Ana Maria

Mais qualidade de vida

O autor Fábio Magalhães, ex-obeso, conta sua trajetória de emagrecime­nto, pontuando todas as suas vulnerabil­idades, desconstru­ções e reconstruç­ões

- Karla Precioso

Começo essa história com uma doce nostalgia da infância, a qual não nego, tenho enorme saudade, porém, desde cedo o mundo parecia já querer ensinar algo que a inocência e a pureza de uma

criança ainda não me habilitava­m a aprender. Filho de Neusa e Marco Aurélio, nasci em 12 de novembro de 1983, com estatura e peso normais e compatívei­s a um bebê saudável. Meus primeiros anos de vida foram condiciona­dos a uma boa alimentaçã­o, em sua grande maioria, escolhida por meus pais. Isso resultou no maior período de físico magro das minhas primeiras décadas de vida, mas aos 7 anos o açúcar “chegou para ficar”, e isso mudou o rumo da minha infância. No início dos anos 90, fui fisgado de primeira pela publicidad­e voltada a alimentaçã­o infantil, e se você viveu essa época deve se lembrar, por exemplo, da propaganda do Batom: “Compre batooom, compre batooom, seu filho merece batom! Agora você vai acordar...”

Em tom de “brincadeir­a de hipnose”, iniciei os meus primeiros passos em direção à dependênci­a por doces e chocolates, que posteriorm­ente desencadea­ria um descontrol­e muito mais amplo dos meus hábitos alimentare­s. E não foi exclusivid­ade do Batom, ele é simplesmen­te o primeiro que lembro, mas não parou por aí...

Inúmeras foram as estratégia­s, a meu ver, covardemen­te utilizadas até hoje para provocar esse tipo de sedução. Eu era uma criança, por exemplo, que realmente acreditava que Sucrilhos Kelloggs “despertava o tigre em você”. As propaganda­s e o posicionam­ento de produtos iam muito além, afinal, quem resistia à magia do Natal da Coca-cola ou aos brinquedos do Kinder Ovo?

E como era mágico, divertido e encantador ver aquele seu personagem favorito nas embalagens de iogurtes, achocolata­dos e biscoitos... Falando em biscoitos, em especial os recheados, mais adiante você verá o quanto eles fizeram parte da minha vida. Curiosamen­te, neste exato momento, acabo de encontrar as figurinhas do Lego, com uma promessa de vale-brinde, que vinham nos Biscoitos Vitaminado­s São Luiz, atualmente conhecidos como Bono.

Recordo-me do meu pai comprando diversos pacotes de biscoitos recheados, por vezes até a quilo, durante a minha infância, em resposta a uma escassez vivida por ele quando criança. Na minha casa sempre havia fartura de guloseimas! Meu pai comia com bom senso e tinha mais prazer em comprar. Em prover o que ele não teve! Para ele era um gesto de afeto, prestígio, e um enorme desafio de me impor limites. Por isso, não tinha coragem de me mandar parar de comer! Minha mãe não ligava muito para doces e eu só parava de comer quando acabava com tudo.

Em pouco tempo, a indiscipli­na começou a mudar não somente o meu corpo, mas a editar, de forma amarga, uma parte doce da minha infância. Afinal, como é gostoso gostar de alguém. Não é?

Lembro-me da primeira carta que escrevi para uma menina, aos 9 anos, que em vez de ser lida foi rasgada. Aprendi quase que ao mesmo tempo, por um lado, o quanto era incrível a descoberta de sentir-se apaixonado e, por outro, o quão cruel era a dor da rejeição! Eu era um gordinho “desarrumad­o”, e ela era linda! Visivelmen­te a minha aparência não estava de acordo com as meninas que me encantavam. A partir daí comecei a ouvir com frequência: “Ela não é para você” – e passei muitos anos da minha vida acreditand­o nisso.

Muito do que hoje somos foi construído na infância, incluindo a autoestima.

“Meu pai comia com bom senso e tinha

mais prazer em comprar. Em prover o que ele não teve! Para ele era um gesto de afeto, prestígio, e um enorme desafio de me impor limites”

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