Aventuras na Historia

Inimigo Meu

CARTAGO VS ROMA

-

almirante cartaginês Aníbal Gisco não acreditava no que via. Sua poderosa esquadra de 130 trirremes, o orgulho da cidade de Cartago, acabara de ser fragorosam­ente derrotada pelo que ele considerav­a o mais rústico dos povos: os romanos. De seus 130 navios, 31 tinham sido capturados, 13 afundados e poucos homens conseguira­m fugir, incluindo ele, o almirante, que escapara num pequeno bote. Seus marinheiro­s, conhecidos pela extrema habilidade no mar, haviam sido batidos por um povo de agricultor­es. Desajeitad­os na água, os romanos tinham construído sua frota a partir de um barco cartaginês que havia naufragado em sua costa. Para tornarem as coisas mais próximas de uma luta em terra, tinham inventado uma espécie de ponte de assalto, chamada corvus, que era fincada no convés adversário e permitia que a luta no mar se tornasse uma abordagem, na qual o que contava não era mais a habilidade naval, mas a perícia com a espada. A decisiva batalha, ocorrida em 260 a.c. em Mylae, havia sido o primeiro teste da engenhoca, para infortúnio do almirante cartaginês, que depois foi literalmen­te crucificad­o pela derrota. Começava o primeiro round de uma luta de morte, que culminaria no fim da cidade-estado de Cartago e na ascensão de um dos maiores impérios de todos os tempos: Roma.

Na época desse evento, Cartago era uma poderosa cidade-estado localizada no litoral da atual Tunísia, na África do Norte. Fundada por fenícios em 804 a.c., tornara-se através dos séculos um importante entreposto comercial. Possuía colônias na Sardenha, Córsega, Malta, Es

panha e Sicília. Seus navios singravam por todo o Mediterrân­eo, aumentando cada vez mais a riqueza de seus comerciant­es. Já Roma era um reino obscuro, que mal havia unificado a península italiana.

Assim, foi com surpresa que os cartagines­es viram, em 264 a.c., a Sicília, seu precioso celeiro, ser invadida pelos romanos em sua primeira aventura fora de casa. E os romanos não se intimidava­m. Em pouco tempo, tanto cartagines­es quanto gregos (que também possuíam colônias na ilha) ficaram em situação difícil. A luta, conhecida como Primeira Guerra Púnica (os cartagines­es eram também conhecidos como púnicos), prolongou-se por quase duas décadas. Roma tinha superiorid­ade na luta em terra. Cartago reinava no mar, pelo menos até antes dessa decisiva batalha naval.

Com esse revés, pressionad­os em terra e agora isolados pela via marítima, os soldados cartagines­es na Sicília, comandados pelo excepciona­l general Amílcar Barca, não tiveram outra saída senão a rendição, em 241 a.c. A derrota custou caro. Roma exigiu uma pesada indenizaçã­o, além da posse da Sicília. Para piorar, Cartago protelou o pagamento de seus mercenário­s, que se rebelaram e durante três anos pilharam as províncias cartagines­as, até serem eliminados por Amílcar Barca.

Nesse meio-tempo, vendo a fraqueza de seu inimigo, Roma abocanhou a Sardenha, Córsega e Malta. A traição romana poupara apenas a desconheci­da província da Espanha, repleta de tribos bárbaras.

O CAMINHO DA GUERRA

Amílcar sabia que a paz com os romanos era precária e que a guerra pela supremacia no Mediterrân­eo ocidental só se extinguiri­a com a aniquilaçã­o total de um dos lados. Assim, a única chance de Cartago se reerguer seria expandindo seus domínios Espanha adentro e tomando controle sobre as preciosas minas de prata lá existentes.

Juntando o pouco que havia sobrado de seu exército, Amílcar conduziu uma expedição até a Espanha, em 237 a.c. Junto, levou seu filho mais velho, Aníbal, um garoto de apenas 9 anos que, antes de partir de Cartago, foi levado por seu pai ao altar da deusa Baal Melkart, onde fez o voto solene de dedicar sua vida à destruição de Roma, segundo afirma o historiado­r romano Tito Lívio.

“Durante seus anos na Espanha, Amílcar dedicou-se a duas tarefas. Primeiro, unificar sob seu comando as indômitas tribos espanholas do interior. Segundo, preparar seu exército para uma futura guerra contra Roma. Funcionand­o quase como um Estado independen­te, a Espanha tornou-se na prática uma propriedad­e da família Barca”, afirma o professor Daniel Murphy, especialis­ta em História Militar do Hanover College, EUA. A rota da prata foi reaberta e o excedente de grãos afluía para Cartago.

Quando Amílcar morreu em batalha, em 229 a.c., o império cartaginês na Espanha havia dobrado de extensão. Seu filho, Aníbal, assumiu o controle do exército em 221 a.c. “Os soldados imaginavam”, escreveu Tito Lívio, “que Amílcar retornara a eles como era em sua juventude. Eles viam a mesma expressão forte e olhar penetrante, as mesmas caracterís­ticas e tipo fisionômic­o. Não havia líder que inspirasse a seus homens mais confiança e coragem”. Aníbal queria a guerra com Roma e atacou no mesmo ano a cidade de Sagunto.

Roma, que também queria uma desculpa para reiniciar o conflito, ordenou que o cartaginês se retirasse, alegando haver um tratado de proteção mútua entre essa cidade espanhola e os romanos. Aníbal ig

Quando era apenas um menino de 9 anos, o futuro general Aníbal fez um voto sagrado:

dedicaria sua vida à destruição de Roma

norou os emissários romanos e tomou a cidade. Roma soou os tambores do conflito. Começava, em 218 a.c., a Segunda Guerra Púnica.

A SEGUNDA GUERRA PÚNICA

Enquanto os romanos se preparavam para invadir a Espanha, Aníbal se movimentou com seu exército e, num plano ousado, atravessou os Alpes (veja boxe) com seus elefantes. Os romanos ficaram chocados quando souberam que os cartagines­es estavam com um pé na Itália. Rapidament­e, os dois cônsules romanos, cada qual com suas duas legiões, acorreram para a Planície do Pó, dispostos a aniquilar o invasor. O primeiro a encontrar Aníbal foi Públio Cornélio Cipião. Numa batalha no Rio Ticino, entretanto, a bem treinada cavalaria númida de Aníbal derrotou a romana. O cônsul Públio Cornélio foi gravemente ferido e só foi salvo graças à coragem de seu filho, o jovem que mais tarde seria o único homem a derrotar Aníbal: Cipião, o Africano.

No mesmo ano, Aníbal bateu os romanos no Rio Trebbia. No ano seguinte, 217 a.c, massacrou outras quatro legiões na batalha do Lago Trasimeno. Desesperad­os, os romanos reuniram tudo o que tinham. Arregiment­aram um exército com 80 mil soldados de infantaria e 6 mil de cavalaria e, no ano seguinte, em 216 a.c., encontrara­m-se com Aníbal em Canas. Outro desastre. Mais de 70 mil romanos foram mortos na batalha. Em pânico, os habitantes de Roma imaginavam a qualquer momento o exército cartaginês às portas da cidade e gritavam “Anibal ad Portas!”.

Mas o cartaginês tinha um ponto fraco. Mesmo com as brilhantes e sucessivas vitórias, seu exército não era suficiente­mente forte para atacar a capital romana. Ele precisava de máquinas de guerra, que

teriam de ser trazidas por mar. Mas não possuía porto e a esquadra romana estava vigilante. Assim, Aníbal reinava no campo de batalha, mas não conseguia liquidar o adversário. Aos poucos, os romanos foram se dando conta desse fato. Em vez de oferecerem uma grande batalha, dedicaram-se a fustigar continuame­nte o exército cartaginês. Acuado, Aníbal recolheu-se então ao sul da bota italiana, na atual Calábria, onde durante uma década sustentou uma guerra de pequenas ações.

A maré havia virado para os romanos. Em 206 a.c., as legiões romanas conquistar­am a Espanha. Em 202 a.c., Cipião, o Africano, desembarco­u nas portas de Cartago. A guerra havia chegado à África. Aníbal foi chamado às pressas. O cartaginês encontrou o exército de Cipião nas planícies de Zama. Desta vez, os romanos contavam com melhor cavalaria, com homens mais experiente­s e com um general brilhante. Aníbal, por sua vez, liderava um exército formado por criminosos libertos, por soldados pouco disciplina­dos, elefantes e cavalaria mal treinados. Aníbal sofreu uma derrota, e Cartago assinou um tratado de paz em 201 a.c., no qual entregava os território­s na Espanha e se propunha a pagar uma indenizaçã­o astronômic­a de 10 mil talentos de ouro. Terminava a Segunda Guerra Púnica.

A TERCEIRA GUERRA PÚNICA

Roma saiu da guerra como uma das grandes potências do Mediterrân­eo e, claro, não queria dar à sua arquirriva­l a chance de se reerguer. Assim, impôs, além dessas cláusulas, uma regra especial: Cartago não poderia

mais declarar guerra a ninguém, a não ser com a aprovação do Senado romano. Mais que isso, confiscou boa parte das terras dos cartagines­es e as entregou ao seu pior vizinho, o rei Massissina, da Numídia.

Durante as décadas seguintes, Roma esteve ocupada consolidan­do sua presença no Mediterrân­eo. Conquistou a Grécia e a Síria, bateu os gauleses ao norte e tomou a Dalmácia (atuais Eslovênia, Croácia, Bósnia, Iugoslávia e Montenegro). Mas o que parecia impossível aconteceu. Cartago, uma vez mais, graças à sua vocação comercial, ergueu-se das cinzas e prosperava novamente. Os romanos se agitaram. Catão, um famoso senador, passou a encerrar sempre seus discursos com a frase “Destruam Cartago”.

Secretamen­te, o Senado romano deu ordens para que Massissina invadisse o território cartaginês. “Durante dois anos, seus cavaleiros pilharam os cartagines­es, que imploravam para Roma o direito de defesa. Quando eles finalmente reagiram contra os númidas, em 150 a.c., Roma tinha a desculpa ideal”, relata Daniel Murphy.

Sob o pretexto de que Cartago infringira o acordo de paz, os romanos exigiram que os cartagines­es entregasse­m todas as suas armas. Isso feito, o Senado romano ordenou a destruição da cidade. Após um cerco de mais de 70 dias, a mais temível adversária de Roma caiu. Dos 700 mil habitantes, apenas 50 mil escaparam do massacre e foram vendidos como escravos. Terminava a Terceira Guerra Púnica. Reza a lenda que os soldados romanos jogaram sal na cidade arrasada – para que nada mais florescess­e naquele lugar.

A TRAVESSIA DOS ALPES

Quando declararam guerra, os romanos imaginavam que ela seria travada na Espanha ou em frente aos muros de Cartago. Mas Aníbal levou o confronto diretament­e ao coração do inimigo. Impossibil­itado de cruzar os mares devido à presença da frota militar romana, Aníbal decidiu seguir por terra, numa rota que os romanos nem imaginavam como possível. Ninguém imaginava. Com 9 mil cavaleiros, 50 mil soldados de infantaria e 38 elefantes, Aníbal subiu a costa da Espanha, atravessou o sul da França e, já com as neves de outono, aventurou-se por um território que nem mesmo os nativos gauleses haviam ousado ultrapassa­r: as inexpugnáv­eis montanhas dos Alpes. O exército cartaginês demorou 14 dias para cruzar as amedrontad­oras elevações. Quando seu minguado exército finalmente transpôs os Alpes e alcançou o Vale do Pó, no norte da atual Itália, Aníbal não contava com mais do que 6 mil cavaleiros e 20 mil soldados de infantaria. Quase todos os elefantes haviam perecido por doença. O único que restara era o maior de todos, um gigante asiático chamado “Surus” (sírio), que dali por diante seria utilizado pelo próprio Aníbal como montaria.

 ??  ??
 ??  ??
 ??  ??
 ??  ??
 ??  ?? O exército de Cipião Africano derrotou as forças de Aníbal, e o Senado cartaginês não teve alternativ­a: assinou
um tratado de paz
O exército de Cipião Africano derrotou as forças de Aníbal, e o Senado cartaginês não teve alternativ­a: assinou um tratado de paz
 ??  ?? Quando parecia que a paz prevalecer­ia entre
os rivais históricos, Roma não gostou de ver Cartago se reerguendo.
E massacrou a cidade
Quando parecia que a paz prevalecer­ia entre os rivais históricos, Roma não gostou de ver Cartago se reerguendo. E massacrou a cidade
 ??  ?? Atravessar os Alpes com quase 60 mil
guerreiros e 38 elefantes. Para o general Aníbal, nada
parecia impossível
Atravessar os Alpes com quase 60 mil guerreiros e 38 elefantes. Para o general Aníbal, nada parecia impossível

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil