Medidas contra Jack Ma são pressão sem precedentes na China
Varejo Conflito é um teste para atitude do governo de Pequim em relação a companhias do setor privado
Há quatro anos, quando o principal fundo do Ant Group no mercado monetário avançava em alta velocidade na China e atingia o pico de mais de US$ 260 bilhões em ativos sob gestão, muitos bancos estatais chineses e as autoridades reguladoras começaram a incomodar-se. Em uma série de ligações e reuniões com Jack Ma, fundador do Ant Group, executivos de banco e autoridades passaram a exigir que o fundo, chamado Yu’E Bao, pisasse no freio.
“O Yu’E Bao estava tirando um monte de dinheiro dos bancos”, disse uma fonte a par das conversas. “Os bancos estavam preocupados com o impacto na liquidez e queriam que o Ant tomasse medidas para minimizá-lo. As conversas foram bem tensas.”
No fim das contas, Ma precisou recuar e o Yu’E Bao impôs limites às quantias que as pessoas podiam aplicar no fundo, que investe em ativos de curto prazo. Entre março e dezembro de 2018, os recursos sob administração do fundo caíram mais de 35%, para US$ 168 bilhões. Em setembro de 2020, estavam em US$ 183 bilhões.
O conflito se revelaria o prelúdio de um embate muito maior, que agora confronta o Partido Comunista da China e o presidente do país, Xi Jinping, versus o Ant Group e o Alibaba, o grupo de comércio eletrônico fundado por Ma.
O impasse alimenta todo tipo de especulação quanto ao paradeiro de Ma e poderia tornar-se um daqueles momentos que acabam sendo cruciais para o futuro, definindo o destino das empresas privadas na China do presidente Xi.
Em 24 de dezembro, o órgão regulador do mercado chinês anunciou o início formal de uma investigação antitruste sobre o Alibaba e enviou investigadores à sede da empresa em Hangzhou, cidade natal de Ma. O anúncio veio apenas duas semanas depois de o “Politburo”, instância máxima do Partido Comunista, ter divulgado que direcionaria sua mira contra empresas monopolistas, para evitar uma “expansão desordenada do capital”.
A ofensiva contra o Alibaba também veio dois meses depois de os reguladores terem cancelado de forma drástica o plano da oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) de US$ 37 bilhões do Ant Group, que seria a maior do mundo.
Essas medidas, vistas em conjunto, representam pressão sem precedentes sobre um império de negócios cujos serviços onipresentes estão no cerne do funcionamento da pioneira economia on-line chinesa. O Ant Group informa que o Alipay, seu aplicativo de pagamentos, é usado com regularidade por 700 milhões de pessoas, metade da população chinesa, e por 80 milhões de comerciantes, que processaram pagamentos no valor de 118 trilhões de yuans (US$ 18,2 trilhões) no ano fiscal passado do grupo.
As ações do Alibaba caíram quase 30% desde que o impasse com os reguladores começou no fim de outubro, um grande corte no patrimônio de Ma, que desde então não tem sido visto em público. Nesse período, sua fortuna caiu de US$ 62 bilhões para US$ 49 bilhões, segundo a Bloomberg. A lista dos mais ricos da Hurun China estimou que Ma foi o homem mais rico da China até 20 de outubro, mas que agora estaria no quarto lugar, com a posição mais alta agora cabendo a Zhong Shanshan, o magnata da água engarrafada.
O desfecho desse confronto dirá muito sobre o tipo de economia que a China está desenvolvendo. Se o Ant Group e o Alibaba forem muito debilitados pelos reguladores — ou se seu fundador se tornar pessoalmente alvo dos investigadores — a situação ficará marcada como um momento divisor de águas no instável relacionamento do partido com o setor privado na China, isso apesar de o próprio Ma, ironicamente, ser membro do partido.
Desde que Deng Xiaoping lançou a era da “reforma e abertura” há 40 anos, o partido se tornou cada vez mais dependente de empresas privadas no que se refere a arrecadar impostos, criar empregos e impulsionar o crescimento da economia. Ainda assim, a ideia fixa do partido de ter o controle em suas mãos desencadeia periodicamente ondas fiscalizadoras sobre o setor privado e empreendedores de destaque.
Por sua vez, também há outro desfecho em potencial, que sinalizaria um futuro marcado por um relacionamento menos tempestuoso entre o partido e as empresas. As investigações sobre o Ant Group e o Alibaba poderiam levar a algum tipo de acordo não muito diferente aos que costumam ser almejados pelos EUA e União Europeia nas contestações a grandes grupos financeiros ou tecnológicos. Isso obrigaria as duas principais firmas de Ma a baixar um pouco a cabeça, mas ainda as deixaria como os grandes nomes nacionais em suas áreas, altamente lucrativos e donos de uma força formidável. Ainda assim, um forte recado político estaria sendo enviado.
“Os magnatas da internet chinesa, quando são capazes de convencer a liderança máxima de sua lealdade, ainda podem fruir de empresas pujantes e fortunas enormes”, diz Chen Long, da consultoria Plenum, de Pequim. “A liderança máxima quer assegurar que Ma, ou qualquer outro, nunca consiga cruzar a linha vermelha e tentar exercer influência pessoal sobre as políticas governamentais de novo — pelo menos não publicamente. O governo os apoiará com a condição de que eles sirvam primeiro ao interesse nacional.”
As ações do Alibaba caíram quase 30% desde que o impasse com os reguladores começou em outubro
Ma não aparece em público desde 24 de outubro, quando fez um discurso de alta visibilidade criticando os mesmos bancos estatais contra os quais se confrontou em razão do rápido crescimento do Yu’E Bao e os reguladores que, segundo ele, muitas vezes sacrificam a inovação no altar da estabilidade. Segundo fontes a par do processo da IPO do Ant Group, o discurso enfureceu Xi, que teria sido quem tomou a decisão final de suspender a oferta de ações.
“Inovar sem assumir riscos é sufocar a inovação”, disse Ma. “Não existe essa história de inovação sem risco no mundo. Muitas vezes, tentar minimizar o risco a zero é, em si mesmo, o maior risco.
Ele falou no mesmo fórum em que Wang Qishan, o poderoso vice-presidente de Xi e ex-czar na ofensiva anticorrupção, enfatizara previamente a importância suprema de manter a estabilidade do sistema financeiro. “Devem ser feito esforços para evitar e reduzir os riscos financeiros [...] a segurança sempre está em primeiro lugar”, disse Wang. “Embora novas tecnologias financeiras tenham melhorado a eficiência e trazido conveniência, os riscos financeiros foram agravados.”
Dois meses depois, em reprimenda pública sem precedentes ao Ant Group, o banco central da China criticou o grupo em 26 de dezembro por ser demasiado indiferente ao risco financeiro e se aproveitar de brechas na regulamentação. Por maior que seja a frustração das autoridades supervisoras com o Ant Group, elas não podem ignorar os efeitos benéficos da revolução financeira que o grupo encabeçou na China.
“O Ant Group desempenhou um papel inovador no desenvolvimento da tecnologia financeira e na melhora da eficiência e do poder de inclusão dos serviços financeiros”, admitiu o vice-presidente do Banco do Povo da China, Pan Gongsheng, em comentários que, excetuando essa parte, foram essencialmente críticos ao grupo. Por outro lado, o banco central também acrescentou que continua “inabalável” em seu compromisso de “proteger os direitos de propriedade e de promover o empreendedorismo”, em um aceno para acalmar os empreendedores que pudessem estar se sentindo mais receosos.
Ma desfrutou por muito tempo do apoio de dirigentes de vários ministérios do Conselho de Estado [como é chamado o gabinete ministerial chinês], assim como de alguns dos principais órgãos reguladores, que apreciavam as contribuições do Ant Group, do Alibaba e de seus concorrentes para transformar a economia da China e levar os serviços on-line do país à liderança mundial. Quando seu status como membro do partido foi confirmado pela primeira vez há dois anos, o contexto era o de recebimento de um prêmio do Comitê Central do partido, por “tornar a China um participante líder nos setores de comércio eletrônico internacional, de finanças na internet e de computação em nuvem”.
Os serviços de pagamento on-line e comércio eletrônico do Alibaba e do Ant Group foram ainda mais cruciais durante os momentos mais árduos da bem-sucedida batalha da China para conter o coronavírus, ao fornecerem serviços essenciais para centenas de milhões de pessoas confindas em quarentenas rigorosas.
“Há diferentes linhas de pensamento nos [órgãos] reguladores”, diz Chen. “Até o discurso de Jack Ma, as pessoas que eram mais prócrescimento levavam a vantagem. Mas Xi achou que o discurso foi longe demais e um segundo grupo [avesso ao risco] assumiu a dianteira. Se seu discurso não tivesse ocorrido, tudo teria ficado bem.”
Períodos em que ele desaparece não são incomuns na vida de Ma, que também não compareceu ao episódio de encerramento de seu programa TV da vida real “Africa’s Business Heroes”. Ele rotineiramente faz apresentações musicais extravagantes em eventos do Alibaba e mostra laços de amizade com chefes de Estado e líderes governamentais.
Enquanto empreendedor mais bem-sucedido do setor privado na China, Ma goza de um status único no seu país — e também no exterior. Seu inglês fluente o tornou uma enorme celebridade no circuito de conferências internacionais, com uma aura de estrela sem igual entre os demais empresários do setor privado ou estatal.
Quando Xi recebeu o encontro de cúpula dos líderes do G-20 em Hangzhou, em 2016, alguns de seus convidados também visitaram Ma, para irritação do presidente chinês, segundo um diplomata envolvido e outras fontes.
Entre os convidados VIP de Ma estiveram o presidente da Indonésia, Joko Widodo, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, e o então primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi. Os líderes estrangeiros ganharam apenas tempo limitado na agenda de Ma e representantes do Ministério das Relações Exteriores foram em grande parte excluído do processo.
Na última semana, o paradeiro de Ma rendeu todo tipo de rumor nas redes de relacionamento social on-line, monitoradas cuidadosamente na China, enquanto a imprensa local recebeu instruções estritas dos censores sobre o que poJack
Dados do Alibaba diam e não podiam publicar a respeito dos problemas reguladores do Ant Group e do Alibaba.
Muitos amigos e colegas de Ma contestam com veemência as insinuações de que ele estaria correndo pessoalmente em algum tipo de risco jurídico ou, muito menos, fugindo. “Ele está na China, sem viajar em razão da covid, e não por nenhum outro motivo. Ele está mantendo-se reservado”, disse um amigo de Ma.
Outro amigo que se comunica regularmente com Ma confirma. “Todos estão me perguntando se ele está em perigo, mas ele está bem. Ele responde [mensagens e ligações] rápido e parece estar com bom ânimo. As discussões com os reguladores ainda estão basicamente em andamento, então ele apenas quer ficar quieto até que elas sejam resolvidas.”
Amigos acrescentam que embora Ma possa estar arrependido das consequências do discurso de 24 de outubro, ele realmente pensa assim e ainda acredita apaixonadamente no que vê como sendo uma missão do Ant Group, transformar a prestação de serviços financeiros na segunda maior economia do mundo.
O Yu’E Bao, que pode ser traduzido como “tesouro no saldo em conta”, foi criado em 2013 e permitia a qualquer pessoa na China, desde funcionários de restaurantes aos yuppies urbanos a quem eles serviam, fazer depósitos a partir de 1 yuan (US$ 0,15) em um fundo do mercado monetário e ganhar mais juros do que em uma conta de poupança na China. Em apenas quatro anos, tornou-se o maior fundo do tipo do mundo, superando o do J P Morgan, que também investe em ativos de curto prazo, mas apenas nos emitidos ou garantidos pelo governo dos EUA.
O sucesso do fundo foi uma demonstração gritante do potencial do Ant Group. Por outro lado, também foi uma ameaça a um dos grupos de interesses adquiridos mais poderoso da China, o dos bancos estatais e das autoridades que os supervisionam. O banco central também ficou preocupado. Em seu relatório anual de estabilidade financeira, publicado no fim de 2019, o Banco do Povo da China informou que iria “reforçar a regulamentação dos fundos do mercado monetário de importância sistêmica”, sem mencionar o Yu’E Bao.
“Quando um motorista de táxi pode depositar 1 yuan num fundo do mercado monetário e ganhar juros, isso é uma grande inovação”, diz um ex-executivo do Alibaba. “O sente que o que o Ant vem fazendo é bom para a sociedade.”
Ainda que o Ant Group e o Alibaba nunca tenham sido alvos de um olhar fiscalizador tão intenso como agora, as empresas de Ma já se recuperaram bem de disputas regulatórias em outras ocasiões. O embate do Ant Group com os bancos e supervisores sobre o Yu’E Bao, por exemplo, não colocou muitos obstáculos ao fechamento dos seus negócios como um todo ou a seu poder de influência.
O negócio de crédito do Ant Group ficou tão grande que atualmente concede cerca de 10% de todos os créditos não residenciais ao consumidor na China.
O grupo também alinhou seus interesses aos de poderosos investidores. A primeira rodada para financiar o Ant Group em 2015 trouxe uma série de acionistas bem relacionados, que se encaminhavam a ganhar ótimos retornos com uma IPO. O fundo de previdência social da China e um grupo de firmas de seguros estatais detêm participações no grupo avaliadas em 48 bilhões de yuans e 45 bilhões de yuans, respectivamente, pelo preço da IPO.
As ações de um veículo de investimento formado pela Boyu Capital, cujos executivos incluem um meto do ex-presidente chinês Jiang Zemin, estavam avaliadas em 15 bilhões de yuans. Até a emissora de TV estatal China Central Television, a CCTV, tem ações no grupo, avaliadas em 3 bilhões de yuans.
O negócio do Ant Group ficou tão grande que concede cerca de 10% dos créditos não residenciais na China.
“Os reguladores financeiros ficaram muito preocupados com o crescente poder do Ant e sua capacidade de lutar contra quaisquer tentativas de que ficasse sob controle”, diz um assessor do governo chinês. “As tentativas anteriores de colocar o Ant sob controle não estavam funcionando realmente porque era muito grande e muito poderoso. Agora há, claramente, uma mudança bem dramática.”
Bill Deng, ex-executivo do Ant Group e cofundador da XTransfer, uma plataforma de pagamentos internacionais, diz que Ma pode ter se tornado confiante demais.
“Por um longo tempo, os reguladores deixaram o Ant se expandir e acho que [os executivos] se tornaram um pouco complacentes demais”, diz. “Se há centena de pessoas te elogiando, você pode acabar ficando otimista demais. As políticas de desalavancagem financeira agora já são uma tendência há vários anos e o governo é extremamente cuidadoso no que se refere às finanças.”
O cancelamento da IPO do Ant Group desencadeou uma cascata de críticas de dirigentes e da imprensa oficial contra o grupo de tecnologia de serviços financeiros. Os reguladores também deixaram muito claro que o grupo deveria transferir muitas de suas atividades, como as de meios de pagamento, concessão de empréstimos e gestão de fortunas, para um veículo de gestão de participações do tipo holding, sujeito a uma regulamentação mais rigorosa. Isso vai aumentar as exigências de capital do grupo e reduzir a avaliação de seus ativos em uma IPO.
As autoridades chinesas veem o modelo de holding como uma forma de domar grandes conglomerados financeiros e, ao mesmo tempo, de aumentar sua transparência. Elas também querem o Ant Group compartilhe com o banco central sua enorme arca de valiosos dados dos consumidores, algo ao que se recusou anteriormente.
Para os investidores do Ant Group, ter que esperar por um retorno menor do que o quase obtido por eles mesmos há poucos meses será desapontador, mas havia alternativas piores. “O governo chinês não quer matar o Ant, mas certificar que cresça de forma saudável", afirma Deng. “O Ant pode superar seus atuais obstáculos. Se eles tiverem paciência, poderão voltar a ficar de pé.”
Quanto à investigação antitruste sobre o Alibaba, um desfecho administrável para o grupo poderia incluir um fim aos contratos de exclusividade que impedem os comerciantes de vender em plataformas rivais. O Alibaba poderia também receber alguma grande multa (o máximo permitido seria 10% da receita do ano anterior), caso se considere que violou a lei chinesa antimonopólio.
“As discussões sobre exclusividade vêm se dando há anos, tratase de um mercado competitivo”, diz o ex-executivo do Alibaba. “Não creio que o Alibaba venha a ser desmembrado. Os métodos por meio dos quais eles brigam pelo mercado apenas serão mais regulamentados.” (Colaboraram Sherry Fei Ju, de Pequim, e Jamil Anderlini, de Hong Kong)