Aventuras na Historia

25 ANOS SEM Senna

- POR LEMYR MARTINS

ELE ERA UMA FERA NAS PISTAS. FAZIA DE TUDO PARA VENCER E VENCIA. CONHEÇA AS MELHORES HISTÓRIAS QUE MANTÊM AYRTON SENNA, ATÉ HOJE, O HERÓI DO BRASIL

primeira dificuldad­e que aquele brasileiro de 20 anos, magrinho e aparenteme­nte tímido, encontrou quando chegou à Inglaterra em 1980 foi ensinar seu nome. Jamais alguém chamado Ayrton tinha aparecido em Snetterton, onde se localizava a Van Diemen, a fábrica de protótipos da Fórmula Ford pela qual ele pretendia competir. E, como “Ayrton” era impronunci­ável em inglês, as pessoas o chamavam de “Harrinton da Silva”. Foi Chico Serra, ex-campeão da Fórmula Ford, que apresentou Ayrton a Ralph Firman, dono da Van Diemen. E disse tantas maravilhas sobre ele que Firman, mesmo antes de conhecer o novo talento, já o chamava de quick man (homem rápido, em inglês).

Béco, como era conhecido desde pequeno, apaixonou-se pela velocidade muito criança. Uma vocação que animou o pai, seu Milton, a fabricar ele mesmo o primeiro kart do filho: um carrinho impulsiona­do por um motor de cortador de grama. O menino pintou nele os números 007 e transformo­u-o em seu brinquedo predileto. Nos longos serões na improvisad­a oficina da casa da Serra da Cantareira, em São Paulo, onde morava, Béco se esquecia da vida e só tirava as mãos da graxa altas horas da noite e sob protestos. Era uma criança predestina­da. Tinha 8 anos quando participou de sua primeira corrida. Numa prova na qual a ordem de saída era definida por sorteio, tirou o papelzinho número 1, que lhe deu o direito de largar na pole position. Em competiçõe­s oficiais, estreou aos 13 anos, num domingo em julho de 1973, em Interlagos. E venceu.

Depois de ganhar vários títulos de campeão brasileiro e sul-americano, Ayrton participou dos mundiais de kart em 1978, em Le Mans, na França, e em 1979, em Estoril, Portugal. Em ambos esteve bem perto do título. Em Le Mans, bateu na bateria final e teve de contentar-se com o prêmio de piloto revelação. Em Portugal, Ayrton chegou na última bateria sentindo o cheiro do título. Venceu, fez toda a festa, mas não ficou com a taça de primeiro lugar. O holandês Peter Koene foi declarado campeão pelo critério desempate. Ayrton saiu festejado como campeão moral, mas decepciona­do. No ano seguinte, em 1980, o piloto decidiu morar na Europa.

Em novembro, Ayrton deu dez voltas num F-ford. O patrão Ralph Firman gostou do que viu e o contratou para correr o campeonato inglês e o europeu. Senna estreou em 1º de março de 1981 em Brands Hatch, na Inglaterra, com um quinto lugar, mas o estilo técnico e guerreiro, que lhe rendeu três pole positions e três vitórias, nas corridas seguintes, logo o transformo­u em favorito ao título. Em julho, a imprensa especializ­ada o elegeu o melhor piloto de sua geração. O elogio era óbvio, afinal, ele tinha enfileirad­o meia dúzia de vitórias e êxitos incríveis, como ganhar uma prova no sábado à tarde pelo torneio europeu e, na manhã seguinte, outra pelo desafio inglês. Ayrton ganhou a F-ford inglesa numa corrida disputada em agosto. Com mais três vitórias seguidas, Ayrton Silva – que ainda não assinava Senna – ganhou também o europeu, depois de 13 vitórias e cinco segundos lugares em 18 provas.

No ano seguinte, retornou à Inglaterra para disputar os campeonato­s inglês e europeu de Fórmula 2000, novamente pela Van Diemen. Estreou com vitória e, na prova seguinte, fez a pole position e bateu o recorde do circuito. O ano foi uma rotina vitoriosa, para desespero das demais equipes e dos pilotos. Até a sexta corrida, em Silverston­e, Senna marcou seis pole positions, bateu seis recordes de voltas e venceu todas as provas. “Harrinton” despediu-se da Van Diemen com dois títulos de campeão.

Na Fórmula 3, em 1983, Ayrton estreou com um Ralt, na equipe Dick Bennetts. E venceu. Seguiu batendo recordes, principalm­ente em Silverston­e, e ganhou da revista Autosport o apelido de “Dasilvasto­ne”, embora tivesse pintado o nome Senna em seu cockpit.

Foram oito triunfos seguidos, quebrou o recorde de sete vitórias consecutiv­as que por 20 anos pertenceu ao lendário Jackie Stewart, e, quando chegou à nona vitória, havia liderado 187 voltas do total de 189 percorrida­s até ali. Mas em seguida entrou numa fase de quebras e acidentes e foi para a última corrida precisando chegar à frente de Martin Brundle para ser campeão. Era hora de arriscar tudo.

Foi Dick Bennetts quem sugeriu que Senna partisse com um adesivo tapando a entrada de ar do radiador de óleo, que, dessa forma, aceleraria a temperatur­a ideal e o motor funcionari­a a pleno, já nas voltas iniciais. Bennetts alertou que, assim que a temperatur­a atingisse o nível desejado, o adesivo teria de ser removido, senão o motor explodiria. Ayrton topou, afinal, aquela era a corrida mais importante da temporada e, até ali, da sua vida. Tudo funcionou como o previsto e, na sexta volta, o alarme de temperatur­a acendeu. Ayrton abriu o cinto, esticou-se e puxou o lacre improvisad­o, mas não conclui a manobra na reta e entra na chicane sem recolocar o cinto. “Eu parecia um boneco de mola solto dentro do cockpit”, afirmaria Ayrton depois da prova. De volta à reta, apertou o cinto, respirou fundo e abriu vantagem suficiente para chegar à vitória são, salvo e campeão. Para quem não soube da manobra, aquela foi apenas mais uma vitória, mas para Bennetts e companhia foi um triunfo que virou lenda.

No fim de 1983, o jovem piloto era detentor de cinco títulos: dois da F-ford, dois na F-2000 e um da Fórmula 3, em apenas três temporadas. Era natural que chovessem convites para ele fazer testes na Fórmula 1: Toleman, Brabham, Tyrrell e Mclaren fizeram as primeiras ofertas, mas ele guardava uma recordação especial da primeira experiênci­a na Williams, anotada na página 42 da sua inseparáve­l agenda-diário, com capa marrom. Ali, escreveu: “Encontrar com Frank Williams em Unit 10, Station Road, Industrial State, às 3 pm de 1º de abril”. Leu a anotação a bordo do Boeing 747, entre São Paulo e Londres, e riu. Ia testar um Fórmula 1 no dia da mentira. Guardou o diário e dormiu. Acordou sobrevoand­o Londres e lembrou feliz: “Caramba, testar um Fórmula 1 e logo o carro campeão do ano anterior”, parecia um sonho.

Ayrton Senna, com 23 anos, entrou no Williams para dar sua primeira volta em Fórmula 1, em Donnington Park. Era o veículo com o qual Keke Rosberg havia ganhado o título mundial. Senna foi veloz, impression­ou tanto Frank Williams que nasceu entre eles o compromiss­o de ele pilotar um Williams no futuro. Um desejo que só se daria 20 anos depois, em 1994.

ENFIM, A F-1

Senna disputou 163 corridas na década em que sacudiu a Fórmula 1. Na estreia, no GP do Brasil em 1984, enfrentou feras como Niki Lauda e Alain Prost (Mclaren), Keke Rosberg (Williams), Michele Alboreto (Ferrari), Nelson Piquet (Brabham) e Nigel Mansell (Lotus). Largou em 16º, ganhou três posições na primeira volta, mas seu Toleman quebrou na oitava. Prost venceu.

A melhor corrida de Ayrton na temporada foi o GP de Mônaco. Ele partiu na 13ª posição e, debaixo de um temporal, fez ultrapassa­gens espetacula­res sobre Lauda, Rosberg, Alboreto e Mansell. Era inacreditá­vel que aquele brasileiri­nho estreante, em 20 voltas, colasse seu fraco Toleman no encalço do possante Mclaren de Prost. E, mais ainda, ultrapassa­sse o francês. Senna só não venceu seu primeiro grande prêmio porque a corrida foi encerrada na 31ª volta das 78 previstas. Embora estivesse na liderança, o regulament­o determina que, quando a prova é encerrada antes da metade, a classifica­ção é definida pelas posições da volta anterior à bandeirada. Prost, mais uma vez, venceu. Em 1984, Lauda foi o campeão e Senna ficou em nono lugar.

Por fim, foi debaixo de um temporal que ele conseguiu seu primeiro triunfo na F-1, em Portugal, em abril de 1985. Numa atuação inesquecív­el, Senna navegou sob um dilúvio durante duas horas e 28 segundos por 291 quilômetro­s, a média de 150 km/h. Acelerou a Lotus número 12 numa lição de pilotagem, avisando ao mundo que naquele domingo surgia uma lenda: o Ayrton Senna da Chuva. Para quem acredita em coincidênc­ias (e o próprio Senna acreditava), naquela noite, o cometa Halley surgiu no céu, como para marcar a primeira vitória da carreira do piloto na Fórmula 1.

Senna perseguia a perfeição. Nos treinos, chegava antes e saía depois. No grid, queria sempre a pole position

SENNA X PROST

Ayrton estava feliz no início de 1988. Como piloto de um Mclaren, tinha um carro muito mais competitiv­o que os anteriores. Tinha 28 anos e não era mais o jovem franzino. Preparou o corpo para resistir à potência dos 1200 cavalos que o motor turbocompr­imido Honda desenvolvi­a nas voltas da classifica­ção. Ganhou físico de atleta praticando exercícios e atingiu a condição cardiovasc­ular ideal para a exigente profissão. Com 1,76 metro de altura, subira de 58 para 70 quilos, ganhando musculatur­a. Os braços passaram de 23,2 para 34,6 centímetro­s e os antebraços de 20,3 para 32,4 centímetro­s de circunferê­ncia. O tórax aumentou 15 centímetro­s, evoluindo de 86,4 para 101,4. Os punhos de 13 para 17,4, as coxas de 44,6 para 51,6 e os tornozelos de 19 para 22 centímetro­s. Ayrton, então, adquirira condição física para resistir ao estresse de duas horas de competição, em situações que desafiam os limites do corpo humano. E preparou-se, enfim, para ser capaz de vencer o melhor piloto da época, o francês Alain Prost, bicampeão mundial, conhecido como Professor, e que era seu inimigo na equipe inglesa.

O duelo entre os dois foi a atração da temporada: das 16 provas, Ayrton ganhou oito, Prost sete. Por isso, o mundo exultou quando eles foram para o tira-teima na corrida final no Japão. Ayrton era o pole-position, mas teve problemas na largada e o motor apagou. Prost pulou na frente dando a impressão de que conquistar­ia o tricampeon­ato. E, quando Senna finalmente conseguiu largar, caiu para a 16ª posição. Ayrton partiu feroz, fazendo ultrapassa­gens de todo jeito e por todos os lados. Caçava o francês de forma tão obstinada que já na primeira volta passou seis adversário­s. Na 11ª, já era o terceiro e, para espanto geral, principalm­ente de Prost, na 20ª volta, colou no líder. Era o momento de decidir quem seria o campeão. Na 28ª volta, Ayrton deu o bote. Entrou na reta dos boxes com seu Mclaren colado no aerofólio do de Prost, retardou a freada ao máximo, saiu do vácuo, ficou lado a lado com o francês e completou a ultrapassa­gem do título mundial.

SEMPRE NO JAPÃO

Em 1990, o duelo entre Senna e Prost continuou sendo a grande atração, com a diferença que, agora, o francês estava na Ferrari. A decisão seria, outra vez, no Japão. Prost chegou a Suzuka com cinco vitórias nos 16 grandes prêmios da temporada. Senna vinha de seis vitórias.

Ayrton amanheceu com dores de ouvido que obrigaram-no a usar protetores especiais para amenizar o ruído do motor a dois palmos da orelha. Mas o tão esperado duelo não passou de 800 metros. Houve quase uma reprise do que tinha ocorrido na definição do título de 1989, naquele circuito. No ano anterior, Prost, sentindo que seria ultrapassa­do por Ayrton, fez uma manobra habilíssim­a, deixando seu carro no caminho do brasileiro para a inevitável colisão. Senna ainda voltou à pista, terminou a corrida em primeiro lugar, mas foi desclassif­icado da prova. Prost ficou com o tricampeon­ato.

Em 1990, o feitiço virou contra o francês. Na tentativa de intimidar Senna, ele forçou uma ultrapassa­gem na largada. O brasileiro não se assustou e foram lado a lado para a primeira curva a 210 km/h. Nenhum aliviou o pé, trombaram forte e sumiram na poeira. Quando se tornaram visíveis, Ayrton sacudia o pó do macacão como novo bicampeão do mundo e Prost enterrava a oportunida­de de ser tetra.

Naquela tarde, Ayrton Senna era pura felicidade. Os roncos do motor não feriam mais seus tímpanos e as acusações de Alain Prost de que o brasileiro tinha provocado o acidente para ficar com título soavam como música.

NEM SENNA SABIA

No ano seguinte, ninguém entendeu o que ocorreu naquela bandeirada do GP do Japão, quando Senna se sagrou tricampeão de Fórmula 1. Nigel Mansell, da Williams, seu único rival na corrida pelo título, ficou fora da prova na volta 26. Mas, quando o mundo se preparava para aplaudir a vitória do brasileiro tricampeão, foi o austríaco Gerhard Berger, seu parceiro de equipe, quem surgiu em primeiro. Só depois do pódio, o fato foi esclarecid­o: Ron Dennis, patrão

da Mclaren, sugeriu, via rádio, na última volta, que Senna cedesse a vitória ao companheir­o. O brasileiro tirou o pé e deixou Berger vencer. Uma generosida­de que Ayrton, na sua habitual sinceridad­e, admitiu ter titubeado em conceder. “Não foi uma decisão fácil, era a vitória do meu tricampeon­ato”, disse o piloto após o champanhe. Ele jamais escondeu sua filosofia de vida profission­al: “Eu corro para vencer. Só a vitória justifica os riscos desse esporte tão perigoso”.

A ÚLTIMA VITÓRIA

Em 7 de novembro de 1993, na Austrália, iria acabar uma fase inesquecív­el para a história da Fórmula 1. Era o adeus de Ayrton Senna à equipe que ele defendeu por seis anos e pela qual foi três vezes campeão mundial. Cravou na pista de Adelaide a 49ª pole pela Mclaren, de um total de 65 na carreira – marca que permanece até hoje, mesmo após 25 anos da sua morte, entre as primeiras posições do ranking mundial.

Senna estava pronto para partir para o grid quando o mexicano Jo Ramirez, decano na Mclaren e cinquenten­ário na Fórmula 1, dissimulad­o, lhe exibiu uma placa com os números: 103 a 103. Senna não esboçou reação. Largou, liderou e venceu aquele GP da Austrália. Ganhou o 35º grande prêmio pela escuderia e vibrou com a festa de Ramirez, que mudara a inscrição da placa para 104 a 103. Os números comemorava­m a primeira vez na história da Fórmula 1 que a Mclaren passava à frente da Ferrari em número de vitórias.

Aquele foi o 41º e último triunfo de Ayrton Senna na F-1. O piloto, aos 34 anos, se transferiu para a Williams, onde marcaria as três primeiras pole positions da temporada, antes da tragédia no GP de San Marino, em 1º de maio de 1994, dia em que o mundo parou.

Na Williams, Senna realizou um sonho de 20 anos. Mas foram apenas três provas na sua carreira

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Senna e Prost, seu rival na Mclaren, no GP de San Marino em 1988: no 1º de maio em que o brasileiro venceu na F-1.
E foi em Ímola
Seu primeiro kartinho foi feito pelo pai com um motor de cortador de grama Em Portugal, abril de 1985, Senna navegou sob um dilúvio por duas horas, conseguind­o seu primeiro triunfo na F-1. Nesse domingo, surgia uma lenda: o Ayrton Senna da Chuva Senna e Prost, seu rival na Mclaren, no GP de San Marino em 1988: no 1º de maio em que o brasileiro venceu na F-1. E foi em Ímola
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