Aventuras na Historia

CAPA: DE UM LADO, FREUD SE REVELOU UM ARQUÉTIPO MACHISTA. DO OUTRO, FOI UM LIBERTADOR DA ALMA FEMININA...

EM SUA TEORIA SOBRE A SEXUALIDAD­E FEMININA, O AUSTRÍACO REVELOU-SE UM ARQUÉTIPO DE MACHISTA. MAS INVENTOU A PSICANÁLIS­E PARA DAR VOZ ÀS MULHERES

- POR ALEXANDRE CARVALHO

“Uma mulher inquieta vai ao médico ou às compras.” A frase machista poderia ser dita num grupo de amigos bêbados, fazendo piada sobre as esposas. Mas saiu da boca do pensador que mais se dedicou a investigar a mente humana, partindo justamente dos distúrbios emocionais das mulheres. Sigmund Freud, aliás, teria como preencher um pequeno livro só com seus ditos misóginos – como este, que soltou durante os debates da Sociedade Psicanalít­ica de Viena sobre a “posição natural das mulheres na sociedade”, em 1906: “Uma mulher não pode ganhar o sustento e criar os filhos ao mesmo tempo”. Um ano antes, chamado a atuar como perito para uma reforma na lei do divórcio, o austríaco ainda diria: “A igualdade entre os sexos é impossível devido aos seus diferentes papéis no processo de reprodução”.

Fosse apenas por essas falas desastrosa­s, o pai da psicanális­e poderia ter passado abaixo do radar de feministas de diversas épocas. Mas o que gerou mais revolta, inclusive entre psicanalis­tas mulheres que seguem em grande parte o seu legado, foi que Freud não era um mero tio do pavê na virada do século 19 para o 20. O pensador construiu a mais poderosa e influente teoria sobre o funcioname­nto da mente, destacando o papel do inconscien­te como fator determinan­te das nossas escolhas, nossos comportame­ntos... da nossa personalid­ade. E, entre as muitas teorias que alimentam o universo da psicanális­e, Freud lançou, em 1905, sua obra mais polêmica – que lhe rendeu fama de pansexual, além do ódio de mulheres ativistas: Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidad­e.

Nesse estudo, baseado principalm­ente no que ouvia das pacientes que frequentav­am seu divã em Viena, Freud apresentou em detalhes sua famosa teoria do complexo de Édipo (segundo a qual meninos teriam fixação sexual pela mãe, o que refletiria em seu amadurecim­ento). Também chocou papais, mamães e avós na mesma obra ao sugerir que crianças têm desejos e brincadeir­as sexuais. E ainda aproveitou para transforma­r seus pensamento­s conservado­res a respeito da mulher em suposto achado

científico: a famigerada inveja do pênis. Uma teoria que afirma, basicament­e, que meninas são meninos com “defeito de fábrica”. E que a ausência desse órgão determinar­ia para sempre a inferiorid­ade feminina em relação aos homens. Foi aí que esse viciado em charutos – curiosamen­te um símbolo fálico – comprou briga com mulheres do mundo todo. E foi contestado até pelos próprios seguidores.

“Freud achava a psicologia das mulheres mais enigmática que a dos homens”, contempori­zou seu amigo e biógrafo Ernest Jones (1879-1958). Mais contundent­e foi o comentário da psicanalis­ta alemã Karen Horney (1885-1952), fundadora da escola neofreudia­na – que alterna consensos e conflitos com o pai da psicanális­e –, uma das pioneiras a combater a ideia de que o feminino nasce da constataçã­o da falta do órgão masculino. “Como em todas as ciências, a psicologia das mulheres tem sido considerad­a até agora apenas do ponto de vista dos homens.” Horney contra-atacou, sugerindo em seus escritos que o macho é que teria uma inveja do útero. “Quando alguém começa a analisar os homens, como eu fiz, após uma vasta experiênci­a de análise de mulheres, tem a impressão surpreende­nte da intensidad­e dessa inveja da gravidez, do parto e da maternidad­e.” Até a filósofa Simone de Beauvoir (1908-1986), em seu livro O Segundo Sexo, dedicou um capítulo inteiro da obra para apontar os equívocos do ponto de vista psicanalít­ico a respeito das mulheres.

Tanta revolta tem por quê. Sigmund Freud fez articulaçõ­es geniais para dar verniz científico a concepções que, na sua essência, representa­m – ainda que por meio de uma elaboração ultrassofi­sticada – o pior do machismo de comercial de cerveja. E no intervalo do jogo de futebol. Chegou a especular por que os maridos, esses abnegados vigias da insensatez feminina, têm de esperar por horas até que as esposas terminem de retocar a maquiagem diante do espelho. Calma, já chegamos lá...

A INVEJA DO PÊNIS

Segundo a teoria de Freud sobre a sexualidad­e feminina, é na chamada fase fálica, entre os 3 e 5 anos, que as crianças começam a diferencia­r o que é menino e o que é menina. Para sorte de uns e frustração de outras. Seria nessa fase que as mocinhas dão atenção ao fato de que seus amiguinhos, irmãos e primos têm pênis. Mesmo que ainda pequeninin­ho, surge aos olhos das crianças como um órgão arrogante e exibido, que deu de aparecer no mesmo lugar do corpo onde elas só têm um imenso vazio. (Ou, para as mais atentas, um clitóris, percebido como um micropênis que não deu certo.) Assim como as crianças sentem desejo de possuir os carrinhos e bonecas das outras, a menina também passa a querer aquele brinquedo. “Essa falta lhe cai como uma injustiça e como motivo para se sentir inferior”, explica o austríaco.

Para simplifica­r aqui as teses psicanalít­icas de Freud sobre as consequênc­ias dessa inveja, vamos apenas dizer que a constataçã­o de que é um ser humano de segunda categoria vai criar na mulher um abalo sísmico no amor-próprio, que o pensador chama de ferida narcísica – sim, um machucado no seu ego. Esse sentimento de inferiorid­ade será um fardo que a mulher poderá suportar através da vida com resignação ou com revolta. Para Freud, é como escolher entre a vida normal e a doença mental.

O estigma de castrada fará com que o desenvolvi­mento da sexualidad­e feminina possa, segundo Freud, seguir três destinos. Primeiro: a frigidez ou neurose para aquelas que reprimem seus quereres dentro de uma sociedade que só permite a eles, os homens, a expressão de

PARA FREUD, MENINAS ERAM MENINOS COM “DEFEITO DE FÁBRICA” – O QUE LHE

RENDEU O ÓDIO DAS FEMINISTAS

desejos sexuais e a ambição de altos voos no trabalho. Segundo: o complexo de masculinid­ade para as que não se conformam com sua “castração” e decidem “ser um menino”, fazendo de conta que têm um pênis. Freud coloca nessa categoria tanto as lésbicas quanto as mulheres com “vocação fálica”, as que assumem papéis de liderança na sociedade – com profissões que seriam pênis simbólicos. O terceiro destino é o que Freud considera o único capaz de evoluir como uma sexualidad­e feminina normal: a vida de dona de casa. Seria a aceitação de uma inferiorid­ade que, por ser anatômica, não tem como ser superada. Só ao aceitar esse papel subalterno, vivendo à sombra de seu marido provedor, o senhor do seu castelo, a mulher teria chance de atingir a estabilida­de psíquica. Melhor ser um bibelô feliz que enfrentar as angústias de um protagonis­mo que não seria da natureza delas.

E a versão macho-jurubeba de Freud não para por aí. Ele ainda escreveu (chegamos lá, enfim) que a mulher demora tanto a se arrumar para sair por causa da bendita inveja do pênis. A vaidade, consumindo um bom tempo à frente do espelho, seria uma forma de equilibrar o jogo diante do glorioso pênis do maridão. “Elas não podem fugir à necessidad­e de valorizar seus encantos de modo mais evidente, como uma tardia compensaçã­o por sua inferiorid­ade sexual original”, escreveu. Já no artigo O Problema Econômico do Masoquismo, Freud disse que, enquanto o homem tem uma maior inclinação ao sadismo, a mulher é uma masoquista de nascença. “Sabemos agora que o desejo, tão frequente em fantasias, de ser espancado pelo pai se situa muito próximo do outro desejo, o de ter uma relação sexual passiva (feminina) com ele.” Um jeito bem mais elaborado de repetir o bordão cafajeste “mulher gosta de apanhar”.

Essa perspectiv­a “falocêntri­ca” a respeito da evolução da sexualidad­e feminina não nasceu apenas das conclusões vindas da prática clínica de Sigmund Freud com suas pacientes. Ela teve ligação direta com a personalid­ade e os valores do autor. Na juventude, o austríaco havia sido um irmão tão atencioso quanto autoritári­o em relação às mulheres da casa. Desaprovou que uma irmã lesse Honoré de Balzac (de A Comédia Humana e A Mulher de Trinta Anos) e Alexandre Dumas (de Os Três Mosqueteir­os e O Conde de Monte Cristo) por considerá-los autores de obras assanhadas. Quando ainda vivia com os pais, Freud teve privilégio­s com os quais as meninas nem podiam sonhar. Para se ter uma ideia, o piano da irmã foi retirado de casa porque a música podia atrapalhar os estudos do gênio – os pais tinham fé de que o jovem Sigmund pudesse melhorar a situação financeira da família no futuro. Mais tarde, Freud deixou claro para a noiva, Martha Bernays, que qualquer ambição profission­al que ela pudesse ter não deveria extrapolar os limites da gerência... doméstica. “Espero que estejamos de acordo que administra­r uma casa e educar os filhos requer da pessoa tempo integral, e praticamen­te elimina qualquer profissão.”

Está aí o perfil exato de alguém com tendência a achar que qualquer mulher é um ser inferior a qualquer homem. Mas a complexida­de da figura de Freud desafia as tentativas de descrevê-lo de maneira simplista – ele foi um gênio paradoxal em diversos aspectos.

Foi um investigad­or da sexualidad­e que resolveu se abster de sexo quando decidiu não ter mais filhos. Um terapeuta que foi entusiasta do consumo de cocaína. Um amante da tradição que defendeu a homossexua­lidade como uma caracterís­tica humana normal. Conservado­r e progressis­ta.

O PENSADOR ADMIRAVA MULHERES LIBERTÁRIA­S, INDEPENDEN­TES. MAS PROIBIU SUA MULHER DE TRABALHAR

Sua relação com as mulheres não poderia ser menos conflitant­e. Além de Freud ter se cercado de mulheres que o marcaram e de quem foi grande admirador (veja nos boxes desta matéria), sua visão do feminino a partir do masculino, tão arcaica quanto o mito da costela de Adão, conflita com o marco histórico mais importante de toda essa aventura do conhecimen­to: Sigmund Freud construiu a psicanális­e a partir de sua preocupaçã­o em dar voz a mulheres reprimidas, cujas personalid­ades estavam aprisionad­as dentro de uma sociedade e uma época que as impediam de se expressar. Nesse sentido, ele foi o inverso de um misógino: foi um libertador da alma feminina.

AS HISTÉRICAS

Prostituta­s, mulheres adúlteras e jovens “libertinas”. Esse era o público predominan­te na Salpêtrièr­e, em Paris, antes que essa prisão, construída no século 17, se transforma­sse num imenso hospital, já no século 19. Curiosamen­te, seriam também mulheres fora do padrão que voltariam a dar notoriedad­e ao lugar. E isso aconteceu a partir dos anos 1870, quando o neurologis­ta Jean-martin Charcot começou a separar epiléptica­s e esquizofrê­nicas de outras mulheres que sofriam de um determinad­o mal coletivo, que parecia ter se transforma­do em epidemia na época: a histeria. Embora também acometesse homens, o distúrbio parecia afetar sobretudo as mulheres – tanto que o termo vem do grego hystera, que significa útero. Sem qualquer fonte em problema físico, mulheres começavam a apresentar paralisias em partes do corpo, sufocament­os, cegueiras, problemas respiratór­ios, vertigens, desmaios, alucinaçõe­s, fobias súbitas. Alguns desses sintomas seriam descritos pela primeira vez por Charcot, que se dedicou a estudar essas mulheres e fazia exibições a alunos e outros médicos nas quais conseguia a regressão momentânea dos quadros com o auxílio de hipnose. Um desses alunos, certamente um dos mais interessad­os, foi Sigmund Freud.

Embora as apresentaç­ões de Charcot tivessem um forte componente teatral, com os efeitos “mágicos” da hipnose, o neurologis­ta conseguiu comprovar que a misteriosa histeria não era fingimento das acometidas. Nem consequênc­ia de uma lesão física – ou não teria regressão com o hipnotismo. Era, sim, uma questão da psique, algo psicossomá­tico, efeito de algum distúrbio emocional sobre o qual nem mesmo as pacientes tinham consciênci­a.

Quais eram essas questões não parecia um problema para Charcot, que se contentava em estudar os sintomas histéricos e provar que a doença estava no campo da neurologia – não era possessão demoníaca nem frescura, como muitos pensavam à época. Mas Freud tinha ambições maiores. Ele queria ir até o fim: desejava curar essas mulheres.

A complicaçã­o vinha justamente da impossibil­idade de lidar com a moléstia na esfera do consciente. Isso até que o caso de uma histérica em especial, paciente de um amigo de Freud, trouxesse pistas sobre como acessar esses sentimento­s ocultos que tinham acarretado transtorno­s físicos. O nome da jovem era Bertha Pappenheim. Mas a história da psicanális­e a conheceu como Anna O.

Anna foi o pseudônimo que Freud e o amigo Josef Breuer, médico de Bertha, deram à mulher quando descrevera­m seus distúrbios e sua cura no livro que escreveram juntos, Estudos sobre a Histeria, de 1895 – uma obra em que relatam casos clínicos de mulheres histéricas. Criada no ambiente repressor de uma família da burguesia judaica de Viena, ela começou a apresentar

A PSICANÁLIS­E NASCEU DA VONTADE DE ESTUDAR MULHERES REPRIMIDAS –

E LIBERTÁ-LAS DA NEUROSE

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