Aventuras na Historia

CURDOS A LUTA PELA TERRA

BATALHAS, GENOCÍDIOS, GRUPOS TERRORISTA­S E UMA LUTA CONSTANTE POR INDEPENDÊN­CIA SÃO PARTE DA HISTÓRIA DESTA ETNIA SEM PÁTRIA QUE, COM ATÉ 45 MILHÕES DE PESSOAS, É MAIOR QUE MUITOS PAÍSES

- POR NATALIA YUDENITSCH

m 1919, pouco antes do nascimento oficial do Estado Iraquiano (ainda sob controle britânico), os curdos estavam a um passo de ter sua nação independen­te. O xeque Mahmoud Barzanji, então líder dos curdos, autoprocla­mou-se rei do Estado Independen­te Curdo, reclamando a Suleimânia (uma cidade do Curdistão, no Iraque) e áreas adjacentes. Não deu certo. Menos de um ano depois, o Exército britânico depôs Barzanji. Naquele mesmo 1920, então, foi assinado na França o Tratado de Sèvres. O texto delimitava as fronteiras do Curdistão e prometia a tão esperada autonomia aos curdos. Promessa não cumprida: a independên­cia nunca foi colocada em prática. Para complicar, em 1923, um novo acordo foi assinado na Suíça entre participan­tes da Primeira Guerra Mundial (1914-1919) e da Guerra da Independên­cia da Turquia (19191922). O documento não só dividia o Curdistão entre Turquia, Iraque e Síria como também desobrigav­a o governo turco a garantir a sonhada autonomia curda. Outro passo atrás. Em 1925, após a repressão a uma revolta curda, a Liga das Nações decidiu que o mandato britânico na região deveria se estender por mais 25

anos. “Os ingleses ficaram menos de cinco anos. Quando, em 1930, o Iraque conseguiu sua independên­cia dos britânicos, os curdos se rebelaram novamente”, diz Juan Cole, professor da Universida­de de Michigan, nos Estados Unidos.

As rebeliões acontecera­m em várias partes do Curdistão. A ocorrida na Turquia, na região do Monte Ararat, foi apoiada pelas forças britânicas no Iraque, onde, em paralelo, diversos focos rebeldes explodiram. Muitas dessas revoltas foram encabeçada­s pelo líder nacionalis­ta curdo Mustafá Barzani. Mas nenhuma resultou num país independen­te. E eles continuam lutando por isso até hoje.

NO MESMO “LUGAR NENHUM”

Para entender a obstinação desse povo — a maior etnia sem pátria da atualidade — em ter o Curdistão reconhecid­o, é preciso voltar a suas raízes. Os curdos sempre habitaram a região que ocupam hoje. São uma etnia nativa das áreas montanhosa­s ao norte do Iraque e ao sul da Turquia. “As terras que eles querem ver reconhecid­as como suas sempre estiveram em suas mãos”, explica Anna Olson, professora americana da Universida­de de Washington. “Essa região, com cerca de 500 mil km2, que atualmente configura o Curdistão, fica em sua maior parte na Turquia, ocupando ainda partes de Iraque, Irã, Síria, Armênia e Azerbaijão. Como a área não é reconhecid­a como independen­te, os curdos, que podem chegar a 45 milhões, vivem hoje espalhados por essas seis nações, sem um núcleo oficial.” Em sua maioria, são muçulmanos sunitas, e a língua oficial é o curdo.

A história desse povo começou há cerca de 8 mil anos, praticamen­te no mesmo lugar, onde ficava a antiga Mesopotâmi­a. Sempre habitando as regiões montanhosa­s e acostumado­s ao frio intenso da altitude, os curdos da Antiguidad­e se dividiam em clãs com nomes como gutis, kurti e mushku e viviam em cidades-estado. Com o passar dos séculos, outros povos indo-europeus, como os medas (cujo império, há 2,6 mil anos, englobava boa parte do que hoje é o Curdistão), cíntios, partos, mitanis, cassitas, hititas e gutis, entre outros, fixaram-se na região. “Os curdos são, portanto, o produto da miscigenaç­ão de todos os povos invasores ou migrantes daquele lugar, incluindo assírios, acádios, armênios, persas,

OS CURDOS NASCERAM DA MISCIGENAÇ­ÃO DE POVOS INVASORES OU MIGRANTES DA ANTIGA MESOPOTÂMI­A

gregos, romanos, bizantinos, árabes, mongóis e turcos”, diz Olson.

Da Antiguidad­e ao século 20, a mistura de cultura e a falta de unidade e de um país levaram os curdos a intermináv­eis batalhas, guerras civis e levantes.

Após as revoltas na época da independên­cia do Iraque, na década de 1930, eles tentariam criar seu Estado próprio ao fim da Segunda Guerra Mundial. Quando terminou o conflito, as terras curdas no Azerbaijão foram ocupadas por forças soviéticas. Em 1946, os curdos criaram um Estado independen­te na cidade de Mahabad, conhecido como República de Mahabad. Menos de um ano depois, porém, quando os soviéticos partiram, a república viu seu fim com a reanexação da região pelo Irã. Também não foi dessa vez.

EXTERMÍNIO EM MASSA

Durante os primeiros anos do regime imposto pelo partido Baath, que assumiu o poder no Iraque em 1968, os curdos viveram em relativa paz. O cenário mudou radicalmen­te a partir de 1971, quando começaram a entrar em vigor as medidas de uma campanha anticurda, oficializa­da em 1986 sob o nome de Anfal, no governo de Saddam Hussein, e que só terminou em 1989. O objetivo era eliminar as aspirações de criar uma nação independen­te ou mesmo de se organizar como uma etnia de cultura e linguagem próprias. As formas de repressão começavam com a expulsão dos curdos que viviam próximo às fronteiras iraquianas com as da Turquia e do Irã. A prisão com base em acusações de atividades oposicioni­stas complement­ava o processo. Os curdos sofreram todo tipo de violência no período — de alvos de armas químicas a destruição de cidades e vilas. Em 1987, cerca de 600 curdos presos foram mortos pelos iraquianos com o tálio, um metal pesado utilizado em veneno para ratos. Já em 1989, mais 2 mil curdos foram envenenado­s da mesma maneira em Mardim e, no ano seguinte, outros 400 morreram na cidade de Diyarbakir.

A repressão aos curdos não foi restrita apenas ao Iraque. Até 1991, eles estavam proibidos de falar o curdo na Turquia. Ali, atualmen

UMA CAMPANHA ANTICURDOS NO IRAQUE LEVOU DA REPRESSÃO POLÍTICA À MATANÇA. ATÉ COM VENENO DE RATO

te, são vetados programas de rádio ou TV no idioma, assim como o aprendizad­o da língua nas escolas. Na Síria, muitos não conseguem tirar passaporte, votar, registrar seus filhos com nomes curdos, comprar terras ou se casar com sírios. No Irã é parecido.

Entre 15 e 19 de março de 1988, durante a campanha Anfal e em meio à guerra entre Irã e Iraque, os curdos sofreram um dos piores ataques. Em represália às forças iranianas, que haviam fornecido suporte militar aos rebeldes curdos, o Iraque lançou um ataque de armas químicas à cidade curda de Halabja (a cerca de 240 km de Bagdá), na época com cerca de 80 mil habitantes. Liderado por Ali Hassan al-majid, mais conhecido como Ali Químico, integrante do governo de Saddam Hussein, o ataque usou o gás sarin (que ataca o sistema nervoso) e o gás mostarda (que abre feridas quando em contato com a pele). Não há registros precisos sobre as baixas, estimadas em 10 mil.

QUASE LÁ

Já nos anos 1990, enquanto levantes promovidos por guerrilhei­ros rebeldes da PKK levavam a Turquia a um estado de guerra civil, os curdos ganharam a proteção dos Estados Unidos no Iraque. Sob o comando de George Bush, o pai, os EUA e as forças aliadas que lutaram contra o Iraque na Guerra do Golfo, em 1990 e 1991, apoiaram uma série de rebeliões e revoltas curdas. Isso estabelece­u uma área segura para a etnia no Iraque com um governo próprio. A questão curda, porém, só ganhou destaque no mundo em 2003, com a invasão do Iraque pelos EUA governados por George W. Bush, o filho. Apesar da oposição ferrenha da Turquia, que negou apoio à independên­cia curda, a delegação da etnia no Comitê Constituci­onal conseguiu que as províncias curdas se reunissem numa região autônoma, com suas próprias Forças Armadas, taxas e leis, tornando o curdo a língua nacional, juntamente com o árabe. Os turcos chegaram a negar caminho para os americanos e seus aliados até o norte do Iraque. Tinham medo de que, com Saddam Hussein deposto, os curdos proclamass­em um Estado independen­te.

Hoje, apoiando o programa criado pelos EUA no Iraque, há até 200 mil peshmergas (“aqueles que enfrentam a morte”), combatente­s que atuam principalm­ente contra o Daesh – o Estado Islâmico – com suporte ocidental, protegendo suas terras e buscando uma possível soluçãode fora. Não que a situação tenha deixado de ser problemáti­ca. Os EUA temem que o Iraque se torne uma terra instável, com uma eterna luta entre vários grupos étnicos. E por isso evitam um apoio explícito ao que continua sendo a meta maior dos curdos: ter sua própria pátria.

OS CURDOS CONSEGUIRA­M REGIÃO AUTÔNOMA, FORÇAS ARMADAS, TAXAS E LEIS PRÓPRIAS. SÓ FALTA A INDEPENDÊN­CIA

ONDE ESTÃO

É difícil mensurar com certeza a quantidade de curdos vivendo no mundo hoje: não há um censo específico, e a miscigenaç­ão entre as diversas regiões que habitam dificulta a missão. Mas os números aproximado­s são estes:

PKK

O Partido dos Trabalhado­res do Curdistão foi fundado em 1978 por estudantes curdos, mas só em 1984 tornou-se um grupo paramilita­r, usando inclusive campos de treinament­o na Turquia, Iraque, Síria, Líbano e até na França. Esses separatist­as, de linha marxista, vivem em conflito armado com o governo turco — por toda a opressão exercida por esse Estado contra sua etnia. É uma batalha constante, com um ou outro cessar-fogo e dezenas de milhares de vítimas. Sequestros de turistas e assassinat­os de políticos estão no repertório da organizaçã­o — que é considerad­a terrorista pela Otan e os EUA, mas não pela ONU.

 ??  ??
 ??  ?? Soldado curdo monta guarda ao pôr do sol nas montanhas da parte do Iraque controlada pela etnia. Um povo
eternament­e em guerra por reconhecim­ento e
autonomia
Soldado curdo monta guarda ao pôr do sol nas montanhas da parte do Iraque controlada pela etnia. Um povo eternament­e em guerra por reconhecim­ento e autonomia
 ??  ?? Em 1991, curdos chegam
a campo de refugiados após uma dura travessia de montanhas entre o
Iraque e a Turquia
Em 1991, curdos chegam a campo de refugiados após uma dura travessia de montanhas entre o Iraque e a Turquia
 ??  ?? Um dos cemitérios de Halabja, no Curdistão iraquiano, com 5 mil corpos de vítimas não identifica­das de ataques químicos
Um dos cemitérios de Halabja, no Curdistão iraquiano, com 5 mil corpos de vítimas não identifica­das de ataques químicos
 ??  ?? Peshmergas (combatente­s curdos) protegendo o topo de uma montanha, castigados pelo frio do Curdistão. As pessoas dessa etnia se concentram na área do Iraque
monitorada pela coalizão militar liderada pelos EUA
Peshmergas (combatente­s curdos) protegendo o topo de uma montanha, castigados pelo frio do Curdistão. As pessoas dessa etnia se concentram na área do Iraque monitorada pela coalizão militar liderada pelos EUA
 ??  ??
 ??  ?? Jovem do grupo separatist­a PKK. Organizaçã­o armada foi criada por estudantes, com muitas mulheres
Jovem do grupo separatist­a PKK. Organizaçã­o armada foi criada por estudantes, com muitas mulheres

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil