Agora

Isolado em casa, Milton Nascimento espera retorno seguro aos shows

Cantor afirma que país vive pior fase de sua história recente e que Bolsonaro é ‘um completo incompeten­te’

- JÚLIA BARBON

Sentado num sofá, com um livro ou violão nas mãos, sem as tradiciona­is tranças que o acompanhar­am nos últimos 25 anos. É assim que tem sido a rotina de Milton Nascimento, de 78 anos, no último um ano e meio de pandemia, e ele não pretende mudar isso tão cedo.

“Infelizmen­te o número de mortos ainda é muito grande. Quero voltar na hora em que todos estiverem seguros, artista, público e equipe. E o caminho para que isso aconteça é a vacina. Estou muito ansioso para sentir o carinho dos fãs novamente”, diz.

Com a curva de casos da Covid-19 aumentando mais uma vez, ele continua isolado em casa num condomínio de Juiz de Fora, em Minas Gerais, junto do filho e empresário Augusto Nascimento, de 28 anos.

Sua turnê com músicas do Clube da Esquina segue suspensa, enquanto cidades reabrem casas de shows e cantores anunciam a volta aos palcos, em meio à ameaça da variante delta. Gilberto Gil retorna à Europa em outubro, e Alceu Valença vai ao Espaço das Américas em setembro.

Não quer dizer que ele não sinta saudade. “Sinto falta de todo o processo. Desde o começo, o encontro com a equipe, as viagens, o calor do público, os amigos e também, é claro, o momento no palco, insubstitu­ível na vida do artista.”

Vacinado desde abril, quando postou a frase “viva a ciência, viva o SUS e fora, Bolsonaro”, Milton conta que não mudou nada no dia a dia de isolamento, a não ser a prática de exercícios e fisioterap­ia. Tem lido como nunca e se distraído com filmes, séries e documentár­ios.

Assim tem escolhido passar pelo que chama de “pior fase da nossa história recente, com a pandemia e tendo à frente do governo um completo incompeten­te”. “É preciso força, amor e esperança para atravessar esse momento sombrio.”

Agora, se concentra nos vários projetos em andamento. “A gente já até gravou aqui em casa mesmo, em Juiz de Fora. Mas, como todos eles foram feitos em colaboraçã­o com outros artistas, estamos esperando a hora certa de lançar.”

Milton faz mistério sobre o filme que seu filho Augusto está tocando. “Ainda está na fase do roteiro, mas tenho certeza de que vem algo muito emocionant­e por aí”, promete.

As eventuais gravações terão novo visual. As marcantes madeixas do cantor foram cortadas em fevereiro, pois demandavam muita manutenção. “Decidi cortar para evitar uma exposição desnecessá­ria durante a quarentena. E acabou que gostei muito do visual novo e decidi manter.”

Essa não é a primeira vez que o músico fica recluso. Milton entrou em depressão e parou de cantar em 2015, depois de ter passado por problemas sérios de saúde e um cateterism­o para desobstrui­r as artérias do coração. Se isolou por um ano junto do filho, que o conduziu novamente aos palcos.

Chegou um dia em casa e viu o pai tocando “Francisco”, canção de 1976. Perguntou se ele queria voltar e marcou um show como teste em Belo Horizonte. O cantor saiu da apresentaç­ão abraçando o filho e nunca mais parou.

Ambos se conheceram em Juiz de Fora, anos atrás. Um não tinha pai, outro não tinha filho, então repetiram a trajetória de Milton, nascido no Rio de Janeiro mas adotado por um casal em Três Pontas.

“Minas foi onde desenvolvi minha musicalida­de e vivi experiênci­as fundamenta­is na minha formação como artista. E para onde voltei, junto com meu filho, quando consegui reencontra­r várias coisas que estavam perdidas em mim.” (Folha)

 ?? Augusto Nascimento ?? Milton Nascimento, 78 anos, em sua casa em Juiz de Fora (MG), sem as tranças que o acompanhar­am nos últimos 25 anos; artista conta que ocupa seus dias com livros, documentár­ios e séries
Augusto Nascimento Milton Nascimento, 78 anos, em sua casa em Juiz de Fora (MG), sem as tranças que o acompanhar­am nos últimos 25 anos; artista conta que ocupa seus dias com livros, documentár­ios e séries

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