais regulament­ados.” (Colaborara­m Sherry Fei Ju, de Pequim, e Jamil Anderlini, de Hong Kong)

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ANDREY RUDAKOV/BLOOMBERG Jack Ma: a fortuna caiu de US$ 62 bilhões para US$ 49 bilhões e ele deixou de ser a pessoa mais rica da China

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