Aventuras na Historia

CHAVES

ELAS NASCERAM PARA MANTER PATRIMÔNIO­S SEGUROS. MAS, POR MUITO TEMPO, SÓ GARANTIAM STATUS

- POR MARIANA RIBAS

No princípio, era o nó. Portas de casarões, templos, baús... tudo era fechado por amarração – o que, claro, não era um sistema que deixasse alguém muito tranquilo. Por mais complicado que fosse o nó, sempre haveria um jeito de desfazê-lo – se faltasse paciência, podia até ser com uma adaga, como fez Alexandre, o Grande.

A busca por uma tecnologia mais segura levou à invenção, cerca de 4 mil anos atrás, dos primeiros modelos de chave. Mas não era bem o tipo que você leva no bolso. O objeto era de madeira, grande e pesado, e tinha apoio para as mãos. Mas essa chave egípcia tinha um problema básico: a matéria-prima. Isso porque a madeira é influencia­da pelo meio. Na presença de umidade, ela incha. E aí, num dia chuvoso, um infeliz qualquer não conseguiri­a inseri-la na fechadura. E acabaria molhado fora de casa.

O lado bom de ser grande – pelo menos para quem era rico – tinha a ver com status. Como a produção de chaves era complexa, apenas os endinheira­dos eram capazes de ter uma. Já que eram enormes, as pessoas as carregavam nas costas. Hoje, claro, isso parece um estorvo. Só que na época era uma oportunida­de de ostentar.

Mas foi só no Império Romano – quando já havia riquezas num volume tal que realmente merecessem um sistema de segurança mais rigoroso – que começaram a surgir chaves mais

eficientes: peças feitas de metal. No começo eram pregos metalizado­s, e a fechadura era feita sob medida para cada prego-chave. Ainda assim, a novidade tinha defeitos. Como os pregos tinham formato parecido, não era tão difícil achar um que combinasse com a fechadura do vizinho. Para piorar, eles quebravam facilmente. Então era melhor garantir: qualquer patrimônio que valesse o investimen­to tinha, além das chaves, guardas armados diante das portas.

Uma evolução importante se deu com a chave gorja, que surgiu pouco depois. Feita de bronze e ferro, era menor e mais prática, e tinha segredos, dificultan­do uma invasão. Mesmo menorzinha, ainda era pendurada em lugares visíveis – pois ter uma chave continuava evidência de uma condição financeira privilegia­da.

Já no século 9, os romanos chegaram a uma grande inovação, um modelo que permaneceu na ativa ao longo de mais de nove séculos: uma chave inteiramen­te de ferro. Além de mais resistente, ela tinha um segredo mais complexo. Os romanos de posses costumavam ter, na época, cofres instalados dentro de cofres, e com uma chave para cada um.

Até que, no século 18, com a Revolução Industrial, ficou mais simples produzir uma chave de boa qualidade – e em grande escala. A chave deixava de ser coisa de rico. E se acomodava, enfim, no bolso de todo mundo.

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