Agora

Porque decidi mandar minha filha à escola

Quer ver o desenho do seu filho publicado na coluna? Envie email com nome completo e idade da criança, nome do responsáve­l e celular do responsáve­l.

- Colodemae@grupofolha.com.br

Educação é um direito das crianças; não quero que percamos todas as batalhas para o vírus

Minha filha caçula, de oito anos, deverá voltar para as aulas presenciai­s na semana que vem. Laura, em sua inocência infantil, faz parte do grupo de milhões de crianças que, tão novas, estão vivenciand­o uma pandemia histórica e com agravantes sem precedente­s. Na era da tecnologia, da informação e da abundância de recursos, falhamos enquanto humanos e ainda não conseguimo­s conter de forma eficaz um vírus tão pequeno.

Confesso não ter imaginado que Laura iria novamente à escola neste semestre. Desde março de 2020, minha pequena só participou de aulas presenciai­s por uma semana, no início de abril deste ano. Logo, entramos em fase ainda mais crítica da infecção por coronavíru­s no estado de São Paulo e as unidades voltaram a fechar.

Embora a educação seja uma atividade essencial, na escola de minha pequena, houve a opção por manter a unidade fechada. Para nossa família, a decisão foi acertada. No entanto, agora, com a possibilid­ade de retomada, Laurinha deve fazer parte do esquema de revezament­o e ter aulas semana sim, semana não.

E por que eu decidi enviar minha filha à escola mesmo em um momento em que contabiliz­amos mais de 3.000 mortos diariament­e e já chegamos, há pouco tempo, à marca das 4.200 vidas perdidas em um único dia para a Covid-19 em nosso país?

A resposta não é simples. Mas é sincera. Eu decidi mandar minha filha para a escola porque não quero perder todas as batalhas para o vírus. Há um ano e dois meses que não abraçamos ninguém a não ser nós mesmos aqui dentro de casa. Há um ano e dois meses que não visitamos amigos queridos e não recebemos visitas.

Há um ano e dois meses que a atividade diária de minhas duas filhas —a adolescent­e Luiza, de 14 anos, não voltará para o ensino presencial— envolve acordar, estudar em frente ao computador, ajudar nas obrigações de casa e ficar, por um bom período, em telas, seja lendo, vendo vídeos, falando com amigos e familiares, matando tempo nas redes sociais ou jogando.

A batalha da liberdade, do abraço apertado e das viagens de férias a gente já perdeu. Estamos trancados e é assim que tem que ser até que a situação seja segura. Também perdemos a batalha das vacinas. Não sei exatamente que dia as pessoas da minha idade serão vacinadas. “No dia D, na hora H”, foi a resposta do último ministro da Saúde sobre a possibilid­ade de imunização dos brasileiro­s.

Essa batalha, já perdemos, assim como a batalha do respeito à nossa dignidade e da luta contra o escárnio público e social dos que governam o país. Mas não quero que minha menina perca a capacidade de amar, de escolher, de entender, de se educar, de ter amigos, de acreditar e de conviver. Voltar para a escola não é apenas uma oportunida­de de aprender o conteúdo. Esse eu ensino em casa, junto com a professora, na aula online.

Voltar para escola representa responsabi­lidade, vida em sociedade, busca de conhecimen­to que vai além. Eu decidi mandar minha filha caçula para a escola porque é um direito dela. É direito de todas as crianças o acesso à educação. Vamos exercer esse direito, à luz da ciência, defendendo e apoiando a vacinação de professore­s, com fé, esperança e amor.

ZDECISÃO NA PANDEMIA É DAS MAIS DIFÍCEIS PARA TODAS AS FAMÍLIAS

Já falei na coluna que enviar um filho à escola em meio a uma pandemia sem precedente­s é das decisões mais difíceis. Por isso respeito quem decide mandar e também os que decidem deixar em casa. Nada está sendo fácil. Pode ser que minha caçula também tenha que ficar. Vivamos um dia de cada vez.

A batalha da liberdade, do abraço apertado e das viagens de férias a gente já perdeu. Não queremos perder todas as batalhas para esse vírus tão pequeno e tão potente

 ?? Arquivo pessoal ?? Marina de Moraes
Mendonça, 10 anos, desenhou a Emília, do “Sítio do Picapau Amarelo”
Arquivo pessoal Marina de Moraes Mendonça, 10 anos, desenhou a Emília, do “Sítio do Picapau Amarelo”
 ??  ?? Cristiane Gercina
41 anos, é mãe de Luiza, 14 anos, e Laura, 8 anos. Graduada e pós-graduada pela Unesp, é coordenado­ra-assistente de Grana do Agora, apaixonada pelas filhas e por literatura.
Cristiane Gercina 41 anos, é mãe de Luiza, 14 anos, e Laura, 8 anos. Graduada e pós-graduada pela Unesp, é coordenado­ra-assistente de Grana do Agora, apaixonada pelas filhas e por literatura.

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil